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terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Visão Holística

(Trecho do livro "Projeto Aurora - retorno a linguagem da consciência", de Paulo Stekel - saiba como adquirir acessando: http://stekelmusic.blogspot.com.br/2013/10/livros-de-stekel-e-books-em-pdf.html)



Visão Holística

A Visão Holística é a proposta emergente de transcendência dos velhos métodos mecanicistas. Mas sempre há o risco de que algo novo como a Holística venha a se transformar num mero modismo1., o que pode fazerem fracassar seus objetivos de melhora da humanidade, beneficiando apenas os que vivem às custas dos problemas mundiais. Sabemos da facilidade que os sistemas têm de se unir a seus inimigos ideológicos de forma mascarada, como forma de os ter sob controle.

Talvez o caráter excessivamente pacífico, ou antes passivo da maioria dos “holistas”, que parecem ainda maravilhados com as recentes descobertas da Ciência oficial e as últimas conquistas políticas (mascaradas) do mundo na “nova ordem”, seja o que mais contribua para um fracasso da visão holística. Como boa parte dos “holistas teóricos” - os que lançaram as bases desta “nova” visão - vieram das fileiras da Ciência oficial, lhes parece difícil se desatrelarem dela. Há ainda uma certa soberba com relação a ela!

A continuar assim, uma visão holística só mudaria a “visão” mas não o domínio da Ciência oficial sobre a humanidade, estabelecido há cerca de três séculos. Deixaria de promover a verdadeira revolução que se faz necessária quanto a este domínio pérfido.

Quando os holistas teóricos falam da Tradição Esotérica da humanidade como um de seus objetos de estudo, se esquecem que esta mesma tradição sempre deu ênfase ao estudo individual do conhecimento, a uma busca pela experiência pessoal, ao contrário das experiências acadêmicas, fadadas à mediocridade por causa dos métodos caducos a que estão atrelados os estudantes.

Sem o rompimento definitivo com o “oficial” e “acadêmico” não há como se falar em visão holística, pelo menos em sentido efetivo, real e prático.

Mas antes de ir adiante nesta análise crítica dos procedimentos dos holistas (estamos criticando a posição dos holistas, não a proposta de visão ampla da Holística), se faz necessário esclarecer alguns conceitos básicos da Holística.

O termo Holismo (hoje se prefere a palavra Holística), originado do grego hólos (“todo, inteiro”), apareceu primeiramente no livro “Holism and Evolution” (1925), do pensador sul-africano Jan Smuts.
A concepção holística é a de que tudo é interdependente: as partes de um sistema estão no todo, e os princípios que regem este todo estão em cada parte, sendo que todos os fenômenos estão sujeitos a uma ação global de interligação. O budismo ensina esta verdade há mais de 2500 anos!

O conceito de Hólon, criado por Arthur Koestler em 1967, também é muito importante na Holística. Nasceu da percepção de que partes e todo em seu sentido absoluto não passam de uma mera ilusão. Todas as entidades universais (atômicas, moleculares, biológicas e sociais) são consideradas todos (hólon), por serem estruturas integradas e também partes de outros todos, dentro do que podemos chamar de encadeamento hierárquico universal.

O homem, sendo um hólon, possui uma tendência integrativa, que o faz ter consciência de que faz parte de um todo (grupal, social, familiar, etc.), e uma tendência auto-afirmativa, que o faz ter a consciência de individualidade e de diferenciação em relação ao “resto” do todo. O ideal é que exista um equilíbrio dinâmico entre estas duas tendências, comuns a todos nós, o que é raramente acontece.

O pensamento holístico é convergente com os movimentos contraculturais da década de 1960, com as terapias alternativas e com a consciência ecológica, agora em voga com o nome de consciência sistêmica.2. Apesar de ter relações com estes movimentos, cuja característica é o desejo da libertação humana do grilhão mecanicista que nos atormenta há três séculos, a maioria dos holistas continua, se não de forma ideológica, pelo menos na prática, atrelada ao mecanicismo e a uma atitude de pacífica conivência com os sistemas dominantes, com o oficial, o governamental e o acadêmico. Essa passividade não combina com quem quer uma transformação definitiva da consciência humana, o que implica, necessariamente, em liberdade social plena.

Precisamos, não de liberdade ideológica (coisa que a China comunista ainda não conquistou), mas de uma liberdade de resultados em prol do coletivo e do indivíduo ao mesmo tempo. Isso não mudará enquanto as cabeças pensantes continuarem agindo nas elites, se esquecendo da parcela humana que é maioria e exatamente a maior vítima do descaso oficial: o homem comum.

É muito fácil divulgar ideias amplas como as da holística para médicos, advogados, diretores de grandes empresas, governantes, cientistas e líderes religiosos, continuando a manter as grandes massas alienadas. Pois, nada disso terá valor se esses líderes não estiverem interessados em passar o conhecimento a seus subordinados que, não tendo acesso nem à educação básica, jamais poderão perceber uma proposta tão abrangente como a holística. Se quisermos que esta visão adentra a consciência do homem, devemos levá-la até ele, indistintamente. Enquanto ficarmos esperando por atitudes governamentais, isso não ocorrerá. Enquanto a humanidade não aprender a se autogerir, a ser autossuficiente sem seus governantes corruptos, isso não será mais que uma utopia.

As classes mais altas sempre têm uma maneira autossuficiente de se desvencilhar dos problemas causados pelo descontrole do sistema de poder, mas as classes mais baixas não têm, e então, não surge ninguém para auxiliá-las, pois neste caso, é cada um por si.

Ora, esta é a verdadeira fraternidade? Quantas humanidades coexistem no mundo de hoje? Até parece que estas “humanidades” vivem em planetas diferentes! A indiferença, no seu mais amplo e cruel sentido, é o maior problema que a humanidade enfrenta agora, seja esta indiferença individual, coletiva ou governamental. É o único empecilho para o desenvolvimento da consciência global da humanidade.3. Para resolvermos a situação, não necessitamos mais de propostas amplas e eficazes, mas de ações amplas e eficazes.

Se a Holística não adotar uma posição mais séria e mais próxima do grande público, tenderá a servir somente às elites, que continuarão dominando as massas.

Os holistas definem que Holística não é Ciência, nem Filosofia e nem Religião. É uma espécie de visão antimecanicista que permite um intercâmbio dinâmico entre Ciência, Arte, Filosofia e Tradição (na qual englobam a Religião). Achamos que a Política, no sentido de arte de (bem) conduzir os homens, deveria constar como uma quinta proposição de intercâmbio, pois tudo depende dela, tudo está à sua mercê. De uma forma ou de outra, tudo depende de contingências políticas.

Definitivamente não podemos concordar com a divisão da Holística em dois caminhos, estabelecida pelo eminente psicólogo francês radicado no Brasil Pierre Weil, a quem muito admiramos e que tivemos oportunidade de conhecer em 2005, na UNIPAZ – Brasília.4. Este dividiu a Holística em Holologia e Holopráxis.

A Holologia é definida como “o enfoque intelectual, especulativo e experimental da Holística. Consiste nas atividades acadêmicas e científicas comuns, onde através do raciocínio lógico prepara-se o intelecto para empreender a aventura da especulação filosófica, da compreensão e da discussão dos textos, da elaboração das idéias”. Já a Holopráxis é definida como “o caminho vivencial para a experiência holística, de natureza transpessoal. (...) Consiste no uso do aspecto intuitivo da mente com a finalidade de despertar a vivência transpessoal, (...)”.5. A Holopráxis trabalha com a prática de técnicas tradicionais, como yoga, tai-chi-chuan, lutas marciais, etc.

Esta ideia de separação parece guardar a intenção de não se querer unir definitivamente o lado acadêmico com o da tradição. Contudo, a separação entre Ciência (Holologia) e Tradição (Holopráxis) não é real, pois pensamos que a Tradição é a Ciência pura de outros tempos. Seus métodos é que são diferentes; privilegia a experiência individual (veja e creia) e não a avaliação de outros, vê o todo sem fragmentar e afirma ser este plano físico apenas um entre muitos possíveis.

Como a maioria dos holistas não conhece a fundo a Tradição, se limita apenas a estabelecer relações filosóficas ou psicológicas dela com a Ciência moderna, e não percebe a relação de conhecimento de uma com a outra.

Nos próximos capítulos demonstraremos que a visão holística pode ser válida se unir a Ciência e a Tradição sem fragmentação, o que representa bem o conceito de Holognose que definiremos no Cap. IV.6. Com esta visão chegamos às conclusões de nossa teoria logolinguística, apresentada neste livro.

A Ciência (oficial) fragmenta; a Tradição considera o todo. Portanto, a Tradição sempre foi holística, ao passo que a Ciência ainda é seccionante e autodestrutiva, tendo entregado ao homem a possibilidade de destruir o seu pequeno mundo um sem-número de vezes.

1.Todo modismo é um idiotismo. É o uso popular de determinada coisa ou conhecimento, porém de forma geralmente adversa da original, a mais das vezes desregrada. Assim, temos o “modismo esotérico” da década de 1990 e o modismo das abduções, que esconde o lado sério do assunto.
2.A mídia está de olho na ordem do dia. Tudo pode virar um simples modismo se faltar a conscientização adequada e interesses coletivos acima dos individuais.
3.A consciência global seria, prevemos, a antítese do nacionalismo retrógrado, a atitude fragmentária mais antiga do mundo. Onde existisse uma consciência global não haveria necessidade de separação em nações, estados, raças ou grupos minoritários. Muitos dos problemas sócio-políticos da atualidade estariam, então, solucionados. Se pátria é o lugar onde nascemos, quem tem a consciência global sabe que nasceu no universo – é um universalista, não um nacionalista. Infelizmente, vemos que hoje alguns países andam na contramão destas idéias, vivenciando um surto violento de nacionalismo, que geralmente é preconceituoso e cerceia a liberdade de pensamento. Se considerarmos que democracia significa a soberania popular, é lógico que os povos soberanos das democracias têm o pleno direito de se decidirem pelo nacionalismo ou pelo universalismo. Tememos que a decisão da maioria não viesse a ser respeitada, aliás, o que é muito comum nas democracias de papel em que se converteu a maioria das nações.
4.Fragmentar quando a idéia é não fragmentar parece uma contradição, não é mesmo? A Tradição dos antigos não fragmentava.
5.Pierre Weil, citado em Iniciação à visão holística, de Clotilde Tavares, pág. 63 – Ed. Record, 1993.
6.A Holognose atua com uma abordagem que denominamos estratégia holística de guerra (guerra no sentido de campanha, luta por um ideal), e que será explicada no Cap. IV.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Ensinamentos Budistas 25, 26 e 27

* Conforme postado no grupo "Ensinamentos Budistas" do Facebook (Participe: https://www.facebook.com/groups/ensinamentosbudistas/)








Filosofia Esotérica no Antigo Testamento

(Trecho do livro "Elohê Israel - filosofia esotérica na Bíblia", de Paulo Stekel - saiba como adquirir acessando: http://stekelmusic.blogspot.com.br/2013/10/livros-de-stekel-e-books-em-pdf.html)





Algo que surpreende os especialistas na Bíblia é o número de imprecisões, traduções duvidosas e mesmo incertezas completas na tradução de certos trechos do Antigo Testamento hebraico (o texto dos judeus massoretas da Idade Média). Na análise exaustiva que fizemos do texto hebraico-aramaico do Antigo Testamento encontramos controvérsias em pelo menos 400 versículos! Quanta dúvida paira sobre a Palavra de Deus!

Para aqueles que quiserem comprovar por si mesmos nossa afirmação, apresentamos abaixo a lista dos 400 versículos. Se os leitores se apoiarem nos comentários e notas de rodapé da Bíblia de Jerusalém, terão uma idéia precisa das controvérsias pertinentes a cada versículo.

Eis os trechos, segundo os livros em que constam:

Gênese: Cap. 2.6; 6.3; 14.14; 15.2; 24.63; 27.40; 30.32,35,37,39 e 40; 31.8,10 e 12; 36.24; 41.43; 49.4 e 10.

Êxodo: Cap. 1.16; 3.2,3 e 4; 14.16; 21.22; 28.4 e 22; 32.4 e 25; 39.15.

Números: Cap. 5.28; 24.3,15 e 17.

Levítico: Cap. 5.21; 11.13,17 e 30; 13.48; 16.8,10 e 26; 26.16.

Deuteronômio: Cap. 14.5,12 e 17; 24.20; 28.22; 32.15 e 26; 33.2,3,16 e 22.

Josué: Cap. 15.19 e 59; 17.11.

Juízes: Cap. 3.23; 5.21 e 26; 7.13; 8.7 e 16; 9.6; 14.18; 15.16; 19.22.

I Samuel: Cap. 1.6; 2.25 e 36; 9.7; 13.21; 14.4; 15.23 e 33; 19.20; 21.9.

II Samuel: Cap. 1.9; 2.29; 6.7; 17.13; 20.14.

I Reis: Cap. 6.4,8,9 e 21 [neste versículo há dois termos controversos]; 7.4; 12.10; 17.12; 20.27.

II Reis: Cap. 12.13; 15.5; 17.9; 18.4; 23.11; 25.12.

I Crônicas: Cap. 26.18.

II Crônicas: Cap. 6.26; 10.10; 26.21; 28.23; 35.22.

Esdras: Cap. 1.9; 2.57; 4.9[dois termos controversos],10 e 13; 5.3,6,9 e 16; 6.6 e 11; 7.12.

Neemias: Cap. 3.8 e 34; 5.7; 7.59.

Ester: Cap. 1.6 [dois termos controversos].

Jó: Cap. 4.12; 5.5; 6.6,7 e 14; 9.15; 11.18; 12.6; 13.27; 16.13; 18.9 e 12; 19.6,26 e 29; 20.10 e 24; 21.24; 26.9 e 14; 30.12,24 e 34; 31.11; 33.24 e 25; 34.20; 35.15; 36.18 [dois termos controversos] e 19; [idem]; 37.21; 39.1 e 18; 40.2,15,18 e 20.

Salmos: Cap. 7.1; 9.1; 12.2 e 9; 16.2; 17.12 e 14; 19.7; 20.6; 27.12; 31.21; 32.4 e 7; 35.16; 38.9; 39.6; 42.5 [dois termos controversos] e 11; 48.3,14 e 15; 49.9; 55.3 e 16; 58.9 e 10; 68.14,18,23,31 [dois termos controversos] e 32; 71.15; 72.16; 73.4 e 10; 74.6; 76.11; 77.11; 84.4 e 7 [dois termos controversos]; 88.16 [dois termos controversos]; 90.3,5 e 10; 91.4; 109.22; 119.96 e 113; 141.6.

Provérbios: Cap. 3.26; 6.3; 7.22; 9.3 e 13; 18.19; 19.23; 20.21; 21.8; 23.2; 25.11; 26.2; 29.21; 30.1 e 31 [dois termos controversos].

Eclesiastes: Cap. 2.8; 10.10; 11.10.

Cântico dos Cânticos: Cap. 2.17; 4.16; 5.12; 6.4 e 10; 7.10.

Isaías: Cap. 2.6; 3.23; 5.30; 8.1; 9.18; 10.18; 11.15; 14.31; 15.5; 16.8; 17.9 e 10; 19.8 e 10; 20.4; 22.5 e 18; 23.13; 24.6 e 16; 25.11; 27.8; 28.15,16 e 25 [dois termos controversos]; 29.3 [dois termos controversos] e 7; 32.5 e 7; 33.3,7 e 16; 34.15; 38.10; 40.20 [dois termos controversos] e 22; 41.14; 50.4; 51.20; 52.14; 57.13; 59.10; 61.10; 65.4.

Jeremias: Cap. 2.19; 5.28; 11.16; 14.1 e 4; 17.11; 25.34; 29.17; 33.6; 43.9 e 10; 48.9; 49.16; 50.29; 52.15 e 16.

Lamentações: Cap. 1.20; 2.11; 4.9.

