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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Filosofia Esotérica no Antigo Testamento

(Trecho do livro "Elohê Israel - filosofia esotérica na Bíblia", de Paulo Stekel - saiba como adquirir acessando: http://stekelmusic.blogspot.com.br/2013/10/livros-de-stekel-e-books-em-pdf.html)





Algo que surpreende os especialistas na Bíblia é o número de imprecisões, traduções duvidosas e mesmo incertezas completas na tradução de certos trechos do Antigo Testamento hebraico (o texto dos judeus massoretas da Idade Média). Na análise exaustiva que fizemos do texto hebraico-aramaico do Antigo Testamento encontramos controvérsias em pelo menos 400 versículos! Quanta dúvida paira sobre a Palavra de Deus!

Para aqueles que quiserem comprovar por si mesmos nossa afirmação, apresentamos abaixo a lista dos 400 versículos. Se os leitores se apoiarem nos comentários e notas de rodapé da Bíblia de Jerusalém, terão uma idéia precisa das controvérsias pertinentes a cada versículo.

Eis os trechos, segundo os livros em que constam:

Gênese: Cap. 2.6; 6.3; 14.14; 15.2; 24.63; 27.40; 30.32,35,37,39 e 40; 31.8,10 e 12; 36.24; 41.43; 49.4 e 10.

Êxodo: Cap. 1.16; 3.2,3 e 4; 14.16; 21.22; 28.4 e 22; 32.4 e 25; 39.15.

Números: Cap. 5.28; 24.3,15 e 17.

Levítico: Cap. 5.21; 11.13,17 e 30; 13.48; 16.8,10 e 26; 26.16.

Deuteronômio: Cap. 14.5,12 e 17; 24.20; 28.22; 32.15 e 26; 33.2,3,16 e 22.

Josué: Cap. 15.19 e 59; 17.11.

Juízes: Cap. 3.23; 5.21 e 26; 7.13; 8.7 e 16; 9.6; 14.18; 15.16; 19.22.

I Samuel: Cap. 1.6; 2.25 e 36; 9.7; 13.21; 14.4; 15.23 e 33; 19.20; 21.9.

II Samuel: Cap. 1.9; 2.29; 6.7; 17.13; 20.14.

I Reis: Cap. 6.4,8,9 e 21 [neste versículo há dois termos controversos]; 7.4; 12.10; 17.12; 20.27.

II Reis: Cap. 12.13; 15.5; 17.9; 18.4; 23.11; 25.12.

I Crônicas: Cap. 26.18.

II Crônicas: Cap. 6.26; 10.10; 26.21; 28.23; 35.22.

Esdras: Cap. 1.9; 2.57; 4.9[dois termos controversos],10 e 13; 5.3,6,9 e 16; 6.6 e 11; 7.12.

Neemias: Cap. 3.8 e 34; 5.7; 7.59.

Ester: Cap. 1.6 [dois termos controversos].

Jó: Cap. 4.12; 5.5; 6.6,7 e 14; 9.15; 11.18; 12.6; 13.27; 16.13; 18.9 e 12; 19.6,26 e 29; 20.10 e 24; 21.24; 26.9 e 14; 30.12,24 e 34; 31.11; 33.24 e 25; 34.20; 35.15; 36.18 [dois termos controversos] e 19; [idem]; 37.21; 39.1 e 18; 40.2,15,18 e 20.

Salmos: Cap. 7.1; 9.1; 12.2 e 9; 16.2; 17.12 e 14; 19.7; 20.6; 27.12; 31.21; 32.4 e 7; 35.16; 38.9; 39.6; 42.5 [dois termos controversos] e 11; 48.3,14 e 15; 49.9; 55.3 e 16; 58.9 e 10; 68.14,18,23,31 [dois termos controversos] e 32; 71.15; 72.16; 73.4 e 10; 74.6; 76.11; 77.11; 84.4 e 7 [dois termos controversos]; 88.16 [dois termos controversos]; 90.3,5 e 10; 91.4; 109.22; 119.96 e 113; 141.6.