Ezequiel: Cap. 1.4,14,24 e 27; 7.7,11 e 23; 8.2; 13.20; 16.4,10,13,30 e 36; 17.9; 19.9; 20.37; 21.18,19,20,21 e 27; 22.22 e 24; 23.20 e 42; 24.10; 27.15,17,19,20,24 e 32; 28.9 e 14; 31.15; 32.5,6 e 26; 34.12; 40.16 e 43; 41.8,9,11,16 [dois termos controversos] e 26.

Daniel: Cap. 2.5; 3.21,27 e 29; 6.19; 7.6; 9.25 e 27; 11.32.

Oséias: Cap. 4.5,13 e 18; 5.2; 6.8; 7.8; 10.10; 11.9; 13.5 e 8.

Joel: Cap. 1.17.

Amós: Cap. 2.13; 3.12 [dois termos controversos]; 5.11; 6.5; 9.1.

Obadias (ou Abdias): O vers. 6 de seu único capítulo.

Miquéias: Cap. 1.13; 2.4 e 12; 4.11; 7.3.

Naum: Cap. 1.10; 2.4; 3.18 e 19.

Habacuc: Cap. 2.5 e 16; 3.1,9 e 10.

Sofonias: Cap. 2.1 e 11; 3.3 e 10 [dois termos controversos].

Zacarias: Cap. 1.8; 4.7; 6.3 e 7; 9.12.

A primeira citação direta de Anjos [hebr. Myk)lm – mal'akhim, “mensageiros”] na Bíblia está em Gênese 3.24. Ali se diz que Deus colocou “querubins” para guardar o caminho da Árvore da Vida. Como dissemos no Tópico 32, os querubins hebreus são uma cópia dos karibu mesopotâmicos, espécies de gênios protetores das entradas. Segundo Blavatsky, os anjos são os protetores do gênero humano e os Senhores do Carma. Dos sete anjos principais (os Anjos da Face), quatro estão ligados à terra, à matéria, e sobre ela têm sua influência. Estes quatro anjos foram descritos pelo profeta Ezequiel na seguinte visão:

“Eu olhei: havia um vento tempestuoso (...) uma grande nuvem e um fogo chamejante (...) No centro, algo como forma semelhante a quatro animais, mas cuja aparência fazia lembrar uma forma humana. Cada qual tinha quatro faces e quatro asas (...) tinham forma semelhante à de um homem, mas os quatro apresentavam face de leão do lado direito e todos os quatro apresentavam face de touro do lado esquerdo. Ademais, todos os quatro tinham face de águia (...) Olhei para os animais e eis que junto aos animais de quatro faces havia, no chão, uma roda (...) Todas as quatro eram semelhantes entre si (...) davam a impressão de que uma roda estava no meio da outra (...) porque o espírito do animal estava nas rodas.”(Ezequiel 1.4-20)

Os gnósticos ofitas substituíam a figura de Homem do primeiro animal pela de um dragão, a serpente mística da Sabedoria. Para eles, o Dragão representava o Anjo Rafael, o Leão o Anjo Miguel, o Touro o Anjo Uriel e a Águia o Anjo Gabriel.

Em hebraico, l)pr (Refa'el – Rafael) vale 311, mesmo valor de #y) ('ish – homem). Além disso, 3+1+1 = 5, o número do pentagrama, representação do Homem. Portanto, os gnósticos ofitas viam no Dragão o símbolo do Homem iniciado.
Miguel, em hebraico l)kym (Mikha'el), vale 101, assim como hkwlm (melukhah - “realeza, reino”), uma evocação de poder. E, 1+0+1 = 2, o número cabalístico da Sabedoria (Sofia) e da Criação, simbolizado no Leão.
Uriel, em hebraico l)yrw) ('uriy'el), vale 248, assim como rxm (machar - “amanhã, futuro”). Uriel é aquele que conduz o homem para o futuro, para o seu destino – o Renascimento após a Iniciação. Isso é representado no Touro.
Gabriel, em hebraico l)yrbg (Gavri'el), vale 246, assim como hrm) ('imrah - “palavra, dito”). Representa a Palavra do Uno (O Absoluto) que tem o poder de gerar o Universo.
Assim, Gabriel é o Logos (o Cristo Cósmico), Miguel é o Universo gerado por ele, Rafael é o Homem como ser espiritual e Uriel é a continuidade ou perenidade da Consciência.

Num sentido mais aprofundado: Gabriel é o Logos manifestado pela Sabedoria (Sofia) do Absoluto, e sua natureza é Natureza de Sabedoria; Miguel é o Universo emanado da Natureza de Sabedoria ou o Homem Celeste, e sua natureza é Natureza de Magnetismo; Rafael é o Homem ou o próprio Logos descenso no Universo, cuja natureza é Natureza de Divindade e de Coesão, sendo a ligação entre o Logos e o Universo; Uriel é a Continuidade dos Elementos Universais, o que ocorre por uma força interna ou Luz Oculta. Esta Luz Oculta é, no Logos o Absoluto, no Universo o Sol, no Homem o Eu Superior (Cristo Interno) e nos Elementos as forças de interação que mantêm os átomos unidos.

Vejamos como seria a origem do mundo se interpretássemos o primeiro capítulo de Gênese segundo a Sabedoria gnóstica destes quatro anjos:

“Ora, a terra estava vazia e vaga [i.e., não havia sido ainda manifestada pelo Logos], as trevas cobriam o abismo, e um vento de Deus [i.e., o Absoluto] pairava sobre as águas.
Deus disse: 'Haja um firmamento no meio das águas e que ele separe as águas das águas', e assim se fez. (...) e Deus chamou ao firmamento 'céus' [i.e., o espaço ou o nosso universo]. (...) segundo dia.
Deus disse: 'Façamos o homem [i.e., agora é o Logos, dividido em sete criadores, que fala no plural] à nossa imagem, como nossa semelhança, (...)'. (...) sexto dia.
Deus concluiu no sétimo dia a obra que fizera e no sétimo dia descansou, (...) [i.e., estava assegurada a continuidade dos elementos universais].” (Gn 1.2-4, 6-8, 26, 31 e 2.2)

Observe-se que no primeiro dia o Absoluto manifestou o Logos, entre o segundo e o quinto dia o Logos emanou o universo, no sexto dia o Homem foi criado e no sétimo dia foi estabelecida a continuidade dos elementos. A tarefa mais demorada parece ter sido a emanação do universo, que levou quatro dias [cada dia é um ciclo cósmico de milhões de anos], sendo o quatro o número da matéria.

Em Gn 1.1, Deus é denominado Myhl) (Elohim); em Gn 2.4, é Myhl) hwhy (Yavé Elohim); em Gn 4.1, é hwhy (Yavé).
Elohim são os sete construtores emanados do Logos. O termo soma 646, que equivale ao hebraico rwnt (tannur - “forno”), pois os Elohim (os “deuses”) são os forjadores do Universo.
Yavé Elohim pode significar “O Existente [entre os] deuses”. É a consciência dos Elohim descendo à matéria (o Jardim de Éden), promovendo a coesão entre o plano do Logos (o universo manifestado) e o plano do Absoluto (o imanifestado).
Yavé é o Homem (Celeste) ou a Glória do Logos nos Elementos. Caim é o primeiro representante desta Glória, ainda imperfeita, e Abel o segundo, já melhorado, depois substituído por Seth.
Esta simbologia vale especialmente para o livro de Gênese, pois nos livros posteriores do Antigo Testamento, os três nomes são usados ser diferenciação.

Como dissemos, a Criação do mundo como apresentada no cap. 1 de Gênese não foi ideia de Moisés. Este conhecia os relatos da Criação dos egípcios, ao passo que a Bíblia apresenta apenas a versão babilônica, que os judeus trouxeram da Mesopotâmia nos tempos de Esdras. O número sete é repetido exaustivamente nas tabuletas cosmogônicas assírias, caldaicas e acadianas. Nestas tabuletas, o nome que corresponde ao Adão bíblico é usado num sentido coletivo, de humanidade, e nunca parece se referir a um só indivíduo, como se acreditou a respeito de Adão por muito tempo. Para os babilônios, Adão é Adamu, a Raça Escura. Para estes, os Sete Deuses Criadores, cada um dos quais criou um homem (um Adão!) ou grupo de homens, eram: Zi (Vida), Zi-ku (Vida Nobre), Mir-ku (Coroa Nobre), Libzu (Sábio entre os deuses), Nissi, Suhhab e Hea (ou Sa), a Síntese de todos, o Deus da Sabedoria e do Oceano, o Demiurgo ou Criador. Eis a origem dos sete dias de Gênese.

Boa parte da antropogonia de Gênese também tem origem na Mesopotâmia e não em Moisés. Às vezes, encontram-se algumas fusões entre as duas tradições, como consequência das adições sacerdotais. Seguindo os ensinamentos da filosofia esotérica contidos em “A Doutrina Secreta”, de Helena Blavatsky, concluímos que:

O Adão de Gn 1.26 a 2.17 é considerado a primeira criação humana dos Sete Elohim ou Anjos Criadores. É a primeira raça da terra, considerada sem sexo. Seu número cabalístico é o dois, sendo a Raça da Sabedoria ou a Raça Filha de Sofia.
O conjunto Adão-Eva de Gn 2.18 a 3.24 corresponde à segunda raça criada pelos Elohim. Trata-se de uma raça de andróginos inativos, cujo número cabalístico é o três: é a Raça Filha do Amor.
O conjunto Caim-Abel de Gn 4.1-24 corresponde à terceira raça, a dos hermafroditas que se separaram. Seu número cabalístico é o dez: é a Raça Filha da Mente, por ser a primeira a usar o raciocínio mental.
Por fim, o conjunto Seth-Enos de Gn 4.25-26 e 5.3-11 corresponde à quarta raça, separada em dois sexos. Seu número cabalístico é o quatro, representando a matéria mais grosseira: é a Raça Filha da Matéria.

Esta divisão em quatro raças primordiais antes da nossa raça atual (a quinta) – sem sexo, andrógina, hermafrodita e com dois sexos – é comum a todas as grandes iniciações do mundo, mas o Gênese adulterado pelos sacerdotes só apresenta a doutrina de forma muito velada.

187 – Segundo Blavatsky, na obra citada, do ponto de vista da filosofia esotérica, existem três dilúvios, cada um com sua simbologia: o primeiro dilúvio é o cósmico, referindo-se à Criação Primordial ou à formação dos céus e das terras; o segundo dilúvio refere-se à destruição do continente da Lemúria, quando os seres humanos eram hermafroditas; o terceiro dilúvio refere-se à submersão do continente da Atlântida. As referências bíblicas aos dois primeiros dilúvios são muito escassas, pois são eventos muito antigos. O primeiro dilúvio é referido veladamente em Gn 1.2 como o grande abismo, ao passo que as águas deste abismo só são separadas no vers. 6. A citação é cosmogônica e os eventos devem ter ocorrido há bilhões de anos, segundo a ciência moderna. O segundo dilúvio deveria ser citado no cap. 4 de Gênese, pois Caim e Abel representam a terceira raça, na qual ele teria ocorrido. Entretanto, só uma referência à expulsão de Caim. Este dilúvio teria ocorrido há milhões de anos, segundo Blavatsky. O terceiro dilúvio – o de Noé – é o mais detalhado da Bíblia (Gn 6.5 a 9.17), mas é uma cópia dos relatos da Mesopotâmia.

Na verdade, os três dilúvios se confundem, e o Noé bíblico tanto é o Tempo, quanto idêntico ao Espírito de Deus de Gn 1.2, como se pode perceber na confrontação de dois trechos:

“(...) as trevas cobriam o abismo, e um vento [ou espírito] de Deus [leia-se Elohim, os deuses] pairava sobre as águas.” [Gn 1.2]
“As águas subiram e cresceram muito sobre a terra e a arca [com Noé, o vento ou espírito] flutuava sobre as águas.” [Gn 7.18]

Noé é apenas um nome alegórico para representar todos os salvadores da humanidade do passado. O Manu hindu é a mesma alegoria. [ver Tópicos 36 a 39]

Blavatsky já alertava para o fato de que os 12 filhos de Jacó nunca existiram, a não ser no simbolismo. No tronco árabe dos afegão, segundo ela, é possível encontrar nomes muito parecidos com os das 12 tribos: Yussufzic (filhos de José), Zablistani (Zabulon), Ben-Manasseh (filhos de Manassés), Isaguri (Issacar).

A versão de Gênese que chegou até nós é mais uma reminiscência do Exílio em Babilônia, um reescrito vergonhoso do tempo de Esdras. A respeito, Blavatsky disse: “Os nomes de localidades, homens e até objetos, mencionados no texto original, são encontradiços entre os caldeus e os acadianos, estes os antepassados e instrutores dos primeiros.” [Ísis Sem Véu, Vol“(...) a narração bíblica judia foi uma compilação de fatos HISTÓRICOS, retirados da história de outros povos e ordenados segundo o critério judeu, exceto o Gênese, que é esoterismo puro e simples. (...) O Éden judeu foi uma CÓPIA da CÓPIA caldéia.” (“A Doutrina Secreta”, Vol. III]

Em hebraico, Md) (Adam – Adão) é a humanidade, pois a palavra é um coletivo para homem, ser humano, humanidade. Adam vale 605, que equivale ao pronome hebraico Mh (hem - “eles, aqueles”). E, 6+0+5 = 11 = 1+1 = 2, a Essência Divina da Sabedoria. Se Adão representa aqueles que têm esta Essência, isso se refere aos Sete Elohim originados da divisão do Logos. Esta é a primeira Humanidade. Se Adão é um coletivo, deriva de d) ('ad), cujo valor é 5, o número do Homem na Cabala, especificamente o Primeiro Homem. Então, os primeiros homens, que eram espirituais e não materiais, segundo o Zohar (obra cabalística medieval), possuíam a Essência Divina da Sabedoria do Logos, e foram os responsáveis pela queda na matéria, que gerou a humanidade atual.

Assim, o termo d) ('ed), escrito com as mesmas consoantes de Ad, e que aparece em Gn 2.6, traduzido como “corrente de águas subterrâneas” e, em Jó 36.27 como “caudal das águas celestiais”, nada mais é que as “águas primordiais”. Nwd) ('adon = 'ad+on) é o “Senhor Primordial” (o Primeiro Homem), assim como ynd) ('adonay = 'ad+on+ay) é “Meu Senhor Primordial”, ou seja, o Meu Deus Interno! ryd) ('adir = 'ad+ir, “grandioso”) equivale a “O Primeiro em Grandeza” e hmd) ('adamah = 'ad+amah, “terra, solo”) é “A Primeira Terra”.

O livro de Enoc é um dos apócrifos mais comentados do Antigo Testamento por seu rico simbolismo. Este personagem é citado em Gn 5.18-24 (Sacerdotal) como sendo o bisavô de Noé. Teria vivido exatos 365 anos! Porém, em Gn 4.17-18 (Javista), ele é apresentado como filho direto de Caim. Na primeira citação, Enoc é apenas uma alegoria astronômica: a translação da Terra, que dura 365 dias. Na segunda, representa a quarta raça, a da Atlântida (segundo Blavatsky), de onde saíram os Instrutores da quinta raça atual. Enoc (Kwnx – Chanokh) significa “instrutor”, e é uma alegoria para os iniciados de Atlântida, os avós iniciáticos de Noé, o salvador do dilúvio.

Gn 5.24 diz: “Enoc andou com Deus [Myhl) – Elohim], depois desapareceu, pois Deus o arrebatou.” Blavatsky vê aqui o resgate dos sobreviventes de Atlântida e os anjos seriam os protetores espirituais da Humanidade, representados na alegoria hindu do Manu de Raça.

Que existia um tal livro de Enoc sempre foi claro para os judeus que, todavia, não o incluíram em seu cânone, e os cristãos também o rejeitaram. Mas ele é citado tanto no Antigo Testamento (Eclesiástico 44.16 e 49.14) quanto no Novo Testamento (Lucas 3.37 e Hebreus 11.5). A Epístola de Judas cita Enoc textualmente (vers. 14 a 16). Parece que os autores do Novo Testamento tiveram o livro de Enoc como uma de suas fontes principais.

O livro foi reencontrado no séc. XVIII por Bruce, um viajante inglês, e a tradução só foi publicada pelo arcebispo Laurence, em 1821. Era uma versão etíope, cuja redação é do séc. I ou II a.C. O original, entretanto, deve ser mais antigo, para além do séc. III a.C., e é mesmo provável que seja uma obra da seita dos Essênios, o que indica um original aramaico.

O Novo Testamento, em muitas passagens, parece inspirado em Enoc. A Parábola do Bom Pastor, que salva as ovelhas dos mercenários e lobos, no Evangelho de João 10.1-18, tem seu paralelo no cap. 88 do livro de Enoc etíope. Leia-se João e compare-se com Enoc:

“Percebi em minha visão todos os pássaros do céu que acorriam, as águias, os milhafres e os corvos. E as águias conduziam todas as outras. E começaram a devorar as ovelhas, a furar seus olhos com bicos e a se nutrir de sua carne. (...) E percebi em minha visão os corvos que se lançavam sobre os cordeiros. (...) E eis que o Senhor dos rebanhos desceu inflamado pela cólera e todos os que o perceberam fugiram. (...) Vi ainda chegar até eles o Senhor das ovelhas, mantendo em sua mão o cetro de sua cólera, golpear a terra que se entreabriu e os animais e os pássaros do céu deixaram de perseguir as ovelhas e caíram nos abismos profundos da terra, que se fechou sobre eles. Vi também quando deu uma grande espada às ovelhas que perseguiram por sua vez os animais selvagens e os exterminaram. (...) A seguir, os setenta pastores foram julgados e reconhecidos como culpados e foram igualmente lançados no abismo inflamado. (...) Vi também o Senhor das ovelhas construir uma casa maior e mais alta que a primeira e construí-la no mesmo lugar em que o havia sido a primeira. (...) E o Senhor das ovelhas morava em seu interior. (...) As ovelhas eram todas brancas, a lã longa e isenta de qualquer mancha. (...) E seus olhos estavam abertos e contemplavam o Bom, e ele era apenas um entre elas, para aquelas que não o percebiam. (...) Vi então a natureza de todos ser transmutada e tornaram-se, todos, bezerros brancos. E o primeiro dentre eles tornou-se Verbo, e o Verbo tornou-se um grande animal e tinha em sua cabeça grandes cornos negros. E o Senhor das ovelhas rejubilava-se à vista de todos aqueles bezerros.” [Enoc etíope, cap. 88, vers. 2-48]

A semelhança é inegável. Os conceitos evangélicos de ressurreição, juízo final, imortalidade, condenação e Reino dos Céus, sob o domínio eterno do Filho do Homem, foram todos retirados do livro de Enoc, utilizado pelos Essênios, um ramo não-ortodoxo do Judaísmo, com algumas afinidades com o gnosticismo. O Apocalipse de João nada mais é que a adaptação das visões de Enoc ao ambiente cristão, para anunciar o fim do Império Romano, que foi literalmente absorvido pela nova fé!

Seja o Enoc bíblico, o Thot egípcio, os Edris do Alcorão, o Orfeu grego, o Hermes Trismegistos gnóstico ou o Ganesha hindu, todos são a mesma alegoria, no entender de Blavatsky: os sublimes Instrutores espirituais da Humanidade, os verdadeiros Instrutores da Filosofia Esotérica, que surgiram em todos os tempos.

Blavatsky diz, sobre Enoc: “(...) o Livro de Enoc é um resumo, um compêndio dos fatos principais das Raças Terceira, Quarta e Quinta; contendo pouquíssimas profecias relacionadas com a presente época do mundo; (...). Do capítulo 18 ao capítulo 50, as Visões de Enoc são todas descritivas dos Mistérios da Iniciação, um dos quais é o Vale Ardente dos 'Anjos Caídos'.” [“A Doutrina Secreta”, Vol. IV, seção VII] (ver Tópicos 01, 34, 35, 142, 155 a 157 e 170)

O livro de Enoc atual é uma cópia de textos mais antigos, cheio de adições, anteriores e posteriores à Era Cristã. Ensina sobre a preexistência do Filho do Homem, o Eleito e o Messias. Fala do “Senhor dos Espíritos”, do “Eleito” e de um “Terceiro Poder” [“(...) que naquele dia estava na Terra sobre as águas”], sugerindo a idéia posterior da Trindade, correlata à Trimurti hindu. Os fundadores do Cristianismo (Paulo e seus discípulos) utilizaram esta obra como base para a concepção dos conceitos principais da nova fé. Ou seja, a base do Cristianismo é uma obra preexistente a Jesus, agora considerada apócrifa!

Os Elohim ou Sete Anjos Criadores são os Sete Anjos da Presença, os Construtores e Cooperadores de Deus (segundo São Diniz), a Causa Secundária (segundo Tomás de Aquino), os Anjos de categoria inferior, construtores do mundo material (segundo o gnóstico Basílides), os Sete Anjos regentes dos planetas, os verdadeiros criadores do mundo (segundo Saturnilo e o monge cabalista Tritêmio).

Esotericamente (Blavatsky), os Sete Elohim são os sete princípios do Homem (corpo físico, duplo etérico, princípio vital, corpo das emoções, mente, alma espiritual e espírito). Na Cabala, são os sete mundos que compõem o cosmos: Originário [plano do Logos], Inteligível [plano dos anjos], Celeste [plano dos planetas], Elementar [plano dos elementos], Inferior [plano astral], Infernal [plano emocional] e Temporal [plano humano]. Os Elohim são chamados anjos inferiores porque fizeram apenas os corpos inferiores do homem, não sendo os responsáveis por sua mente.

Entre os antigos, o “Santo dos Santos” ou recinto sagrado no extremo ocidental do Templo de Salomão, simbolizava a ressurreição – cósmica, solar e humana. Era uma representação dos inúmeros ciclos cósmicos, dos menores aos maiores, sendo o Sol seu símbolo-base. A Arca da Aliança era uma representação do Sol, e por isso o rei David dançou nu à sua volta, como se fosse um planeta revolucionando em torno do astro-rei (ver II Sm 6.16-22). A “Arca” é um símbolo da Sabedoria (Sofia), e David dançou exatamente como os profetas de Baal ou os adoradores de Astarte (Vênus). Significava, ainda, o germe de todas as coisas. Na verdade, o culto de Deus na Arca não é anterior a David – não foi instituído por Moisés.

Atentemos para este trecho: “Quando o Altíssimo [Nwyl( - 'Eliyon] repartia as nações, quando espalhava os filhos de Adão, ele fixou fronteiras para os povos, conforme o número dos filhos de Israel; mas a parte de Yavé foi o seu povo, o lote da sua herança foi Jacó.” [Dt 32.8-9]

Se o Altíssimo repartiu as nações e a parte de Yavé era Jacó e seus descendentes, devemos entender que Yavé é um e Eliyon é outro deus? Pois, Eliyon (O Altíssimo) é o Sol, enquanto Yavé é um dos sete planetas, um Elohim, mais precisamente o anjo regente de Saturno (ytb# - Shabtay), segundo Blavatsky e os gnósticos egípcios, que viam nele apenas o regente do povo de Israel. Outros acreditam que Yavé é o anjo da Lua, do Sol ou de Júpiter, como entre os cristãos primitivos. Chama-se “astrosofia” à sabedoria iniciática escondida no culto astrolátrico. A Trindade cristã é astrosófica: O Pai é o Sol, O Filho é Mercúrio e o Espírito Santo é a Lua (ou Vênus, para outros).

A Serpente é o símbolo da Sabedoria e o emblema do Logos, e por isso Moisés fundiu a Serpente de Bronze, destruída depois. As “serpentes de fogo” no deserto têm o mesmo sentido. Como são animais ovíparos, representam a criação cósmica a partir do ovo divino e a Sabedoria integral, bem como a Eternidade. A Serpente é o símbolo dos iniciados.

Em Gn 6.1-4, os anjos rebeldes ou anjos caídos são chamados “Filhos de Elohim”, lit. “filhos dos deuses”. Em Jó 1.6, Satã é colocado entre estes “filhos dos deuses” ou Myhl)-ynb (Bnê-Elohim). Tais anjos, diz Gênese, se enamoraram das filhas dos homens e as desposaram. O apócrifo livro de Enoc diz o mesmo no cap. 7, e acrescenta mais sobre o que lemos em Gênese:

“(...) Então Samyaza, seu chefe, lhes disse: 'Temo que não possais cumprir vosso desejo, e que eu suporte sozinho a pena de vosso crime.' Mas eles lhe responderam: 'Nós o juramos.' (...) E assim juraram e se ligaram por mútuas execrações. Eram em número de duzentos, que desceram em Aradís, lugar situado nas vizinhanças do monte Armon. (...) Eis o nome de seus chefes: Samyaza, seu chefe; Urakabarameel, Akibeel, Tamiel, Ramuel, Danel, Azkeel, Sarakyal, Asael, Armers, Batraal, Anane, Zavebe, Samsaveel, Ertael, Turel, Yomyael, Arazael. Estes foram os chefes dos duzentos anjos e os demais que estavam com eles. E escolheram cada um uma mulher, e se aproximaram e coabitaram com elas; ensinaram-lhes a feitiçaria, os encantamentos e as propriedades das raízes e das árvores. E essas mulheres conceberam e partejaram gigantes, cujo talhe atingia trezentos côvados. Devoraram tudo o que o trabalho dos homens pudesse produzir e tornou-se impossível nutrí-los. Voltaram-se então contra os homens, a fim de devorá-los. (...) Azazyel ensinou, então aos homens o fabrico de espadas, facas, escudos, couraças e espelhos e, ainda, a confecção de braceletes e dos ornatos, o uso da pintura, a arte da pintura, (...) Amazarak ensinou todos os sortilégios, todos os encantamentos e as propriedades das raízes. Armers ensinou a arte de anular os sortilégios. Barkayal ensinou a arte de observar as estrelas. Akibeel ensinou os signos. Tamiel ensinou a astronomia. E Asaradel ensinou os movimentos da lua.” [Enoc etíope 7.3-13 e 8.1-8]

Aqui são citados 22 anjos diferentes, exatamente o número de letras do alfabeto hebraico. Este número representa a Perfeição, referindo-se à condição celeste dos anjos caídos, que são uma alegoria das forças cósmicas envolvidas no desenvolvimento da humanidade. Por isso se atribui a cada anjo certo tipo de conhecimento. Eles tinham a missão de ensinar os homens, não sendo, portanto, rebeldes. O Zohar, importante obra cabalística medieval, diz que os “filhos de Elohim”, ali chamados My#) ('ishim - “fogos” ou “almas”), não tinham qualquer culpa, mas “se misturaram com os homens mortais porque foram enviados à Terra com este objetivo”. O Zohar ainda os chama de “Homens-Espíritos” e diz que seu chefe é o anjo Azazel. Este nome divino foi deturpado no judaísmo de Esdras e passou a designar um demônio em forma de bode. Na verdade, é apenas o equivalente judaico do mito grego de Prometeu, que roubou o fogo de Zeus e levou o discernimento aos homens.

Como se pode ver, o simbolismo oculto é diferente do sentido teológico, às vezes antagônico. Enquanto judeus e cristãos vêm o arcanjo Miguel e o Deus semelhante ao homem como símbolo do Espírito, restando à Serpente o símbolo da matéria, a verdade da Filosofia Esotérica é o contrário: Deus como semelhante ao homem é a matéria; a Serpente é a Sabedoria do Espírito, transformada em Satã e no Diabo pelo judeu-cristianismo. Criado um Deus pessoal, se fez necessário um Diabo pessoal! O Satã bíblico é o anjo Samael da Cabala, o anjo de Marte, que representa a Sabedoria Oculta. O único diabo dos teólogos judaico-cristãos é a Sabedoria que tentam esconder dos incautos fiéis, pois estes, se a encontrassem, não precisariam mais da ignorância de seus sacerdotes!

Em muitos trechos bíblicos é difícil dizer se é Deus o Diabo que age:

Enquanto Tiago, em sua epístola, diz que Deus não tenta, subentendendo que o Diabo é quem o faz, Mateus, no Pai Nosso, pede que Deus “não nos deixe cair em tentação”. [ver Tiago 1.13 e Mateus 6.9-13]

Há uma identidade evidente entre a Serpente do Éden e o “Senhor Deus” [ver Gn 3.1-13]. “Deus” disse ao homem que, se comesse do fruto proibido, morreria. A Serpente (Sabedoria) esclareceu que ele não morreria, pelo menos imediatamente, mas se tornaria um “deus”.

Há ainda a identidade entre Yavé e Caim, pois, mesmo depois deste ter assassinado Abel, Deus o protege, colocando-lhe um sinal para que não fosse morto por ninguém [ver Gn 4.1-16]

Em II Sm 24.1, a “Ira de Yavé” (o próprio Yavé) manda o rei David recensear o seu povo; em I Cr 21.1, que narra o mesmo fato, é Satã quem induz David ao recenseamento. Afinal, qual das duas versões “inspiradas” é a verdade da Palavra de Deus? Ou devemos deduzir que Satã é o outro lado de Yavé, como o diabo persa Ahriman é o oposto do supremo Ahura-mazda?

O mesmo Yavé Deus que mandou as “serpentes abrasadoras”, “cuja mordedura fez perecer muita gente em Israel”, logo depois deu vida à Serpente de Bronze, curando os arrependidos [ver Nm 21.4-9]. Será que Yavé e Satã são os dois lados da mesma moeda?

Satã nada mais é que Seth, filho de Adão, e ambos são uma máscara para o deus egípcio Toth, deus da Sabedoria e escriba divino, mais tarde identificado como Hermes Trismegistos, isto é, Três vezes grande. Toth era o único deus que detinha o poder da Palavra, capaz de sustentar com vida o mundo criado pelo deus-sol, Rá.

A verdade da Bíblia é bastante polêmica: Moisés trouxe sua cosmogonia e seu culto do Egito; Esdras o deturpou e anexou trechos da mitologia mesopotâmica, apresentando-os como de “inspiração divina”; os cristão não-gnósticos forjaram os evangelhos a partir das obras secretas da Gnose.

Do início ao fim, as citações históricas da Bíblia devem ser postas à prova. As genealogias são forçadas, e mesmo a origem dos judeus é um mistério não resolvido. Como disse Blavatsky: “Eles tanto podem ser os Chandâlas desterrados da Índia antiga, os 'pedreiros' mencionados por Veda-Vyâsa e Manu, como os Fenícios de Heródoto, os Hicos de Josefo, descendentes dos pastores pâli, ou ainda um misto de todos esses. (...) Não obstante, seja qual for a origem dos judeus, deve ter sido um povo de raça híbrida, já que a Bíblia no-los mostra consorciando-se livremente, não só com os Cananeus, mas com gente de todas as nações e raças que se punham em contato.” [“Ísis sem véu”, Vol. II]

É mesmo possível que o nome Mhrb) ('Avraham– Abraão) signifique o “não-brâmane”, o que indicaria serem os hebreus (antepassados dos judeus) originários da Índia não-bramânica. Expulsos por alguma razão, refugiaram-se em Ur e depois na Palestina.

Se a Bíblia é um pálido eco da Iniciação do mundo antigo, os cabalistas e os gnósticos são os verdadeiros herdeiros desta tradição, e não os judaístas e os cristãos. Yavé é uma cópia (agora deturpada) do deus egípcio Osíris (o deus da ressurreição, cujo dia sagrado era 25 de dezembro!), Cristo o fantasma de seu filho Hórus, enquanto o Espírito Santo é a formosa Ísis... Tudo foi escrito numa linguagem universal de Mistério.