Provérbios: Cap. 3.26; 6.3; 7.22; 9.3 e 13; 18.19; 19.23; 20.21; 21.8; 23.2; 25.11; 26.2; 29.21; 30.1 e 31 [dois termos controversos].

Eclesiastes: Cap. 2.8; 10.10; 11.10.

Cântico dos Cânticos: Cap. 2.17; 4.16; 5.12; 6.4 e 10; 7.10.

Isaías: Cap. 2.6; 3.23; 5.30; 8.1; 9.18; 10.18; 11.15; 14.31; 15.5; 16.8; 17.9 e 10; 19.8 e 10; 20.4; 22.5 e 18; 23.13; 24.6 e 16; 25.11; 27.8; 28.15,16 e 25 [dois termos controversos]; 29.3 [dois termos controversos] e 7; 32.5 e 7; 33.3,7 e 16; 34.15; 38.10; 40.20 [dois termos controversos] e 22; 41.14; 50.4; 51.20; 52.14; 57.13; 59.10; 61.10; 65.4.

Jeremias: Cap. 2.19; 5.28; 11.16; 14.1 e 4; 17.11; 25.34; 29.17; 33.6; 43.9 e 10; 48.9; 49.16; 50.29; 52.15 e 16.

Lamentações: Cap. 1.20; 2.11; 4.9.

Ezequiel: Cap. 1.4,14,24 e 27; 7.7,11 e 23; 8.2; 13.20; 16.4,10,13,30 e 36; 17.9; 19.9; 20.37; 21.18,19,20,21 e 27; 22.22 e 24; 23.20 e 42; 24.10; 27.15,17,19,20,24 e 32; 28.9 e 14; 31.15; 32.5,6 e 26; 34.12; 40.16 e 43; 41.8,9,11,16 [dois termos controversos] e 26.

Daniel: Cap. 2.5; 3.21,27 e 29; 6.19; 7.6; 9.25 e 27; 11.32.

Oséias: Cap. 4.5,13 e 18; 5.2; 6.8; 7.8; 10.10; 11.9; 13.5 e 8.

Joel: Cap. 1.17.

Amós: Cap. 2.13; 3.12 [dois termos controversos]; 5.11; 6.5; 9.1.

Obadias (ou Abdias): O vers. 6 de seu único capítulo.

Miquéias: Cap. 1.13; 2.4 e 12; 4.11; 7.3.

Naum: Cap. 1.10; 2.4; 3.18 e 19.

Habacuc: Cap. 2.5 e 16; 3.1,9 e 10.

Sofonias: Cap. 2.1 e 11; 3.3 e 10 [dois termos controversos].

Zacarias: Cap. 1.8; 4.7; 6.3 e 7; 9.12.

A primeira citação direta de Anjos [hebr. Myk)lm – mal'akhim, “mensageiros”] na Bíblia está em Gênese 3.24. Ali se diz que Deus colocou “querubins” para guardar o caminho da Árvore da Vida. Como dissemos no Tópico 32, os querubins hebreus são uma cópia dos karibu mesopotâmicos, espécies de gênios protetores das entradas. Segundo Blavatsky, os anjos são os protetores do gênero humano e os Senhores do Carma. Dos sete anjos principais (os Anjos da Face), quatro estão ligados à terra, à matéria, e sobre ela têm sua influência. Estes quatro anjos foram descritos pelo profeta Ezequiel na seguinte visão:

“Eu olhei: havia um vento tempestuoso (...) uma grande nuvem e um fogo chamejante (...) No centro, algo como forma semelhante a quatro animais, mas cuja aparência fazia lembrar uma forma humana. Cada qual tinha quatro faces e quatro asas (...) tinham forma semelhante à de um homem, mas os quatro apresentavam face de leão do lado direito e todos os quatro apresentavam face de touro do lado esquerdo. Ademais, todos os quatro tinham face de águia (...) Olhei para os animais e eis que junto aos animais de quatro faces havia, no chão, uma roda (...) Todas as quatro eram semelhantes entre si (...) davam a impressão de que uma roda estava no meio da outra (...) porque o espírito do animal estava nas rodas.”(Ezequiel 1.4-20)

Os gnósticos ofitas substituíam a figura de Homem do primeiro animal pela de um dragão, a serpente mística da Sabedoria. Para eles, o Dragão representava o Anjo Rafael, o Leão o Anjo Miguel, o Touro o Anjo Uriel e a Águia o Anjo Gabriel.

Em hebraico, l)pr (Refa'el – Rafael) vale 311, mesmo valor de #y) ('ish – homem). Além disso, 3+1+1 = 5, o número do pentagrama, representação do Homem. Portanto, os gnósticos ofitas viam no Dragão o símbolo do Homem iniciado.
Miguel, em hebraico l)kym (Mikha'el), vale 101, assim como hkwlm (melukhah - “realeza, reino”), uma evocação de poder. E, 1+0+1 = 2, o número cabalístico da Sabedoria (Sofia) e da Criação, simbolizado no Leão.
Uriel, em hebraico l)yrw) ('uriy'el), vale 248, assim como rxm (machar - “amanhã, futuro”). Uriel é aquele que conduz o homem para o futuro, para o seu destino – o Renascimento após a Iniciação. Isso é representado no Touro.
Gabriel, em hebraico l)yrbg (Gavri'el), vale 246, assim como hrm) ('imrah - “palavra, dito”). Representa a Palavra do Uno (O Absoluto) que tem o poder de gerar o Universo.
Assim, Gabriel é o Logos (o Cristo Cósmico), Miguel é o Universo gerado por ele, Rafael é o Homem como ser espiritual e Uriel é a continuidade ou perenidade da Consciência.

Num sentido mais aprofundado: Gabriel é o Logos manifestado pela Sabedoria (Sofia) do Absoluto, e sua natureza é Natureza de Sabedoria; Miguel é o Universo emanado da Natureza de Sabedoria ou o Homem Celeste, e sua natureza é Natureza de Magnetismo; Rafael é o Homem ou o próprio Logos descenso no Universo, cuja natureza é Natureza de Divindade e de Coesão, sendo a ligação entre o Logos e o Universo; Uriel é a Continuidade dos Elementos Universais, o que ocorre por uma força interna ou Luz Oculta. Esta Luz Oculta é, no Logos o Absoluto, no Universo o Sol, no Homem o Eu Superior (Cristo Interno) e nos Elementos as forças de interação que mantêm os átomos unidos.

Vejamos como seria a origem do mundo se interpretássemos o primeiro capítulo de Gênese segundo a Sabedoria gnóstica destes quatro anjos:

“Ora, a terra estava vazia e vaga [i.e., não havia sido ainda manifestada pelo Logos], as trevas cobriam o abismo, e um vento de Deus [i.e., o Absoluto] pairava sobre as águas.
Deus disse: 'Haja um firmamento no meio das águas e que ele separe as águas das águas', e assim se fez. (...) e Deus chamou ao firmamento 'céus' [i.e., o espaço ou o nosso universo]. (...) segundo dia.
Deus disse: 'Façamos o homem [i.e., agora é o Logos, dividido em sete criadores, que fala no plural] à nossa imagem, como nossa semelhança, (...)'. (...) sexto dia.
Deus concluiu no sétimo dia a obra que fizera e no sétimo dia descansou, (...) [i.e., estava assegurada a continuidade dos elementos universais].” (Gn 1.2-4, 6-8, 26, 31 e 2.2)

Observe-se que no primeiro dia o Absoluto manifestou o Logos, entre o segundo e o quinto dia o Logos emanou o universo, no sexto dia o Homem foi criado e no sétimo dia foi estabelecida a continuidade dos elementos. A tarefa mais demorada parece ter sido a emanação do universo, que levou quatro dias [cada dia é um ciclo cósmico de milhões de anos], sendo o quatro o número da matéria.