Os deuses de Israel são muitos, e os cristãos os transportaram em bloco para sua religião, mas nenhum deles é o Absoluto. O Yavé judeu (pós-exílico) e o Jesus cristão, ambos deuses pessoais, são muito diferentes do En-sof da Cabala. Este En-sof é a verdadeira divindade de Moisés: o Ilimitado, o Infinito, o Ancião dos Anciãos, o Eterno, a Causa Primeira, Impessoal, Sem Atributos. Não é o Criador, pois este é o Logos, emanado de En-Sof. En-sof é o Parabrahman dos hindus, para quem Ele é o Absoluto, a Realidade sem atributos e sem segundo, impessoal, inominado, Causa sem causa, Raiz sem raiz de tudo o que foi, é e será. Ele é o próprio Espaço cósmico infinito. E isto é Filosofia Esotérica Universal!

Eis alguns ecos deste Esoterismo Universal na Gênese de Moisés:

O Absoluto: É apresentado como o Espírito de Elohim que se move sobre as águas (Gn 1.2). É o nâda hindu (a “Voz do Silêncio”), o Áin e o En-sof da Cabala. O termo que designa o Absoluto no segundo versículo de Gênese é xwr (Ruach - “espírito, sopro, vento”), que vale 214 = 7. Ora, 214 também é o número de rh+ (tohar – a “claridade” do céu), citada em Êx 24.10 como estando sob os pés do Deus de Israel. O termo Ny) (Áin - “nada, vazio”), aplicado ao Absoluto pela Cabala, vale 711=9. Ora, 711 remete-nos ao termo N+b (beten - “interior”), pois o Absoluto está no interior de toda a Natureza. O número que o caracteriza é o nove, símbolo do todo cósmico.

O Logos recém emanado do Absoluto: É o Adão andrógino do cap. 1 de Gênese. É o Manu Svâyambhuva dos hindus e o Adam Qadmon (o Homem Celeste) da Cabala. Este Adão é o mundo abstrato, a presença da Divindade em sua glória, pois Adão vale 605 = 11 = 2, sendo 605 o valor de trd) ('adêreth - “glória, capa, manto”).

O Logos dual: É o Homem macho e fêmea de Gn 4.1, chamado hwhy (Yavé) ou hwx-hy (Yah-Chavah, Yah + Eva). Este segundo Logos é a humanidade na matéria, a glória e o poder do Logos (hwhy – Yavé vale 26, o mesmo valor da palavra dbk – Kavod, “glória, poder”). Este homem dual é o Adão Belial (o Homem Terrestre) da Cabala, o artífice do mundo, o demiurgo gnóstico, a Sabedoria Criadora.

A Sabedoria (Sofia): Aparece em Gn 3.20 na alegoria de Eva, a mãe de todos os homens. É a Vâch hindu, a linguagem mística e secreta, o Logos feminino, o poder oculto dos mantras, a Sata-rûpa (deusa de cem formas), a Sabedoria contida na Natureza. Noutro sentido, é o raio solar, a Gâyatrî hindu. É a hmkx (Chókhmah - “sabedoria”) dos cabalistas, a linguagem usada pelos homens antes da confusão das línguas (Gn 11.1-9).

Após o Exílio, Esdras refundiu os escritos dos judeus, grupou os fatos das diversas tribos, a fim de construir um relato aparentemente harmônico da criação e da história de Israel. O resultado não convence! Afinal, não se tratam de fatos históricos, mas de simbologia, que a ignorância de Esdras não foi capaz de compreender, interpretando na sua literalidade os arquivos antigos de Moisés e de seus sucessores. Já em plena Era Cristã, quando os talmudistas inventaram os pontos massoréticos, isto é, as vogais para a escrita hebraica, a confusão aumentou. [O hebraico, como o egípcio, o fenício e o árabe, é uma língua consonantal, isto é, representa apenas as consoantes, deixando as vogais subentendidas, transmitidas oralmente. Como as vogais é que determinam a flexão dos nomes e dos verbos, o não conhecimento delas dificulta a tradução de textos antigos.] Tal pontuação vocálica, às vezes é tão arbitrária, que se pode dar a um texto a interpretação que convier. Basta consultar um dicionário de hebraico bíblico para se constatar a confusão que é possível desde que se perdeu a vocalização e a interpretação correta. Apenas a Cabala pode resgar o real sentido dos termos bíblicos, pois não considera as vogais em suas operações místicas – as consoantes falam por si mesmas.

O Deus que falava face a face com Moisés era o seu Deus Interno e não um deus antropomórfico, concebido nos tempos de Esdras. Diz o Êxodo:

“Moisés tomou a Tenda e armou para ele, fora do acampamento, longe do acampamento. Haviam-lhe dado o nome de Tenda da Reunião. Quem quisesse interrogar a Yavé ia até a Tenda da Reunião, que estava fora do acampamento. (...) Moisés respondeu a Yavé: 'Rogo-te que me mostres a tua Glória.' Ele replicou: 'Farei passar diante de ti toda a minha Beleza, e diante de ti pronunciarei o Nome de Yavé.' (...) E acrescentou: 'Não poderás ver a minha Face, porque o Homem não pode ver-me e continuar vivendo.'” [Êx 33.7, 18-20]

A Tenda da Reunião representa a Perfeição de Deus, manifesta espiritualmente na Natureza criada. A face de Yavé é o seu Véu de Mistério. Este Véu é o limite entre o Absoluto (plano imanifestado) e o universo criado pelo Logos. O limite é o Logos ou Cristo Cósmico. Quem chegue a ele, pela Iniciação, não pode mais viver como um Ser separado do Absoluto, mas a este se une. Assim, o sentido místico dos trechos citados acima pode ser reconstituído:

“Moisés tomou a Tenda [d'O Elevado] e a armou para Ele, fora do acampamento, longe do acampamento. Haviam-lhe dado o nome de 'O Absoluto está na Natureza'. Quem quisesse interrogar O Existente ia até 'O Absoluto que está na Natureza', que estava fora do acampamento. (...) Moisés respondeu a O Existente: 'Rogo-te que me mostres O Teu Existente.' Ele replicou: 'Farei passar diante de ti todo o Meu Espaço Infinito, e diante de ti pronunciarei o Nome d'O Existente.' (...) E acrescentou: 'Não poderás ver o meu Véu. Porque o (próprio) Homem (Celeste, o Logos) não pode ver-me e continuar vivendo.'”

Estes trechos são impressionantemente semelhantes ao que está descrito no capítulo 11 do poema Bhagavad-Gîtâ [lit. “a canção do Senhor”], antiga obra hindu, parte da fabulosa epopéia Mahabhârata.
Comparemos:

“Ó Purushottâma, ó forma suprema, embora veja aqui diante de mim a Sua posição verdadeira, eu ainda desejo ver como você entrou nesta manifestação cósmica. Eu quero ver esta sua Forma Divina. Se você pensa que sou capaz de ver esta sua forma cósmica, ó meu Senhor, ó Senhor de todo o poder místico, então mostre-me, por favor, esta Eterna Alma Universal.
O Bem-aventurado Senhor disse: Ó filho de Prithâ [i.e., Arjuna, discípulo direto de Krishna, que é quem fala], olhe agora Minhas formas, centenas de milhares de formas, divinas variadas, multicoloridas. (...) Eis aqui as muitas coisas que ninguém jamais viu ou ouviu antes. (...) Mas você não pode Me ver com seus presentes olhos. Por isso, eu lhe dou olhos divinos com os quais você pode ver Meu poder místico inconcebível.
(...) Arjuna viu nessa forma universal bocas ilimitadas e olhos ilimitados. Era totalmente maravilhosa. (...) Se centenas de milhares de sóis surgissem a um só tempo no céu, eles talvez se assemelhassem à refulgência do Grande Senhor naquela forma universal. Neste momento, Arjuna pôde ver na forma universal do Senhor as expansões ilimitadas do universo situadas em um lugar ainda que divididas em muitos e muitos milhares. (...) Não há fim, não há começo e não há meio para tudo isto.
(...) Arjuna disse: (...) 'Ó Senhor dos senhores, de forma tão feroz, por favor me diga quem é você.'
(...) O Bem-aventurado Senhor disse: 'Eu sou o tempo, (...).'”

Compare-se esta visão do Bhagavad-Gîtâ com Êx 33.18-23 e 34.5-9, 29-35. A relação entre Arjuna (o discípulo) e Krishna (o avatar do deus Vishnu) guarda semelhanças com a relação entre Moisés e Yavé.



domingo, 23 de fevereiro de 2014

Ensinamentos Budistas 22, 23 e 24

* Conforme postado no grupo "Ensinamentos Budistas" do Facebook (Participe: https://www.facebook.com/groups/ensinamentosbudistas/)









Os Anjos no Antigo Testamento

(Trecho do livro "Deuses & Demônios - verdades inauditas e mentiras anunciadas sobre os anjos", de Paulo Stekel - saiba como adquirir acessando: http://stekelmusic.blogspot.com.br/2013/10/livros-de-stekel-e-books-em-pdf.html)

Observação: Para visualizar as letras hebraicas do texto você deve instalar em seu computador a fonte hebraica true type chamada SPTiberian, disponível gratuitamente pela internet)


Considerações iniciais

Sempre é importante “começar pelo começo”. Se nos propomos a fazer uma análise crítica e profunda da questão dos anjos, devemos nos remeter ao Antigo Testamento, fonte mais antiga que os cita. Logo perceberemos que a presença dos anjos na Bíblia é um tanto confusa, a ponto de não haver, em certas passagens, uma diferenciação clara entre as ações de Deus e as de seus mensageiros.

O texto que consultamos é o Tanach hebraico, isto é, a Bíblia judaica, com seus 24 livros. Deixamos de lado os livros deuterocanônicos que fazem parte da Bíblia católica porque foram escritos posteriormente e em grego. Escolhemos um total de cerca de 100 trechos que darão uma idéia bem estatística das concepções dos antigos semitas sobre os seres celestes.

A tradução das passagens foi feita, em sua maior parte, a partir da Bíblia de Jerusalém (Edições Paulinas, 1986), salvo quando a complexidade cabalística do texto exigiu uma tradução mais elaborada. Entre parênteses aparecerão os termos originais, quando conveniente.

1 – Gênese

“E disse Deus (Myhl) – Elohim): 'Façamos o Homem (Md) – Adam) à nossa imagem, como nossa semelhança...” [Gn. 1.26]

O nome utilizado para Deus neste versículo é Elohim, que é o plural de Eloah (hl) – Deus). O seu sentido, por mais que os teólogos criem estratagemas para confundir os leigos, é realmente o de “deuses”. Portanto, os “deuses” fizeram o Homem à sua imagem e semelhança. Mas, quem eram os “deuses”? Eram os anjos. Eloah é, portanto, o primeiro nome dos anjos na Bíblia e Elohim é o seu plural.

A correspondência astrológica destes nomes é simplesmente fantástica, como constataremos. O nome Eloah (singular), somados os valores numéricos de suas letras hebraicas, dá 36, ou seja, o número de decanatos nos quais estão divididos os 12 signos zodiacais [) + l + h = 1 + 30 + 5 = 36]. O plural Elohim dá o número 646, que se reduz assim: 646 = 6 + 4 + 6 = 16 = 1 + 6 = 7. Sete são os planetas conhecidos dos antigos. Se ainda somarmos o nome El (l) – Deus), de onde vem Eloah, temos 31 = 3 + 1 = 4 (os Quatro Elementos).

Esotericamente, diríamos que o trecho se refere à criação da humanidade segundo influências invisíveis dos seres regentes dos Sete Planetas astrológicos. Assim, os anjos conhecidos como Elohim nada mais são que os Espíritos (Logos) regentes dos planetas do sistema solar. São os Anjos Astrológicos, que presidem à formação e ao nascimento do ser humano.

“Mas Deus (Myhl) – Elohim) sabe, que no dia em que dele comerdes [i.e., do fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal], vossos olhos se abrirão e vós seres como deuses (Myhl) – Elohim), versados no bem e no mal.” [Gn. 3.5]

O interessante e teologicamente constrangedor aqui é ver o termo Elohim aparecer duas vezes e ser traduzido de formas diferentes: na primeira como “Deus” e na segunda como “deuses” (?). Que contrassenso linguístico é este? Não é mais possível manter o equívoco. Em ambos os casos são os “deuses”, ou melhor, os anjos, seres invisíveis que têm misteriosas ligações com os homens.

“Depois disse Yahveh Deus (Myhl) hwhy – Yahveh Elohim): 'Se o homem já é como um de nós, versado no bem e no mal, que agora ele não estenda a mão e colha também da árvore da vida, e coma e viva para sempre.” [Gn. 3.22]

Nesta passagem, o nome Elohim é modificado para Yahveh Elohim. A numeração, neste caso, passa a ser: Yahveh = 26 = 8 e Elohim = 646 = 16 = 7. Yahveh elohim seria, então, o oitavo Elohim, o chefe dos Sete. Daí a denominação dada a Yahveh de Senhor dos Exércitos – exércitos de Elohim ou Anjos. Isso o identifica com o anjo Metatron (Nwr++m) da Cabala medieval.

O plural para Elohim (“como um de nós”) é mantido no trecho acima. Talvez o Antigo Testamento possuísse muito mais passagens com Elohim no plural, evidenciando serem “os deuses” e não “Deus”, mas devem ter sido eliminadas nos tempos de Esdras, o fundador do judaísmo. Mas ainda restaram alguns resquícios da verdade anterior!

“Ele [Deus] baniu o homem e colocou, diante do jardim de Éden, os querubins (Mybrk – keruvim) e a chama da espada fulgurante para guardar o caminho da árvore da vida.” [Gn. 3.24]

Quem eram os querubins que teriam sido colocados para guardar a árvore da vida? Querubim (plural) soma 832 = 13 = 4 (os Quatro Elementos ou os quatro pontos cardeais). O singular é brk (Keruv), que soma 228 = 12 (os Doze signos zodiacais). Esta matemática sagrada nos leva a concluir serem os Querubins os anjos que presidem os elementos e a própria Terra, sendo os guardiães dos pontos cardeais. Cabalisticamente, o trecho que se refere à “chama da espada fulgurante” colocada “para guardar o caminho da árvore da vida” pode ser entendido como “o véu dos 22 poderes cósmicos [7 planetas + 12 signos + Céu, Terra, Mundo Inferior] posto para guardar a Sabedoria que conduz à Ordem Universal”. Os anjos mantêm esta Sabedoria oculta aos olhos dos homens.

“(...) os filhos de Deus (Myhl)-ynb – bne-Elohim, lit. “filhos de deuses”?) viram que as filhas dos homens (Md)-twnb – bnoth-Adam) eram belas e tomaram como mulheres todas as que lhes agradaram.” [Gn. 6.2]

Até o século IV os Padres interpretaram os “filhos de Deus” como sendo anjos culpados. Depois passaram a considerá-los como os descendentes da linhagem de Set (terceiro filho de Adão), sendo as “filhas dos homens” a descendência de Caim.

Cabalisticamente, Bne-Elohim soma 708 = 15, sendo 15 o número de Yah (hy), a abreviatura de Yahveh (hwhy), o mais sagrado nome de Deus. A rigor, a tradução da expressão é “filhos dos deuses”, isto é, semideuses ou deuses também. Já Bnoth-Adam soma 1063 = 10, que é o número da Divindade (o y – Yod) , sendo também uma abreviatura de Yahveh. Sua tradução literal é “filhas de Adão” ou “filhas do Homem”, sendo aqui homem o gênero humano e não um indivíduo.

Até aqui parece-nos ter identificado três classes de anjos: Elohim (anjos criadores), Querubim (anjos dos elementos e pontos cardeais) e Bne-Elohim (filhos dos Deuses ou anjos menores, semideuses ou algo como “semi-anjos”).

“E Yahveh disse: 'Eis que todos constituem um só povo e falam uma só língua. Isso é o começo de suas iniciativa! Confundamos a sua linguagem para que não mais se entendam uns aos outros.” [Gn. 11.6-7]

Aqui, mais uma vez “Deus” (agora o termo é Yahveh e não Elohim) fala no plural.

“O Anjo de Yahveh (hwhy K)lm – Mal'akh Yahveh) a encontrou [Agar, serva de Abraão] perto de uma certa fonte no deserto (...). A Yahveh, que lhe falou, Agar deu este nome: 'Tu és El-Ro'i (y)r-l))', pois disse ela, 'Vejo eu ainda aqui, depois daquele que me vê?'.” [Gn. 16.7,13]

Este trecho traz pela primeira vez a expressão “Anjo de Yahveh” e, por conseguinte, pela primeira vez o termo “anjo”. Analisemos: “Anjo” é “Mal'akh” (571 = 13 = 4, os 4 elementos); “Anjo de Yahveh” é “Mal'akh Yahveh” (597 = 21 = 3, a Natureza Trina – Céu, Terra, Mundo Inferior/Corpo, Alma, Espírito). O Anjo de Yahveh representa aqui, a Natureza Trina dos seres e das coisas.
O título El-Ro'i dado a Deus é um sinônimo cabalístico de Yahveh, pois o valor numérico de ambos é o mesmo: El-Ro'i soma 242 = 8 e Yahveh soma 26 = 8.

“Yahveh lhe apareceu [a Abraão] no Carvalho de Mamrê', quando ele estava sentado na entrada da tenda, no maior calor do dia. Tendo levantado os olhos, eis que viu três homens (My#n) – 'anashim) de pé, perto dele (...). E disse: 'Meu Senhor (ynd) – Adonay), eu te peço, se encontrei graça a teus olhos, não passes junto de teu servo sem te deteres. (...) Trarei um pedaço de pão, e vos reconfortareis o coração antes de irdes mais longe (...).' Tomou também coalhada, leite e o vitelo que preparara e colocou tudo diante deles; permaneceu de pé, junto deles, sob a árvore, e eles comeram. (...) O hóspede disse: 'Voltarei a ti no próximo ano; então tua mulher Sara terá um filho.' (...) Riu-se, pois, Sara no seu íntimo, dizendo: 'Agora que estou velha e velho também está o meu senhor, terei ainda prazer?' Mas Yahveh disse a Abraão: 'Por que se ri Sara, (...) Acaso existe algo de tão maravilhoso para Yahveh? 9...).' Tendo-se levantado, os homens partiram de lá e chegaram a Sedomá [Sodoma]. Abraão caminhava com eles, para os encaminhar. (...) Os homens partiram de lá e foram a Sedomá. Yahveh se mantinha ainda junto de Abraão. 9...) Yahveh, tendo acabado de falar, foi-se e Abraão voltou para o seu lugar.
Ao anoitecer, quando os dois anjos (Myk)lm – mal'akhim) chegaram a Sedomá, Lot estava sentado à porta da cidade. (...) Tanto os instou que foram para sua casa e entraram. Preparou-lhes uma refeição, fez cozer pães ázimos, e eles comeram.
Eles não tinham ainda deitado quando a casa foi cercada pelos homens da cidade, os homens de Sedomá, desde os jovens até os velhos, todo o povo sem exceção. Chamaram Lot e disseram: 'Onde estão os homens que vieram para tua casa esta noite? Traze-os para que deles abusemos.'
(...) Arremessaram-se contra ele, Lot, e chegaram a arrombar a porta. Os homens, porém, estendendo o braço, fizeram Lot entrar para junto deles, e fecharam a porta. Quanto aos homens que estavam na entrada da casa, eles os feriram de cegueira (Myrwns – sanverim), do menor até o maior, de modo que não conseguiram encontrar a entrada.” [Gn. 18.1-3, 5, 8, 10, 12-14, 16, 22, 33 e 19.1, 3-5, 9-11]

Temos aqui um dos mais longos trechos relatando uma intervenção angélica na Bíblia. Tratam-se de três anjos, aqui chamados de homens, e um deles é o próprio Yahveh em forma humana. Não há, então, diferença entre Yahveh e seus mensageiros? Certamente esta é uma contradição bíblica muito difícil de se compreender do ponto de vista teológico. Cabalisticamente, entretanto, não é.

O termo para “homens”, 'anashim, soma 961 = 16 = 7, sendo 7 o número-chave dos Sete Elohim ou Anjos planetários. O termo hebraico para anjos, Mal'akhim, soma 701 = 8, o mesmo valor de Yahveh (26 = 8), o que identifica o “Senhor” com seus mensageiros (anjos). Temos aqui a quarta denominação para anjos – Anashim (o singular é #wn)'enosh, “homem”), isto é, “homens”.

Quando se diz que os anjos feriram de cegueira os sodomitas, o termo usado é sanverim, que soma 926 = 17 = 8, o número de Yahveh.

“Deus (Elohim) ouviu os gritos da criança [Ismael] e o Anjo de Deus (Myhl) K)lm – Mal'akh Elohim), dos céus (Mym# - shamáiym), chamou Agar, dizendo: 'Que tens, Agar? Não temas, pois Deus (Elohim) ouviu os gritos da criança, do lugar onde ele está. Ergue-te! Levanta a criança, segura-a firmemente, porque eu farei dela uma grande nação.'” [Gn. 21.17-18]

Aqui o Anjo de Yahveh é chamado de Anjo de Elohim, Mal'akh Elohim, que soma 1217 = 11 = 2 (o número da Sabedoria e da Dualidade). A tradução mais adequada para a expressão é “Mensageiro dos Deuses”. Neste caso, o Anjo de Deus é correlato ao Hermes-Mercúrio greco-romano, ao Thot egípcio e mesmo o Exu-Bará entre os iorubás (Nigéria) e os fon (Benin). Astrologicamente todos esses personagens referem-se a Mercúrio, o planeta e princípio da inteligência ativa, da agilidade, da adaptabilidade e do livre curso em todos os níveis cósmicos. A relação é inegável!

O Anjo de Deus age como o próprio Deus quando diz “eu farei dela uma grande nação”. Isso se repete em Gn. 22.16-18, quando o Anjo de Yahveh promete bênçãos a Abraão e a seus descendentes por este não se ter recusado a oferecer-lhe o seu próprio filho Isaac:

“[Disse o Anjo:] Juro por mim mesmo, palavra de Yahveh (hwhy M)n – ne'um Yahveh): porque não me recusaste teu filho, teu único, eu te cumularei de bênçãos, (...). Por tua posteridade serão abençoadas todas as nações da terra, porque tu me obedeceste.”

A expressão ne'um Yahveh significa “dito” ou “declaração de Yahveh”, mas a declaração é feita pelo Anjo de Yahveh, o que parece ser a mesma coisa. O anjo não apenas fala “em nome” de Yahveh, mas como “o próprio” Yahveh. Ne'um soma 651 = 12 (os Doze signos ou o conclave hierárquico de doze anjos) e ne'um Yahveh soma 677 = 20, símbolo da letra hebraica Kaf (k), a mão que conduz ou que julga.

“Yahveh, o Deus do Céu (Mym#h yhl) – Elohê ha-shamáiym) e o Deus da Terra (Cr)h yhl) – Elohê ha-árets), que me tomou de minha terra paterna e da terra de minha parentela, que me disse e que jurou que daria esta terra à minha descendência, Ele enviará seu anjo (Mal'akh) diante de ti, para que tomes lá uma mulher para meu filho.” [Gn. 24.7]

As expressões “Deus do Céu” e “Deus da Terra” apresentam “Deus” no singular (Eloah) e parecem se referir a Yahveh apenas, já que a numeração cabalística assim o delata: “Deus do Céu” (Elohê ha-shamáiym) soma 991 = 19 = 10 (o número da divindade, a letra yody, abreviatura de Yahveh) e “Deus da Terra” (Elohê ha-árets) soma 1142 = 8 (o número da soma de Yahveh: 26 = 8). Cabalisticamente, portanto, são considerados termos correlatos.

“[Jacó] Teve um sonho: Eis que uma escada (Mls – sullam) se erguia sobre a terra e o seu topo atingia os céus, e anjos (mal'akhim) de Deus (Elohim) subiam e desciam por ela.” [Gn. 28.12]

O termo “escada” se refere a Yahveh, pois sullam soma 690 = 15 (o número de Yahhy, a abreviatura de Yahveh). A escada é o próprio Yahveh no sonho de Jacó. “Anjos de Deus” (Mal'akhê ElohimMyhl) yk)lm) soma 747 = 18 = 9 (o mesmo valor numérico de Eloah, o singular de Elohim).

O Anjo de Deus (Myhl)h K)lm – Mal'akh ha-Elohim) me disse em sonho: 'Jacó.' E eu respondi: 'Sim.' Ele disse: '(...) Eu sou o Deus (l) – El) que te apareceu em Betel, (...).” [Gn. 31.11-13]

Este trecho parece esclarecer que: Eloah é um termo que se refere apenas a Yahveh; El se refere aos anjos, já que o valor numérico de “anjo” (mal'akh) e “Deus” (El) é o mesmo (mal'akh = 571 = 13 = 4; El = 31 = 4). Assim, um “deus” (El) é um “anjo” (mal'akh) genericamente. Um “anjo” se configura aqui como uma “divindade menor” dos panteões politeístas! El é, então, a quinta denominação para anjos, junto com Elohim, Querubim, Bnê Elohim e Anashim. Os valores numéricos colocam os termos em correspondência: Elohim e Anashim valem 7; Querubim e El valem 4, assim como o termo genérico Mal'akh; Bnê Elohim vale 2.

“Como Jacó seguisse seu caminho, anjos de Deus (Mal'akhê Elohim) o afrontaram.” [Gn. 32.2]

O versículo seguinte dá o motivo desta afronta: Jacó havia pisado em solo sagrado, e os anjos o barraram. O texto dá o nome de “Campo dos Deuses” (Myhl) ynxmmaĥanê Elohim) a este lugar. Maĥanê soma 103 = 4, o número dos anjos (mal'akh). Poderíamos aqui nos permitir a pensar numa espécie de “acampamento de anjos”?

“E Jacó ficou só. E um homem (#y) – 'ish) lutou (vaie'aveq) com ele até surgir a aurora. Vendo que não o dominava, [o homem] tocou-lhe na articulação da coxa, e a coxa de Jacó se deslocou enquanto lutava com ele. Ele disse: 'Deixa-me ir, pois já rompeu o dia.' Mas Jacó respondeu: 'Eu não te deixarei se não me abençoares.' Ele lhe perguntou: 'Qual é o teu nome?' - 'Jacó', respondeu ele. Ele retomou: 'Não te chamarás mais Jacó, mas Israel (l)r#y), porque foste forte contra Deus (Elohim) e contra os homens (anashim), e tu prevaleceste.' Jacó fez esta pergunta: 'Revela-me teu nome, por favor.' Mas ele respondeu: 'Por que perguntas pelo meu nome?' E ali mesmo o abençoou.
Jacó deu a este lugar o nome de Peni'el (l)ynp), 'porque', disse ele, 'eu vi a Deus (Elohim) face a face (panim 'el-panim) e a minha vida foi salva.” [Gn. 32.25-31]

Mais um trecho de interferência direta de um anjo, e no qual a confusão entre Deus (Elohim) e seu mensageiro, aqui chamado de “homem”, mais uma vez aparece. O termo “homem” aqui usado para o anjo não é o mesmo que já encontramos (anashim, cujo singular é enosh; o plural valendo 7 e o singular, 9), mas 'ish, que soma 311 = 5, e cujo plural, 'ishim (My#y)), soma 921 = 12 (os Doze signos zodiacais), o mesmo valor de Qeruv, o singular de Querubim.

O termo “lutou” (vaie'aveq) vem do verbo hebraico 'avaq (qb)), que soma 103 = 4, o número dos anjos (Mal'akh). É a confirmação de que Jacó lutou com um anjo.

A questão da mudança de nome de Jacó é reveladora: Jacó (bq(yYa'aqov) soma 182 = 11 (um número pouco apreciado pela Cabala, por somar 2, o número do antagonismo); Israel soma 541 = 10 (o número da Divindade, o Yod, abreviatura de Yahveh).

O texto diz que Jacó foi forte contra Deus e contra os homens, ou seja, Elohim e Anashim, dois nomes angélicos que somam 7 analisados anteriormente. Os “homens” do trecho seriam os anjos ou os homens da terra?

O termo Peni'el, dado ao local da luta soma 171 = 9, o número de Eloah.

Não parecem ser Israel e Peni'el nomes de anjos? Muito provavelmente. Israel significaria “a força de Deus” e Peni'el, “a face de Deus”.

“Lá ele [Jacó] construiu um altar e chamou o lugar de El-Bet-El, porque os Deuses (Elohim) aí se revelaram (niglú) a ele quando fugia da presença de seu irmão.” [Gn. 35.7]

Neste trecho raro está pela primeira vez tudo no plural, pois “Elohim niglú” significa literalmente “os deuses se revelaram”. Mas o trecho anterior diz que Jacó só viu e lutou com um “homem”. Talvez o trecho original relatasse dois anjos. Seriam eles os anjos Israel e Peni'el que sugerimos antes?

“Ele [Jacó, agora Israel] abençoou a José, dizendo: 'Que o Deus (Elohim) diante de quem caminharam meus pais Abraão e Isaac, que o Deus (Elohim) que foi meu pastor desde que eu vivo até hoje, que o anjo (Mal'akh) que me salvou de todo o mal abençoe estas crianças, (...).'” [Gn. 48.15-16]

Eis mais uma vez a confusão ou identidade metafísica entre Deus (na verdade “Deuses”) e Anjos!


2 – Êxodo – Números – Deuteronômio

“O Anjo de Yahveh (Mal'akh Yahveh) lhe apareceu [a Moisés] numa chama de fogo (#) tbl – labath 'esh), do meio de uma sarça. Moisés olhou, e eis que a sarça ardia no fogo, e a sarça não se consumia. Então disse Moisés: 'Darei uma volta, e verei este fenômeno estranho, porque a sarça não se consome.' Viu Yahveh que ele deu uma volta para ver. E Deus (Elohim) o chamou do meio da sarça. Disse: 'Moisés, Moisés.' Este respondeu: 'Eis-me aqui.' Ele disse: 'Não te aproximes daqui; tira as sandálias dos pés porque o lugar em que estás é uma terra santa.' Disse mais: 'Eu sou o Deus (Eloah) de teus pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó.' Então Moisés cobriu o rosto, porque temia olhar para Deus (Elohim).” [Ex. 3.2-6]

Novamente aqui o Anjo de Yahveh se confunde com Yahveh. Ele aparece numa “chama de fogo” (labath 'esh), que tem o valor numérico 733 = 13 = 4, o número dos anjos (mal'akh).

Temos razões para crer que o trecho original descrevia a aparição de vários anjos, pois o trecho “viu Yahveh que ele deu uma volta para ver. E Deus (Elohim) o chamou do meio da sarça” deveria ser traduzido como: “Viu Yahveh que ele deu uma volta para ver. E os Deuses o chamaram do meio da sarça.”

A fórmula “Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacó”, muito frequente no Pentateuco, parece guardar alguns mistérios. O termo para “Deus” aí é Eloah (singular). Como, todavia, o trecho traz também Elohim, não poderíamos pensar ser o eloah (Deus) de Abrão um, o de Isaac outro e o de Jacó um terceiro? Isso explicaria a expressão Elohim!

A expressão hebraica “Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacó” possui exatamente 26 letras, ou seja, o valor numérico de Yahveh. O original é bq(y yhl)w qxcy yhl) Mhrb) yhl) (Elohê Avrahám, Elohê Ytsĥáq velohê Ya'aqôv) e tem como valor total 1342 = 10, o número de Yahveh (na verdade, da letra Yod, a abreviatura de Yahveh).