Em Gn 1.1, Deus é denominado Myhl) (Elohim); em Gn 2.4, é Myhl) hwhy (Yavé Elohim); em Gn 4.1, é hwhy (Yavé).
Elohim são os sete construtores emanados do Logos. O termo soma 646, que equivale ao hebraico rwnt (tannur - “forno”), pois os Elohim (os “deuses”) são os forjadores do Universo.
Yavé Elohim pode significar “O Existente [entre os] deuses”. É a consciência dos Elohim descendo à matéria (o Jardim de Éden), promovendo a coesão entre o plano do Logos (o universo manifestado) e o plano do Absoluto (o imanifestado).
Yavé é o Homem (Celeste) ou a Glória do Logos nos Elementos. Caim é o primeiro representante desta Glória, ainda imperfeita, e Abel o segundo, já melhorado, depois substituído por Seth.
Esta simbologia vale especialmente para o livro de Gênese, pois nos livros posteriores do Antigo Testamento, os três nomes são usados ser diferenciação.

Como dissemos, a Criação do mundo como apresentada no cap. 1 de Gênese não foi ideia de Moisés. Este conhecia os relatos da Criação dos egípcios, ao passo que a Bíblia apresenta apenas a versão babilônica, que os judeus trouxeram da Mesopotâmia nos tempos de Esdras. O número sete é repetido exaustivamente nas tabuletas cosmogônicas assírias, caldaicas e acadianas. Nestas tabuletas, o nome que corresponde ao Adão bíblico é usado num sentido coletivo, de humanidade, e nunca parece se referir a um só indivíduo, como se acreditou a respeito de Adão por muito tempo. Para os babilônios, Adão é Adamu, a Raça Escura. Para estes, os Sete Deuses Criadores, cada um dos quais criou um homem (um Adão!) ou grupo de homens, eram: Zi (Vida), Zi-ku (Vida Nobre), Mir-ku (Coroa Nobre), Libzu (Sábio entre os deuses), Nissi, Suhhab e Hea (ou Sa), a Síntese de todos, o Deus da Sabedoria e do Oceano, o Demiurgo ou Criador. Eis a origem dos sete dias de Gênese.

Boa parte da antropogonia de Gênese também tem origem na Mesopotâmia e não em Moisés. Às vezes, encontram-se algumas fusões entre as duas tradições, como consequência das adições sacerdotais. Seguindo os ensinamentos da filosofia esotérica contidos em “A Doutrina Secreta”, de Helena Blavatsky, concluímos que:

O Adão de Gn 1.26 a 2.17 é considerado a primeira criação humana dos Sete Elohim ou Anjos Criadores. É a primeira raça da terra, considerada sem sexo. Seu número cabalístico é o dois, sendo a Raça da Sabedoria ou a Raça Filha de Sofia.
O conjunto Adão-Eva de Gn 2.18 a 3.24 corresponde à segunda raça criada pelos Elohim. Trata-se de uma raça de andróginos inativos, cujo número cabalístico é o três: é a Raça Filha do Amor.
O conjunto Caim-Abel de Gn 4.1-24 corresponde à terceira raça, a dos hermafroditas que se separaram. Seu número cabalístico é o dez: é a Raça Filha da Mente, por ser a primeira a usar o raciocínio mental.
Por fim, o conjunto Seth-Enos de Gn 4.25-26 e 5.3-11 corresponde à quarta raça, separada em dois sexos. Seu número cabalístico é o quatro, representando a matéria mais grosseira: é a Raça Filha da Matéria.

Esta divisão em quatro raças primordiais antes da nossa raça atual (a quinta) – sem sexo, andrógina, hermafrodita e com dois sexos – é comum a todas as grandes iniciações do mundo, mas o Gênese adulterado pelos sacerdotes só apresenta a doutrina de forma muito velada.