“Então o Anjo de Deus (Mal'akh Elohim), que ia adiante do exército de Israel, se retirou e passou para trás deles. Também a coluna de nuvem (Nn( dwm( - 'ammud 'anan) se retirou de diante deles e se pôs atrás, ficando entre o acampamento dos egípcios e o acampamento de Israel. Houve a nuvem ('anan) e a escuridão (K#x – ĥoshekh); e ela alumiou a noite, sem que um pudesse se aproximar do outro durante toda a noite. Então Moisés estendeu a mão sobre o mar. E Yahveh, por um forte vento oriental que soprou toda aquela noite, fez o mar se retirar. Este se tornou terra seca, e as águas foram divididas.” [Ex. 14.19-21]

Estes são os três famosos versículos cabalísticos dos quais – poucos o sabem – são retirados os nomes dos 72 Anjos da Cabala.

O que importa agora é que aqui temos novamente o Anjo de Deus e mais uma indicação da presença de anjos: a expressão “coluna de nuvem” ('ammud 'anan), que soma 940 = 13 = 4, o número dos anjos. Esta “coluna”, ou é uma outra classificação angélica ou uma denominação para o Anjo de Deus.

Os termos “nuvem” e “escuridão” são marcas do divino, pois “nuvem” ('anan) soma 820 = 10 (número de Yahveh) e “escuridão” (ĥoshekh) soma 808 = 16 = 7 (número dos anjos planetários).

“Eis que envio um anjo (mal'akh) diante de ti para que te guarde pelo caminho e te conduza ao lugar que tenho preparado para ti.” [Ex. 23.20]

Trata-se de um anjo protetor, como o citado em Gn. 24.7, e parece distinto de Yahveh, conforme Gn. 16.7.

Em Ex. 32.34 este anjo aparece novamente: “Eis que o meu anjo irá adiante de ti.” E, em Ex. 33.2, mais uma vez: “Enviarei diante de ti um anjo e expulsarei os cananeus (...).”

Do livro de Números temos apenas um trecho relevante. Trata-se do episódio da jumenta de Balaão (um adivinho das margens do Eufrates que reconhece Yahveh como seu Deus), a qual foi barrada pelo Anjo de Yahveh, na estrada:

“A sua partida excitou a ira de Deus (Elohim) e o Anjo de Yahveh se colocou na estrada, para barrar-lhe a passagem. Ele [Balaão] montava a sua jumenta, e os seus dois servos o acompanhavam. A jumenta viu o Anjo de Yahveh parado na estrada, com a sua espada desembainhada na mão; desviou-se da estrada, em direção ao campo. Balaão, contudo, espancou a jumenta para fazê-la voltar à estrada. (...) Então Yahveh abriu os olhos de Balaão. E viu o Anjo de Yahveh parado na estrada, tendo a sua espada desembainhada na mão.” [Nm 22.22-23, 31]

Observe-se que inicialmente só a jumenta via o Anjo de Yahveh e depois, quando Balaão já a havia espancado três vezes (número da confirmação), o anjo se mostrou para este também.

Em Deuteronômio temos dois trechos relevantes:

“Levantando teus olhos ao céu e vendo o sol, a lua, as estrelas e todo o exército dos céus (Mym#h )bc – tseva' ha-shamáiym), não te deixes seduzir para adorá-los e servi-los! São coisas que Yahveh teu Deus (Eloah) repartiu entre todos os povos que vivem sob o céu.” [Dt. 4.19]

Uma vez que o trecho fala do sol, da lua e das estrelas, entendemos que o “exército dos céus” não sejam os astros citados, mas as cortes angélicas. Por isso Yahveh é chamado “Senhor dos Exércitos (dos Céus)”. A expressão “exércitos dos céus” (tseva' ha-shamáiym) soma 1048 = 13 = 4, o número dos anjos, sendo mais uma denominação para eles. O termo tseva' (exército) soma 93 = 12 (os doze signos). O termo “exército dos céus” talvez se refira, então, aos anjos regentes dos signos zodiacais.

“Quando o Altíssimo (Nwyl( - 'Elyon) repartia as nações, quando espalhava os filhos de Adão (bne Adam) ele fixou fronteiras para os povos, conforme o número dos filhos de Israel (bne Israel).” [Aqui a versão judaica, em hebraico, traz “filhos de Israel”, enquanto a versão grega dos Setenta, talvez baseada em manuscritos mais antigos, traz “filhos de Deus”, o que tem mais lógica, pois contrapõem-se a “filhos de Adão”.] (Dt. 32.8]

Aqui, Bne Adam soma 667 = 19 = 10 (o número de Yahveh) e Bne Elohim soma 708 = 15 (o valor de Yah, abreviatura de Yahveh), que é o mesmo valor do nome divino “Altíssimo” ('Elyon): 816 = 15. A tradução cabalística que adviria desta constatação é, no mínimo, curiosa: “Quando Yahveh repartia as nações, quando espalhava os Deuses ele fixou fronteiras para os povos, conforme o número dos filhos dos Deuses.” Estes Deuses podem ser os mesmos Anjos Caídos que tomaram as filhas de Adão e foram dispersos por Deus ou, segundo o apócrifo Livro de Enoch, encadeados até o Juízo Final. Todavia, a compreensão possível dada por esta análise indica que o termo “dispersar” ou “espalhar” (drpparad) traz, na realidade, a noção de dividir não por dispersação, mas por distribuição eqüitativa. Os Anjos Caídos ou Filhos de Elohim não foram, então, dispersos, mas distribuídos por toda a Terra.


3 – Josué – Juízes – I e II Samuel – I e II Reis

“Encontrando-se Josué perto de Jericó, levantou os olhos e viu um homem ('ish) que se achava diante dele, com uma espada desembainhada na mão. Josué aproximou-se dele e disse-lhe: 'És tu dos nossos ou dos nossos inimigos?' Ele respondeu: “Não! Mas sou Chefe do Exército de Yahveh (hwhy )bc r# - Sar tseva' Yahveh) e acabo de chegar.'” [Js. 5.13-14]

Outra vez um anjo é chamado de “homem”. Neste caso, é o chefe do exército de Yahveh, talvez Miguel (l)kymMikhael), que encontraremos em trechos mais tardios. A expressão “chefe do exército de Yahveh” (Sar tseva' Yahveh) soma 619 = 16 = 7, os sete planetas dos quais Mikhael, se for o anjo em questão, representa o Sol. Há sentido nisso porque nos trechos seguintes Yahveh solicita aos israelitas que marchem sete dias ao redor de Jericó, preparando a conquista da cidade. No espaço de 11 versículo o número sete aparece 11 vezes. E, 7 X 11 = 77, que é o valor das palavras hebraicas z( ('ôz), “vigor, força, poder; proteção, refúgio, abrigo”, ldgm (migdal), “torre, fortaleza” e lzm (mazzal), “constelação zodiacal”. Os termos remetem à batalha pela conquista da fortaleza de Jericó e as relações com um provável culto astrolátrico aos anjos planetários.

“O Anjo de Yahveh subiu de Guilgal a Bet-El e disse: “Eu vos fiz subir do Egito e vos trouxe a esta terra que eu tinha prometido por juramento a vossos pais. (...) No entanto, não escutastes a minha voz. (...).' Assim que o Anjo do Senhor (Yahveh) pronunciou estas palavras a todos os filhos de Israel, o povo começou a clamar e a chorar.” [Jz. 2.1-2.4]

O Anjo de Yahveh fala como se fosse o próprio Yahveh. Seria, então, Yahveh também um anjo? Neste caso, quem lhe seria superior? A Cabala diz que seu superior tem um caráter trino e possui três nomes, cada vez mais elevados: rw)-Pws-Ny) (Ên-Sôf-Ôr, O Sem Limites Luminoso, a “luz divina”), Pws-Ny) (Ên-Sôf, O Sem Limites, “o Infinito”) e Ny) (Áiyn, O Nada, o “vazio que é pleno”, a Divindade no nível mais secreto e incognoscível).

“Barac respondeu-lhe [à profetisa Débora]: 'Se tu vieres comigo, eu irei, mas se não vieres comigo, não irei, porque não sei [em que dia o Anjo de Yahveh me fará] bem sucedido.” [Jz. 4.8]

O trecho “...em que dia o Anjo de Yahveh me fará...” aparece na versão grega, mas falta na hebraica, e por isso o estamos considerando. Aqui se esclarece que o Anjo de Yahveh é o anjo do destino, do mérito e do demérito ou, em palavras orientais, da Lei de Causa e Efeito ou Karma.

“O Anjo de Yahveh veio e assentou-se debaixo do terebinto de Efra, que pertencia a Joás de Abiezer. Gedeão, seu filho, estava malhando o trigo no lagar, para salvá-lo dos madianitas, e o Anjo de Yahveh lhe apareceu e lhe disse: 'Yahveh esteja contigo, valente guerreiro!' (...) Então Yahveh [na verdade o Anjo] se voltou para ele e lhe disse: 'Vai com a força que te anima, e salvarás a Israel das mãos de Madiã. Não sou eu quem te envia?' (...) E Gedeão lhe disse: '(...) Não te afastes daqui, rogo-te, até que eu volte e traga a minha oferenda e a deposite diante de ti.' (...)Gedeão saiu, preparou um cabrito e, com um almude de farinha, fez pães sem fermento. (...) Quando se aproximava, o Anjo de Yahveh lhe disse: 'Toma a carne e os pães sem fermento e coloca-os sobre esta pedra e derrama o caldo sobre eles.' E Gedeão assim fez. Então o Anjo de Yahveh estendeu a ponta do cajado que tinha mão e tocou a carne e os pães sem fermento. O fogo se ergueu da pedra e devorou a carne e os pães sem fermento, e o Anjo de Yahveh desapareceu dos seus olhos. Então viu Gedeão que era o Anjo de Yahveh, e exclamou: 'Ah! Meu Senhor Yahveh (hwhy ynd) – Adonay Yahveh)! Eu vi o Anjo de Yahveh face a face!' Yahveh lhe disse: 'A paz esteja contigo (Kl Mwl# - Shalôm lekhá)! Não temas, não morrerás.' Gedeão ergueu ali um altar a Yahveh e o chamou: Yahveh é paz (Mwl# hwhy – Yahveh shalôm).” [Jz. 6.11-12, 14, 17-24]

Aqui, outra confusão entre Yahveh e seu Anjo. A separação entre ambos é cada vez menos nítida. A oferenda que o anjo recebe é comum no Pentateuco. É um holocausto, no qual a oferenda é toda queimada. O anjo não come a oferenda, apenas a incendeia, realizando uma espécie de rito propiciatório. A carne do cabrito representa o sangue, os pães o corpo, a pedra o fundamento da vida e o fogo, a própria vida, benefício de Deus aos seres.

“O Anjo de Yahveh apareceu a essa mulher [a futura mãe de Sansão] e lhe disse: 'Tu és estéril e não tiveste filhos, mas conceberás e darás à luz um filho.' (...) A mulher entrou e disse ao marido: 'Um homem de Deus (Myhl)h #y) – 'ish ha-Elohim) me falou, um homem que tinha a aparência do Anjo de Deus (Myhl)h K)lm – Mal'akh ha-Elohim), tal era a sua majestade.' (...) Disse então Manué ao Anjo de Yahveh: 'Permite que te detenhamos e te ofereçamos um cabrito.' Porque Manué ignorava que era o Anjo de Yahveh. E o Anjo de Yahveh disse a Manué: 'Ainda que me detivesses, não comeria da tua comida; mas, se quiseres preparar um holocausto, oferece-o a Yahveh.' [Aqui, parece que a confusão entre Yahveh e seu Anjo é desfeita!] Manué disse então ao Anjo de Yahveh: 'Qual é o teu nome para que, assim que cumprir a tua palavra, possamos prestar-te homenagem?' O Anjo de Yahveh lhe respondeu: 'Por que te falar do meu nome? Ele é maravilhoso (y)lp – pile'í).' Então Manué tomou o cabrito, com a oblação, e, no rochedo, o ofereceu em holocausto a Yahveh, que realiza coisas maravilhosas. Manué e sua mulher observaram. Ora, subindo a chama do altar para o céu, subiu na chama do altar o Anjo de Yahveh (...).” [Jz. 13.3-4, 6, 15-20]

Nesta passagem o Anjo solicita uma oferenda não para si, mas para Yahveh. Há, então, pelo menos aqui, uma diferenciação entre ambos. Quando Manué pergunta o nome do Anjo de Yahveh, este diz que seu nome é “maravilhoso” ou “Pile'í”, que soma 121=4, o número dos anjos. Podemos até pensar em chamá-lo especificamente de l)y)lpPile'iel, “O Maravilhoso de Deus”!

Há um relato muito interesante em I Samuel. O rei Saul consulta a feiticeira de Endor e pede a esta que chame Samuel do mundo dos mortos, pois este havia morrido. Todavia, como Saul está disfarçado, a feiticeira não sabe que se trata do rei. Mas:

“Então a mulher viu Samuel e, soltando um grito medonho, disse a Saul: 'Por que me enganaste? Tu és Saul!' Disse-lhe o rei: 'Não temas! Mas o que vês?' E a mulher respondeu a Saul: 'Vejo um Elohim [que a Bíblia de Jerusalém traduz como “espectro”] que sobre da terra.' Saul indagou: 'Qual é a sua aparência?' A mulher respondeu: 'É um velho que está subindo; veste um manto.' Então Saul viu que era Samuel e, inclinando-se com o rosto no chão, prostrou-se.” [I Sm. 28.12-14]

Estranhamente o termo “Elohim” aqui é aplicado a um morto, o profeta Samuel. Resquícios da divinização de heróis e figuras importantes, origem da maior parte dos deuses dos antigos? Talvez, porque a etimologia da palavra “Elohim” remete a um ser muito elevado. Então, poderiam ser estes homens divinizados voltar depois como “mensageiros de Deus” ou, mais especificamente, como seus “anjos”? Se for o caso, há alguma relação entre os espíritos de mortos santificados e os anjos!

“Ele [Yahveh] inclinou os céus e desceu, uma névoa escura debaixo dos seus pés; cavalgou (vairekav) um querubim (Keruv) e alçou vôo, planou sobre as asas do vento.” [II Sm. 22.10-11]

Aqui há um trocadilho entre o verbo bkr (rakhav - “cavalgar”) e bwrk (keruv - “querubim”); tratam-se das mesmas letras hebraicas, trocadas. A soma das letras dá 222=6, se retirarmos o w (“u”) de Keruv, por ser uma vogal de apoio. O seis, na Cabala, traz a noção de “som, sopro, união íntima”. Keruv é, então, a cavalgadura de Yahveh, seu “veículo”, assim como na Índia um elefante branco é a cavalgadura do deus Indra, o deus dos céus. Este trecho tem nítida inspiração na mitologia mesopotâmica.

“O Anjo [de Yahveh] estendeu a sua mão sobre Jerusalém para a exterminar, mas Yahveh se arrependeu desse mal, e disse ao Anjo que exterminava o povo: 'Basta! Retira a tua mão agora!'” [II Sm. 24.16]

Este trecho também diferencia Yahveh de seu Anjo, que funciona como seu “exterminador”. Alguns pesquisadores atribuem esse e outros relatos de extermínio ao advento de pestes, interpretadas pelos semitas como castigo divino.

[Elias] Deitou-se e dormiu debaixo do junípero. Mas eis que um Anjo o tocou e disse-lhe: 'Levanta-te e come.' Abriu os olhos e eis que, à sua cabeceira, havia um pão cozido sobre pedras quentes e um jarro de água. Comeu, bebeu e depois tornou a deitar-se. Mas o Anjo de Yahveh veio pela segunda vez, tocou-o e disse: 'Levanta-te e come, pois do contrário o caminho te será longo demais.' Levantou-se, comeu e bebeu e depois, sustentado por aquela comida, caminhou quarenta dias e quarenta noites até a montanha de Deus (Elohim), Horêv.” [I Rs. 19.5-8]

A tradução mais adequada seria “Montanha dos Deuses” - Horêv, que seria qual um “Olimpo bíblico”. Parece ser o mesmo Monte Sinai, embora nas diferentes tradições bíblicas o nome varie. Estariam os anjos instalados nesta montanha? Seria ela a versão semita do Monte Meru ou Sumeru da Índia hinduísta e budista? O Meru indiano representa o universo, o eixo do mundo e é onde vivem os “Deuses”. No Extremo Oriente o Meru está relacionado a Shambala, uma Terra Pura ou mágica onde seres muito evoluídos vivem milhares de anos!
Os quarenta dias e quarenta noites são uma lembrança da tradição simbólica dos quarenta anos dos hebreus no deserto.