187 – Segundo Blavatsky, na obra citada, do ponto de vista da filosofia esotérica, existem três dilúvios, cada um com sua simbologia: o primeiro dilúvio é o cósmico, referindo-se à Criação Primordial ou à formação dos céus e das terras; o segundo dilúvio refere-se à destruição do continente da Lemúria, quando os seres humanos eram hermafroditas; o terceiro dilúvio refere-se à submersão do continente da Atlântida. As referências bíblicas aos dois primeiros dilúvios são muito escassas, pois são eventos muito antigos. O primeiro dilúvio é referido veladamente em Gn 1.2 como o grande abismo, ao passo que as águas deste abismo só são separadas no vers. 6. A citação é cosmogônica e os eventos devem ter ocorrido há bilhões de anos, segundo a ciência moderna. O segundo dilúvio deveria ser citado no cap. 4 de Gênese, pois Caim e Abel representam a terceira raça, na qual ele teria ocorrido. Entretanto, só uma referência à expulsão de Caim. Este dilúvio teria ocorrido há milhões de anos, segundo Blavatsky. O terceiro dilúvio – o de Noé – é o mais detalhado da Bíblia (Gn 6.5 a 9.17), mas é uma cópia dos relatos da Mesopotâmia.

Na verdade, os três dilúvios se confundem, e o Noé bíblico tanto é o Tempo, quanto idêntico ao Espírito de Deus de Gn 1.2, como se pode perceber na confrontação de dois trechos:

“(...) as trevas cobriam o abismo, e um vento [ou espírito] de Deus [leia-se Elohim, os deuses] pairava sobre as águas.” [Gn 1.2]
“As águas subiram e cresceram muito sobre a terra e a arca [com Noé, o vento ou espírito] flutuava sobre as águas.” [Gn 7.18]

Noé é apenas um nome alegórico para representar todos os salvadores da humanidade do passado. O Manu hindu é a mesma alegoria. [ver Tópicos 36 a 39]

Blavatsky já alertava para o fato de que os 12 filhos de Jacó nunca existiram, a não ser no simbolismo. No tronco árabe dos afegão, segundo ela, é possível encontrar nomes muito parecidos com os das 12 tribos: Yussufzic (filhos de José), Zablistani (Zabulon), Ben-Manasseh (filhos de Manassés), Isaguri (Issacar).

A versão de Gênese que chegou até nós é mais uma reminiscência do Exílio em Babilônia, um reescrito vergonhoso do tempo de Esdras. A respeito, Blavatsky disse: “Os nomes de localidades, homens e até objetos, mencionados no texto original, são encontradiços entre os caldeus e os acadianos, estes os antepassados e instrutores dos primeiros.” [Ísis Sem Véu, Vol“(...) a narração bíblica judia foi uma compilação de fatos HISTÓRICOS, retirados da história de outros povos e ordenados segundo o critério judeu, exceto o Gênese, que é esoterismo puro e simples. (...) O Éden judeu foi uma CÓPIA da CÓPIA caldéia.” (“A Doutrina Secreta”, Vol. III]

Em hebraico, Md) (Adam – Adão) é a humanidade, pois a palavra é um coletivo para homem, ser humano, humanidade. Adam vale 605, que equivale ao pronome hebraico Mh (hem - “eles, aqueles”). E, 6+0+5 = 11 = 1+1 = 2, a Essência Divina da Sabedoria. Se Adão representa aqueles que têm esta Essência, isso se refere aos Sete Elohim originados da divisão do Logos. Esta é a primeira Humanidade. Se Adão é um coletivo, deriva de d) ('ad), cujo valor é 5, o número do Homem na Cabala, especificamente o Primeiro Homem. Então, os primeiros homens, que eram espirituais e não materiais, segundo o Zohar (obra cabalística medieval), possuíam a Essência Divina da Sabedoria do Logos, e foram os responsáveis pela queda na matéria, que gerou a humanidade atual.

Assim, o termo d) ('ed), escrito com as mesmas consoantes de Ad, e que aparece em Gn 2.6, traduzido como “corrente de águas subterrâneas” e, em Jó 36.27 como “caudal das águas celestiais”, nada mais é que as “águas primordiais”. Nwd) ('adon = 'ad+on) é o “Senhor Primordial” (o Primeiro Homem), assim como ynd) ('adonay = 'ad+on+ay) é “Meu Senhor Primordial”, ou seja, o Meu Deus Interno! ryd) ('adir = 'ad+ir, “grandioso”) equivale a “O Primeiro em Grandeza” e hmd) ('adamah = 'ad+amah, “terra, solo”) é “A Primeira Terra”.