“Miquéias retrucou: 'Escuta a palavra de Yahveh: Eu vi Yahveh assentado sobre seu trono ()sk – kisê'); todo o exército dos céus (Mym#h )bc – Tseva' ha-shamáiym) estava diante dele, à sua direita e à sua esquerda.” [I Rs. 22.19]

O termo “trono” (kisê') soma 81=9, o número de Eloah, indicando ser Yahveh um dos Elohim.

“Naquela mesma noite, saiu o Anjo de Yahveh e exterminou no acampamento assírio cento e oitenta mil homens [um número simbólico, não real!]. De manhã, ao despertar, só havia cadáveres.” [II Rs. 19.35]

Mais uma verz o Anjo Exterminador, como em II Sm. 24.16. A indicação de que os assírios podem ter sido atacados por uma peste é o número de mortos: 180 mil, um número cabalístico que, transposto para letras hebraicas, dá a palavra qp (piq - “tremedeira”).

[O rei Manassés] (...) prostrou-se diante de todo o exército dos céus e lhe prestou culto. (...) Edificou altares para todo o exército dos céus nos dois pátios do Templo de Yahveh.” [II Rs. 21.3,5]

Eis o indício de um culto aos anjos no século VII a.C., culto este que foi proibido pela reforma de Josias, algumas décadas depois. Todavia, pelo que indica o próprio texto bíblico, esse culto aos exércitos celestes – os anjos, uma vez que os planetas e as constelações são citados em separado em II Rs. 23.5 – já era praticado pelos povos vizinhos a Israel.


4 – Crônicas – Neemias – Tobias – Jó

“Satã levantou-se contra Israel e induziu Davi a fazer o recenseamento de Israel.” [I Cr. 21.1]

Este trecho possui um similar em II Sm. 24.1, que é anterior ao citado acima. Em Samuel, Satã é chamado de hwhy P) (af Yahveh - “ira de Yahveh”). Ora, esta expressão soma 827=17=8, a mesma soma de Yahveh (26=8), enquanto o nome “Satã” soma 1009=10, o número da primeira letra do nome de Yahveh, que o representa por inteiro. Podemos, então, identificar Satã com o outro lado de Yahveh, que Crônicas chama de “Ira de Yahveh”. E, uma vez que Jó, mais adiante, esclarecerá ser Satã um anjo, Yahveh também deve ser.

“Veio pois, Gad [um vidente] até Davi e disse-lhe: 'Assim fala Yahveh. Escolhe: ou três anos de fome, ou uma derrota de três meses diante dos teus adversários, atingindo-te a espada de teus adversários, ou ainda a espada de Yahveh e três dias de peste na terra, devastando o Anjo de Yahveh todo o território de Israel!' (...) Yahveh enviou, portanto, a peste (rbd – déver) sobre Israel e pereceram setenta mil homens de Israel. Depois Deus (Myhl)h – ha-Elohim) enviou o Anjo a Jerusalém para exterminá-la; mas. No momento de exterminá-la, Yahveh viu e se arrependeu deste mal; e disse ao Anjo Exterminador (tyx#m K)lm – Mal'akh Mash-híth): 'Basta! Retira a tua mão.' (...) Erguendo os olhos, Davi viu o Anjo de Yahveh entre a terra e o céu, tendo na mão a espada desembainhada, voltada contra Jerusalém.” [I Cr. 21.11-12,14-16]

Percebem-se alguns trocadilhos cabalísticos aqui. O termo “peste” (déver) soma 206=8, o número da soma de Yahveh. A expressão “Anjo de Yahveh” soma 597=21. A expressão “Anjo Exterminador” soma 1329=15, valor de Yah, abreviatura de Yahveh. Porém, se definirmos que o Anjo Exterminador é a peste (déver) e o chamarmos de rbd K)lm (Mal'akh Déver - “Anjo da Peste”), teremos 777=21, ou seja, o mesmo valor (21) de “Anjo de Yahveh”. O número de homens mortos – 70 mil – representa a letra hebraica ( (áin), que vale tanto 70 quanto 70 mil, e cabalisticamente significa “destruição”. Então, o Anjo Exterminador seria apenas a destruição pela peste, um símbolo e nada mais. Isso mostra que também para os semitas as doenças e epidemias eram consideradas castigos divinos ou sinais da interferência de algum ser celestial justiceiro ou vingador.

“És tu, Yahveh, que és o único! Fizeste os céus (Mym# - shamáiym), os céus dos céus (Mym#h ym# - shmê ha-shmáiym) e todo o seu exército (M)bc – tseva'ám), a terra e tudo o que ela contém, os mares e tudo o que eles encerram. A tudo isso és tu que dás vida, e o exército dos céus (Mym#h )bc – tseva' ha-shamáiym) diante de ti se prostra.” [Ne. 9.6]

“Shamáiym” (Céus) soma 950=14=5, o número do espírito divino ou da “Vida” que anima a tudo. “Shmê ha-shamáiym” (Os Céus dos Céus) soma 1305=9, o número de Eloáh – aqui temos uma indicação de que os Céus dos Céus é o Céu dos anjos, chamados individualmente de Eloáh (um deus) e coletivamente de Elohim (deuses). Por isso “Tseva'ám” (Exército) soma 693=18=9 (Eloáh). A interpretação cabalística do versículo permite a seguinte tradução: “(...) Moldaste a Vida [a Consciência ou Espírito?], o Céu dos Anjos [o Espaço?] e todo o seu exército [os astros?] (...). A tudo isso és tu que dás vida, e os Anjos diante de ti se prostram.”

Os trechos a seguir são do Livro de Tobias. Não constam da Bíblia Hebraica porque foi escrito em grego, mas faz parte da Bíblia Católica. Mas têm alguma importância os quatro trechos que seguem:

“Naquele instante, na Glória de Deus, foi ouvida a oração de ambos e foi enviado Rafael para curar os dois (...).” [Tb. 3.16-17]
“Tobias saiu em busca de alguém que conhecesse o caminho e que fosse com ele à Média. Ao sair, encontrou Rafael, o anjo, de pé diante dele; mas não sabia que era um anjo de Deus. (...) Partiu, pois, Tobias em companhia do anjo, e o cão os seguia.” [Tb. 5.4 e 6.2]
“Recordou-se Tobias dos conselhos de Rafael e, tirando o fígado e o coração do peixe dentro do saco onde os guardara, colocou-os sobre as brasas do perfumador. O cheiro do peixe expulsou o demônio, que fugiu pelos ares até o Egito. Rafael seguiu-o, prendeu-o e acorrentou-o imediatamente.” [Tb. 8.1-3]
“Quando tu e Sara fazíeis oração, era eu quem apresentava vossas súplicas diante da Glória do Senhor e as lia; eu fazia o mesmo quando enterrava os mortos. Quando não hesitaste em te levantares da mesa, deixando a refeição, para ires sepultar um morto, fui enviado para provar tua fé, e Deus enviou-me, ao mesmo tempo para curar-te a ti e a tua nora Sara. Eu sou Rafael, um dos sete anjos que estão sempre presentes e têm acesso junto à Glória do Senhor.” [Tb. 12.12-15]

Os trechos descrevem as atividades do anjo Rafael, um dos três anjos citados na Bíblia e um dos Sete Anjos do Senhor (ou Anjos da Face), juntamente com Mikhael (Miguel) e Gabriel. Mikhael é um anjo combatente, Gabriel é um anunciador e Rafael, ao que parece, é um anjo da cura e um anjo-guia, pois foi o guia da Tobias em sua viagem, além de tê-lo curado.

Vamos, então, aos trechos de Jó!

“No dia em que os Filhos de Deus (Myhl)h ynb – Bnê ha-Elohim) vieram se apresentar a Yahveh, entre eles veio também Satã. Yahveh então perguntou a Satã: 'Donde vens?' - 'Venho de dar uma volta pela terra, andando a esmo', respondeu Satã.” [Jó 1.6-7]
“Num outro dia em que os Filhos de Deus vieram se apresentar novamente a Yahveh, entre eles, para apresentar-se diante de Yahveh, veio também Satã.” [Jó 2.1]
“Dos próprios servos (wydb( - 'avadáyv) ele [Deus] desconfia, até mesmo a seus anjos verbera o erro (hlht – taholáh).” [Jó 4.18]
“Grita, para ver se alguém te responde. A qual dos Santos (My#dq – Qedoshím) te dirigirás?” [Jó 5.1]
“Até em seus Santos (wy#dq – Qedosháyv) Deus não confia, e os Céus (Mym# - Shamáiym) não são puros aos seus olhos.” [Jó 15.15]
“Sua alma aproxima-se da sepultura, e sua vida dos que fazem morrer, a não ser que encontre um Anjo favorável (Cylm K)lm – Mal'akh Melíts), um Mediador (ynym – Miní) entre mil, que dê testemunho de sua retidão, (...).” [Jó 33.22-23]
Aqui Satã é definido como um dos “Bnê Elohim”, os “Filhos de Deus [ou Deuses]”, sendo, portanto, um anjo.

Temos ainda termos novos para designar os anjos. O termo “servo” ('éved), que soma 76=13=4 (o número dos anjos), é um deles. “Santo” (Qadosh), que soma 404=8 (o número da soma de Yahveh), é outro. O número de Yahveh ainda aparece na expressão “Anjo favorável ou Mediador”, onde o termo “Melits” (lit. “intérprete”) soma 980=17=8.

Quando se diz que os anjos podem errar, o termo “erro” (taholáh) soma 440=8. Estariam eles sujeitos ao erro pelo fato de estarem próximos dos homens, fazendo a ligação entre a Divindade imaculada e suas criaturas?

5 – Salmos

Dos 150 Salmos, apenas 11 citam algo referente aos anjos, e na maior parte das vezes, repetindo o que já vimos. Citemos, então, estes trechos num só bloco:

“Quando vejo o céu, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que fixaste, que é um mortal, para dele te lembrares, e um filho de Adão, que venhas visitá-lo? E o fizeste pouco menor do que os Elohim [deuses], coroando-o de glória e beleza.” [Sl. 8.4-6]
“Ele inclinou o céu e desceu, tendo aos pés uma nuvem escura; cavalgou um querubim e voou, planando sobre as asas do vento.” [Sl. 18.10-11, repretindo II Sm 22.10-11, que já analisamos]
“(...) Tributai a Yahveh, ó filhos de Deus (Myl) ynb _ Bnê Elim e não Myhl) ynb _ Bnê Elohim, como de costume), tributai a Yahveh glória e poder, (...).” [Sl. 29.1 – Se Bnê Elohim soma 708=15 – número de Yah – e Bnê Elim soma 703=10 – número da primeira letra de Yahveh –, há correspondência entre ambos, que estão no plural.]
“O Anjo de Yahveh acampa ao redor dos que o temem, e os liberta.” [Sl. 34.8]
“Lançou contra eles o fogo de sua ira (P) _ 'af): cólera (hrb( _ 'evrah), furor e aflição (hrc _ tsarah), uma legião de anjos portadores de desgraças [My(r yk)lm _ Mal'akhê Ra'iym]; (...).” [Sl. 78.49 – Os termos 'evrah e tsarah somam ambos 16, o número da destruição na Cabala. Pois, Ra'iym (“desgraças”), também soma 16. Seriam os “Anjos da Desgraça” (Mal'akhê Ra'iym) outra classe angélica?]
“Deus (Elohim) se levanta no conselho divino (l)-td( _ 'adath-'el), em meio aos deuses (Elohim) ele julga: (...).” [Sl. 82.1 – 'Adath-'El, o conselho divino, soma 505=10, o número de Yahveh. O termo Elohim aparece duas vezes, sendo, na Bíblia de Jerusalém, primeiro traduzido no singular, depois no plural. Mas, se a tradução correta for o plural, o versículo seria assim: “Os Deuses se levantam no conselho divino, em meio aos (outros) Deuses, eles julgam.”]
“E quem, sobre as nuvens, é como Yahveh? Dentre os filhos dos deuses (Bnê Elim), quem é como Yahveh? Deus (El) é terrível no Conselho dos Santos (My#dq dws _ Sod Qedoshim), grande e terrível com todos os que o cercam.” [Sl. 89.7-8 - “Conselho dos Santos” soma 1084=13=4, o número dos anjos. Os “Santos” seriam os “Anjos”?]
“Pois em teu favor ele ordenou aos seus anjos que te guardem em teus caminhos todos.” [Sl. 91.11]
“Yahveh firmou nos céus o seu trono e sua realeza (twklm _ Malkhuth) governa todo o universo. Bendizei a Yahveh, anjos seus, executores poderosos da sua palavra, obedientes ao som da sua palavra. Bendizei a Yahveh, seus exércitos todos, Ministros (wytr#m _ meshartháv) que cumpris a sua vontade.” [Sl. 103.19-21 – O termo “realeza” (Malkhuth, a 10ª Sefirah da Cabala) soma 496=19=10, o número de Yahveh. Já Mesharth (Ministro) soma 940=13=4, o número dos anjos.]
“Louvai-o todos os anjos, louvai-o, seus exércitos todos! [Este versículo – Sl. 148.2 – possui exatamente 26 letras hebraicas, ou seja, a soma total do nome Yahveh.]

6 – Isaías – Jeremias – Ezequiel – Daniel – Oséias – Sofonias – Zacarias – Malaquias

“No ano em que faleceu o rei Ozias, vi o Senhor (Adonay) sentado sobre um trono alto e elevado. A cauda da sua veste enchia o santuário.
Acima dele, em pé, estavam Serafins (Mypr# _ Serafim, plural de Saraf, “abrasador”) , cada um com seis asas; com duas cobriam a face, com duas cobriam os pés e com duas voavam. Eles clamavam uns para os outros e diziam: 'Santo, Santo, Santo é Yahveh dos Exércitos; a sua glória enche [ou preenche] toda a terra (wdwbk Cr)h-lk )lm tw)bc hwhy #wdq #wdq #wdq _ Qadosh, Qadosh, Qadosh, Yahveh tsevaôth melô khol-ha-árets kevodo.).” [Is. 6.1-3]

Neste trecho de Isaías aparecem os Serafins, uma ordem angélica. Serafim é o plural e soma 1090=10, o número de Yahveh. O singular, que é Saraf, soma 1300=4, o número dos anjos.

Nesta passagem aparece um “mantra cabalístico” muito apreciado pelos adeptos do que se chama de “neo-cabala”, uma pseudo-visão que mistura idéias tradicionais com deslumbres do movimento chamado “nova era” - falaremos disso na Parte III. A única diferença é que os adeptos da “neo-cabala” trocaram a expressão bíblica original tw)bc hwhy (Yahveh Tsevaoth - “Yahveh dos Exércitos”) por tw)bc ynd) (Adonay Tsevaoth - “Senhor dos Exércitos”), o que não altera o significado, uma vez que Adonay é um termo utilizado na Bíblia para esconder o nome Yahveh. Todavia, o resultado numérico (o número é a chave energética da Cabala!) é bem diferente. Yahveh soma 26=8, enquanto Adonay soma 65=11=2. O mantra em questão, em sua versão original, possui 35 letras hebraicas e 9 palavras, sendo 9 o número de Eloah. Há aqui uma seqüência cabalística que descobrimos somando o valor destas 9 palavras: 5 – 5 – 5 – 8 – 4 – 8 – 50 – 8 – 2. Veremos mais detalhes na Parte II.