O livro de Enoc é um dos apócrifos mais comentados do Antigo Testamento por seu rico simbolismo. Este personagem é citado em Gn 5.18-24 (Sacerdotal) como sendo o bisavô de Noé. Teria vivido exatos 365 anos! Porém, em Gn 4.17-18 (Javista), ele é apresentado como filho direto de Caim. Na primeira citação, Enoc é apenas uma alegoria astronômica: a translação da Terra, que dura 365 dias. Na segunda, representa a quarta raça, a da Atlântida (segundo Blavatsky), de onde saíram os Instrutores da quinta raça atual. Enoc (Kwnx – Chanokh) significa “instrutor”, e é uma alegoria para os iniciados de Atlântida, os avós iniciáticos de Noé, o salvador do dilúvio.

Gn 5.24 diz: “Enoc andou com Deus [Myhl) – Elohim], depois desapareceu, pois Deus o arrebatou.” Blavatsky vê aqui o resgate dos sobreviventes de Atlântida e os anjos seriam os protetores espirituais da Humanidade, representados na alegoria hindu do Manu de Raça.

Que existia um tal livro de Enoc sempre foi claro para os judeus que, todavia, não o incluíram em seu cânone, e os cristãos também o rejeitaram. Mas ele é citado tanto no Antigo Testamento (Eclesiástico 44.16 e 49.14) quanto no Novo Testamento (Lucas 3.37 e Hebreus 11.5). A Epístola de Judas cita Enoc textualmente (vers. 14 a 16). Parece que os autores do Novo Testamento tiveram o livro de Enoc como uma de suas fontes principais.

O livro foi reencontrado no séc. XVIII por Bruce, um viajante inglês, e a tradução só foi publicada pelo arcebispo Laurence, em 1821. Era uma versão etíope, cuja redação é do séc. I ou II a.C. O original, entretanto, deve ser mais antigo, para além do séc. III a.C., e é mesmo provável que seja uma obra da seita dos Essênios, o que indica um original aramaico.

O Novo Testamento, em muitas passagens, parece inspirado em Enoc. A Parábola do Bom Pastor, que salva as ovelhas dos mercenários e lobos, no Evangelho de João 10.1-18, tem seu paralelo no cap. 88 do livro de Enoc etíope. Leia-se João e compare-se com Enoc:

“Percebi em minha visão todos os pássaros do céu que acorriam, as águias, os milhafres e os corvos. E as águias conduziam todas as outras. E começaram a devorar as ovelhas, a furar seus olhos com bicos e a se nutrir de sua carne. (...) E percebi em minha visão os corvos que se lançavam sobre os cordeiros. (...) E eis que o Senhor dos rebanhos desceu inflamado pela cólera e todos os que o perceberam fugiram. (...) Vi ainda chegar até eles o Senhor das ovelhas, mantendo em sua mão o cetro de sua cólera, golpear a terra que se entreabriu e os animais e os pássaros do céu deixaram de perseguir as ovelhas e caíram nos abismos profundos da terra, que se fechou sobre eles. Vi também quando deu uma grande espada às ovelhas que perseguiram por sua vez os animais selvagens e os exterminaram. (...) A seguir, os setenta pastores foram julgados e reconhecidos como culpados e foram igualmente lançados no abismo inflamado. (...) Vi também o Senhor das ovelhas construir uma casa maior e mais alta que a primeira e construí-la no mesmo lugar em que o havia sido a primeira. (...) E o Senhor das ovelhas morava em seu interior. (...) As ovelhas eram todas brancas, a lã longa e isenta de qualquer mancha. (...) E seus olhos estavam abertos e contemplavam o Bom, e ele era apenas um entre elas, para aquelas que não o percebiam. (...) Vi então a natureza de todos ser transmutada e tornaram-se, todos, bezerros brancos. E o primeiro dentre eles tornou-se Verbo, e o Verbo tornou-se um grande animal e tinha em sua cabeça grandes cornos negros. E o Senhor das ovelhas rejubilava-se à vista de todos aqueles bezerros.” [Enoc etíope, cap. 88, vers. 2-48]

A semelhança é inegável. Os conceitos evangélicos de ressurreição, juízo final, imortalidade, condenação e Reino dos Céus, sob o domínio eterno do Filho do Homem, foram todos retirados do livro de Enoc, utilizado pelos Essênios, um ramo não-ortodoxo do Judaísmo, com algumas afinidades com o gnosticismo. O Apocalipse de João nada mais é que a adaptação das visões de Enoc ao ambiente cristão, para anunciar o fim do Império Romano, que foi literalmente absorvido pela nova fé!

Seja o Enoc bíblico, o Thot egípcio, os Edris do Alcorão, o Orfeu grego, o Hermes Trismegistos gnóstico ou o Ganesha hindu, todos são a mesma alegoria, no entender de Blavatsky: os sublimes Instrutores espirituais da Humanidade, os verdadeiros Instrutores da Filosofia Esotérica, que surgiram em todos os tempos.

Blavatsky diz, sobre Enoc: “(...) o Livro de Enoc é um resumo, um compêndio dos fatos principais das Raças Terceira, Quarta e Quinta; contendo pouquíssimas profecias relacionadas com a presente época do mundo; (...). Do capítulo 18 ao capítulo 50, as Visões de Enoc são todas descritivas dos Mistérios da Iniciação, um dos quais é o Vale Ardente dos 'Anjos Caídos'.” [“A Doutrina Secreta”, Vol. IV, seção VII] (ver Tópicos 01, 34, 35, 142, 155 a 157 e 170)

O livro de Enoc atual é uma cópia de textos mais antigos, cheio de adições, anteriores e posteriores à Era Cristã. Ensina sobre a preexistência do Filho do Homem, o Eleito e o Messias. Fala do “Senhor dos Espíritos”, do “Eleito” e de um “Terceiro Poder” [“(...) que naquele dia estava na Terra sobre as águas”], sugerindo a idéia posterior da Trindade, correlata à Trimurti hindu. Os fundadores do Cristianismo (Paulo e seus discípulos) utilizaram esta obra como base para a concepção dos conceitos principais da nova fé. Ou seja, a base do Cristianismo é uma obra preexistente a Jesus, agora considerada apócrifa!

Os Elohim ou Sete Anjos Criadores são os Sete Anjos da Presença, os Construtores e Cooperadores de Deus (segundo São Diniz), a Causa Secundária (segundo Tomás de Aquino), os Anjos de categoria inferior, construtores do mundo material (segundo o gnóstico Basílides), os Sete Anjos regentes dos planetas, os verdadeiros criadores do mundo (segundo Saturnilo e o monge cabalista Tritêmio).

Esotericamente (Blavatsky), os Sete Elohim são os sete princípios do Homem (corpo físico, duplo etérico, princípio vital, corpo das emoções, mente, alma espiritual e espírito). Na Cabala, são os sete mundos que compõem o cosmos: Originário [plano do Logos], Inteligível [plano dos anjos], Celeste [plano dos planetas], Elementar [plano dos elementos], Inferior [plano astral], Infernal [plano emocional] e Temporal [plano humano]. Os Elohim são chamados anjos inferiores porque fizeram apenas os corpos inferiores do homem, não sendo os responsáveis por sua mente.

Entre os antigos, o “Santo dos Santos” ou recinto sagrado no extremo ocidental do Templo de Salomão, simbolizava a ressurreição – cósmica, solar e humana. Era uma representação dos inúmeros ciclos cósmicos, dos menores aos maiores, sendo o Sol seu símbolo-base. A Arca da Aliança era uma representação do Sol, e por isso o rei David dançou nu à sua volta, como se fosse um planeta revolucionando em torno do astro-rei (ver II Sm 6.16-22). A “Arca” é um símbolo da Sabedoria (Sofia), e David dançou exatamente como os profetas de Baal ou os adoradores de Astarte (Vênus). Significava, ainda, o germe de todas as coisas. Na verdade, o culto de Deus na Arca não é anterior a David – não foi instituído por Moisés.