“Todo o exército dos céus se desfaz; os céus se enrolam como um livro, todo o seu exército fenece, (...).” [Is. 34.4]
“Nessa mesma noite, saiu o Anjo de Yahveh e feriu cento e oitenta e cinco mil homens no acampamento dos assírios.” [Is. 37.36]
“Elevai os olhos para o alto e vede: Quem criou estas coisas? É ele que faz sair o seu exército em número certo e fixo; a todos chama pelo nome. Tal é o seu vigor, tão grande a sua força que nenhum deles deixa de apresentar-se.” [Is. 40.26]
“Foram as minhas mãos que estenderam os céus, eu é que dei ordens a todo o seu exército.” [Is 45.12]

Estes quatro trechos não requerem comentário algum, pois repetem o que já analisamos sobre o exército celeste. O mesmo vale para o seguinte trecho de Jeremias:

“Eles os espalharão diante do sol, da lua e de todo o exército dos céus, que eles amaram, seguiram e interrogaram e diante dos quais eles se prostraram.” [Jr. 8.2]

Os trechos de Ezequiel são particularmente interessantes por descreverem detalhadamente os anjos contactados por este profeta:

“(...) eis que os céus se abriram e tive visões de Deus (Elohim). (...) Eu olhei: havia um vento tempestuoso que soprava do norte, uma grande nuvem e um fogo chamejante; em torno, de uma grande claridade e no centro algo que parecia electro (lm#x _ hashmal), no meio do fogo. No centro, algo com forma semelhante a quatro animais, mas cuja aparência fazia lembrar uma forma humana. Cada qual tinha quatro faces e quatro asas.
(...) No meio dos animais havia algo como brasas ardentes, com a aparência de tochas, que se movia por entre os animais. O fogo era brilhante e do fogo saíam relâmpagos. Os animais iam e vinham à semelhança de um relâmpago.
“Olhei para os animais e eis que junto aos animais de quatro faces havia, no chão, uma roda (Npw) _ 'ofan). O aspecto das Rodas (Mynpw) _ 'Ofanim) e a sua estrutura tinham o brilho do crisólito. Todas as quatro eram semelhantes entre si. Quanto ao seu aspecto e à sua estrutura, davam a impressão de que uma roda estava no meio da outra. (...) As rodas se moviam para o espírito (xwr _ Ruah) a fim de avançarem na direção em que o espírito as conduzia e se levantavam com ele, porque o espírito do animal estava nas Rodas.” [Ez. 1.1,4-6,13-16,20]
“Olhei e eis sobre a abóbada que estava por cima da cabeça dos Querubins, por cima deles surgiu algo semelhante a uma pedra de safira, que tinha a aparência de um trono. (...) Ora, os Querubins estavam de pé do lado direito do Templo quando o homem entrou, e a nuvem enchia o átrio interior. A Glória de Yahveh (hwhy dwbk _ Kevod Yahveh) ergueu-se de sobre o querubim, movendo-se em direção ao limiar do Templo. Ao quê o Templo se encheu com a nuvem e o átrio ficou cheio do resplendor da Glória de Yahveh. O ruído das asas dos Querubins podia ser ouvido desde o átrio exterior, como a voz de El Shaday quando ele fala. (...) Em seguida, a Glória de Yahveh saiu de sobre o limiar do Templo e pousou sobre os Querubins. Os Querubins levantaram as asas e se ergueram do solo, à minha vista. Ao saírem, as Rodas estavam com eles.” [Ez. 10.1,3-5,18-19]
“Então os querubins ergueram as suas asas, enquanto com eles, ao seu lado, iam as Rodas, e a Glória do Deus (Eloah) de Israel estava por cima, sobre eles. A Glória de Yahveh elevou-se de sobre a cidade e pousou em cima do monte que ficava para o oriente.” [Ez. 11.22-23]
“Fiz de ti o Querubim Mimeshah (x#mm bwrk _ Keruv Mimeshah, termo de significado incerto traduzido por São Jerônimo como “querubim de asas abertas”); estavas no monte santo de Deus (Elohim) e movias-te por entre pedras de fogo.” [Ez. 28.14]
“Conduziu-me para lá e eis aí um homem (#y) _ 'ish), cujo aspecto era como o bronze, e que tinha na mão um cordel de linho e uma cana de medir. Ele estava em pé no pórtico.” [Ez. 40.3]

Estes trechos trazem alguns termos complicados, alguns, inclusive, de significação desconhecida. O primeiro deles é hashmal, traduzido na Bíblia de Jerusalém como “electro” (o âmbar amarelo), mas cuja significação exata não é conhecida. O texto diz que hashmal estava no centro, no meio do fogo, assim como os quatro animais e as “Rodas”. O termo deve, portanto, ter alguma ligação com estas classes angélicas. Cabalisticamente, hashmal soma 378=18=9, o número de Eloah.

O termo “animais” (twyx _ hayoth) soma 424=10, o número de Yahveh. O termo Ofanim (Rodas) soma 747=18=9, o número de Eloah. Seu singular Ofan (Roda) soma 787=22, o número das letras do alfabeto hebraico e, na Cabala, o número das Leis Cósmicas que regem o universo. As Rodas estão, portanto, associadas à Ordem Universal. Diz o texto que elas estão associadas ao “espírito” (divino), que é Ruah, o qual soma 214=7, o número perfeito e também o número dos planetas e dos Anjos Planetários. As Rodas podem, então, referir-se aos anjos regentes dos planetas.

Uma expressão de tradução incerta é “Keruv Mimeshah”, traduzida livremente como “querubim de asas abertas”. Keruv soma 228=12 (os signos do zodíaco); Mimeshah soma 388=19=10 (o número de Yahveh); “Keruv Mimeshah” soma 616=13=4 (o número dos anjos). No caso de Mimeshah, a soma cabalística (388) nos remete a outro termo hebraico – xp# (shofeh) – que significa “servo, criado”. A tradução, então, poderia ser: “Fiz de ti o servo querubim...”

Vejamos, então, os trechos do Livro de Daniel:

“E ele [o rei Nabucodonosor] prosseguiu: 'Mas estou vendo quatro homens (o original traz a expressão aramaica Nyrbg _ guvrin, homens) sem amarras, os quais passeiam no meio do fogo sem sofrerem dano algum, e o quarto deles tem o aspecto de um filho dos deuses (aramaico Nyhl)-rb _ bar-'elahin)!' (...) Exclamou então Nabucodonosor: 'Bendito seja o Deus (aramaico hl) _ Elah, equivalente ao hebraico Eloah) de Sidrac, Misac e Abdênago, que enviou o seu anjo e libertou os seus servos, os quais, confiando nele, desobedeceram à ordem do rei e preferiram expor os seus corpos a servir ou adorar qualquer outro deus (Elah) senão o seu Deus (Elah).'” [Dn. 3.25,28 – Aqui, o termo guvrin, “homens” em aramaico, equivale ao hebraico Myrbg _ gevarim. Todavia, faz mais sentido o cálculo cabalístico se feito em aramaico, pois este trecho está nesta língua, que assimilou o hebraico anterior. Guvrin soma 915=15, o valor de Yah, abreviatura de Yahveh. Os “homens” são, portanto, enviados (anjos) de Yahveh. A expressão “filho dos deuses” soma 948=21=3, sendo este número a fecundidade e a primeira letra do nome divino lwdg _ Gadol, que significa “Grande”. É um sinal da Divindade.]
“Eu continuava a contemplar as visões da minha cabeça, sobre o meu leito, quando vi um Vigilante (ry( _ 'ir), um santo (#ydq _ Qadish) que descia do céu e que bradava com voz possante: '(...) Eis a sentença que pronunciam os Vigilantes (Nyry( _ 'irin), a questão decidida pelos santos (Ny#ydq _ qadishin), a fim de que todo ser vivo saiba que o Altíssimo (h)l( _ 'Illa'ah) é quem domina sobre o reino dos homens: (...).' (...) Quanto ao fato de o rei ter visto um Vigilante, um santo que descia do céu (...). (...) Todos os habitantes da terra são contados como nada, e ele dispõe a seu bel-prazer do Exército dos Céus (aramaico )ym# lyx _ Hel Shemaiá') e dos habitantes da terra.” [Dn. 4.10,14, 20, 32 – Nestes trechos aparece pela primeira vez o termo “Vigilante” para designar um anjo. O termo no singular ('ir) soma 280=10 (Yahveh) e no plural ('irin) soma 990=18=9 (Eloah).]
“Meu Deus enviou-me seu anjo e fechou a boca dos leões, de tal modo que não me fizeram mal.” [Dn. 6.23]
“Então ouvi um santo (#wdq _ qadosh) a falar. E outro santo disse àquele que falava: 'Até quando irá a visão do sacrifício perpétuo, (...)?' (...) Enquanto contemplava esta visão, eu, Daniel, procurava o seu significado. Foi quando, de pé diante de mim, vi uma como aparência de homem (rbg – gaver). E ouvi uma voz humana (Md)-lwq _ qol-adam) sobre o Ulai gritando e dizendo: 'Gabriel, explica a este a visão!' Ele dirigiu-se para o lugar onde eu estava. À sua chegada, fui tomado de terror e caí com a face por terra. (...) Ele me fez reerguer no lugar onde eu estava. (...) Então, eu, Daniel, desfaleci e fiquei doente por vários dias.” [Dn. 8.13, 15-18, 27 – Aqui temos a chave do nome do anjo Gabriel. Daniel descreve alguém com a aparência de um homem (gaver). Ora, Gabriel (orig. l)yrbg _ Gavriel) nada mais significa que “homem de Deus”. É um nome genérico, portanto. Como Gabriel soma 246=12, parece haver alguma relação com os signos zodiacais.]
“(...) eu estava ainda falando, em oração, quando Gabriel, aquele homem que eu tinha notado antes, na visão, aproximou-se de mim, num vôo rápido, pela hora da oblação da tarde. Ele veio para falar-me, e disse: 'Daniel, eu saí para vir instruir-te na inteligência (hnyb _ binah, a 2ª Sefirah da Cabala).” [Dn. 9.21-22 – Seria Gabriel o anjo da inteligência, além do seu já conhecido papel de anunciador? De fato, o termo “inteligência” (binah) soma 67=13=4, o número dos anjos.]
“(...) levantei os olhos para observar. E vi: Um homem revestido de linho, com os rins cingidos de ouro puro, seu corpo tinha a aparência do crisólito e seu rosto o aspecto do relâmpago, seus olhos como lâmpadas de fogo, seus braços e suas pernas como o fulgor do bronze polido, e o som de suas palavras como o clamor de uma multidão. Somente eu, Daniel, vi esta aparição. Os homens que estavam comigo não viam a visão, (...). Ouvi, então, o som de suas palavras. (...) E ele disse-me: '(...) E é por causa de tuas palavras que eu vim. O Príncipe do reino da Pérsia me resistiu durante vinte e um dias, mas Miguel (l)kym _ Mikhael), um dos primeiros Príncipes (Myr# _ Sarim), veio em meu auxílio. Fui deixado afrontando os reis da Pérsia e vim para fazer-te compreender o que sucederá a teu povo, no fim dos dias, (...).” [Dn. 10.5-7, 9, 11-14 – Este trecho é difícil, já que parece tratar-se de dois anjos, o que enviou Miguel e o próprio Miguel, aqui citado. Todavia, o anjo diz “fui deixado afrontando” e não “eu deixei (Miguel) afrontando”, fazendo-nos pensar que quem fala é o próprio Miguel. O termo “Príncipes” soma 1110=3, e se constitui noutra classe angélica.]
Nesse tempo levantar-se-á Miguel, o grande Príncipe, que se conserva junto dos filhos do teu povo. Será um tempo de tal angústia qual jamais terá havido até aquele momento, desde que as nações existem. Mas nesse tempo o teu povo escapará, isto é, todos os que se encontrarem inscritos no Livro.” [Dn. 12.1 – Nesta fase do texto bíblico, Miguel toma as funções que, no Pentateuco, eram atribuídas ao Anjo de Yahveh. Talvez Miguel seja o próprio Anjo de Yahveh, já que o significado do hebraico Mikhael é “o semelhante a Deus”. Isso explicaria a confusão entre Yahveh e seu Anjo, que seria, então, a expressão de Deus como ou através de uma manifestação fenomênica.]

Para encerrar nossa análise do Antigo Testamento, apresentamos em bloco os trechos relevantes de Oséias, Sofonias, Malaquias e Zacarias:

“No seio materno ele suplantou seu irmão, e em seu vigor lutou com Deus (Elohim). Ele lutou contra o anjo e o venceu, ele chorou e lho implorou. Em Bet-El o reencontrou. Ali ele nos falou. Yahveh, Deus dos Exércitos (tw)bch yhl) _ Elohê ha-tsevaoth), Yahveh é o seu nome.” [Os. 12.4-6 – Aqui, o anjo que lutou com Jacó é definido como o próprio Yahveh. A expressão “Deus dos Exércitos” soma 550=10, o número de Yahveh.]
“Estenderei a minha mão contra Juda e contra (...) os que se prostram nos telhados diante do exército dos céus, os que se prostram diante de Yahveh, mas juram por seu rei, os que se afastam de Yahveh, que não procuram a Yahveh nem o consultam.” [Sf. 1.4-6]
“Eis que vou enviar o meu mensageiro (yk)lm _ Mal'akhí) para que prepare um caminho diante de mim. Então, de repente, entrará em seu Templo o Senhor que vós procurais; o Anjo da Aliança (tyrbh K)lm _ Mal'akh ha-beríth), que vós desejais, eis que ele vem, disse Yahveh dos Exércitos.” [Ml. 3.1 – Este mensageiro enviado por Deus é identificado pelos teólogos como sendo o Cristo. Ele é chamado “Anjo da Aliança”, expressão que soma 1183=13=4, o número dos anjos. Temos aqui, então, a identificação do Cristo com um anjo. Afinal, a palavra “anjo”, em hebraico “mal'akh”, significa “mensageiro”. Mas há uma diferença entre Cristo e Jesus – Ver adiante.]
“Eu tive uma visão durante a noite. Eis: Um homem montado em um cavalo vermelho estava parado entre as murtas que havia num vale profundo; atrás dele estavam cavalos vermelhos, alazões e brancos. E eu disse: 'Quem são eles, meu Senhor?' Disse-me o anjo que falava comigo: 'Vou mostrar-te quem são eles.' E o homem que estava entre as murtas respondeu: 'Estes são os que Yahveh enviou para percorrerem a terra.' Então eles se dirigiram ao Anjo de Yahveh, que estava entre as murtas e lhe disseram: 'Acabamos de percorrer a terra e eis que toda a terra repousa e está tranqüila!.'” [Zc 1.8-11]
“Depois Yahveh fez-me ver quatro ferreiros (My#rx _ harashim).” [Zc 2.3 – Há, aqui, outro nome para anjos. Eles são chamados de “ferreiros”, o que soma 1118=11=2. O singular “ferreiro” soma 508=13=4, o número dos anjos!]
“Ele me fez ver Josué, sumo sacerdote, que estava de pé diante do Anjo de Yahveh, e Satã, que estava de pé à sua direita para acusá-lo. Yahveh disse a Satã: 'Que Yahveh te reprima, Satã, reprima-te Yahveh, que elegeu Jerusalém.'” [Zc. 3.1-2 – O trecho confunde três personagens: Yahveh, Satã e o Anjo de Yahveh, identificado há pouco com Miguel.]
“E eu disse: 'Vejo um lampadário todo de ouro com um reservatório em sua parte superior; sete lâmpadas estão sobre ele (...).' Então eu perguntei ao anjo que falava comigo: 'O que significam estas coisas, meu Senhor?' (...) E ele respondeu-me: 'Estes sete são os olhos de Yahveh, que percorrem toda a terra.'” [Zc. 4.2-4, 6a, 10b – Estes seriam os Sete Anjos Planetários ou Sete Anjos da Face.]