Atentemos para este trecho: “Quando o Altíssimo [Nwyl( - 'Eliyon] repartia as nações, quando espalhava os filhos de Adão, ele fixou fronteiras para os povos, conforme o número dos filhos de Israel; mas a parte de Yavé foi o seu povo, o lote da sua herança foi Jacó.” [Dt 32.8-9]

Se o Altíssimo repartiu as nações e a parte de Yavé era Jacó e seus descendentes, devemos entender que Yavé é um e Eliyon é outro deus? Pois, Eliyon (O Altíssimo) é o Sol, enquanto Yavé é um dos sete planetas, um Elohim, mais precisamente o anjo regente de Saturno (ytb# - Shabtay), segundo Blavatsky e os gnósticos egípcios, que viam nele apenas o regente do povo de Israel. Outros acreditam que Yavé é o anjo da Lua, do Sol ou de Júpiter, como entre os cristãos primitivos. Chama-se “astrosofia” à sabedoria iniciática escondida no culto astrolátrico. A Trindade cristã é astrosófica: O Pai é o Sol, O Filho é Mercúrio e o Espírito Santo é a Lua (ou Vênus, para outros).

A Serpente é o símbolo da Sabedoria e o emblema do Logos, e por isso Moisés fundiu a Serpente de Bronze, destruída depois. As “serpentes de fogo” no deserto têm o mesmo sentido. Como são animais ovíparos, representam a criação cósmica a partir do ovo divino e a Sabedoria integral, bem como a Eternidade. A Serpente é o símbolo dos iniciados.

Em Gn 6.1-4, os anjos rebeldes ou anjos caídos são chamados “Filhos de Elohim”, lit. “filhos dos deuses”. Em Jó 1.6, Satã é colocado entre estes “filhos dos deuses” ou Myhl)-ynb (Bnê-Elohim). Tais anjos, diz Gênese, se enamoraram das filhas dos homens e as desposaram. O apócrifo livro de Enoc diz o mesmo no cap. 7, e acrescenta mais sobre o que lemos em Gênese:

“(...) Então Samyaza, seu chefe, lhes disse: 'Temo que não possais cumprir vosso desejo, e que eu suporte sozinho a pena de vosso crime.' Mas eles lhe responderam: 'Nós o juramos.' (...) E assim juraram e se ligaram por mútuas execrações. Eram em número de duzentos, que desceram em Aradís, lugar situado nas vizinhanças do monte Armon. (...) Eis o nome de seus chefes: Samyaza, seu chefe; Urakabarameel, Akibeel, Tamiel, Ramuel, Danel, Azkeel, Sarakyal, Asael, Armers, Batraal, Anane, Zavebe, Samsaveel, Ertael, Turel, Yomyael, Arazael. Estes foram os chefes dos duzentos anjos e os demais que estavam com eles. E escolheram cada um uma mulher, e se aproximaram e coabitaram com elas; ensinaram-lhes a feitiçaria, os encantamentos e as propriedades das raízes e das árvores. E essas mulheres conceberam e partejaram gigantes, cujo talhe atingia trezentos côvados. Devoraram tudo o que o trabalho dos homens pudesse produzir e tornou-se impossível nutrí-los. Voltaram-se então contra os homens, a fim de devorá-los. (...) Azazyel ensinou, então aos homens o fabrico de espadas, facas, escudos, couraças e espelhos e, ainda, a confecção de braceletes e dos ornatos, o uso da pintura, a arte da pintura, (...) Amazarak ensinou todos os sortilégios, todos os encantamentos e as propriedades das raízes. Armers ensinou a arte de anular os sortilégios. Barkayal ensinou a arte de observar as estrelas. Akibeel ensinou os signos. Tamiel ensinou a astronomia. E Asaradel ensinou os movimentos da lua.” [Enoc etíope 7.3-13 e 8.1-8]

Aqui são citados 22 anjos diferentes, exatamente o número de letras do alfabeto hebraico. Este número representa a Perfeição, referindo-se à condição celeste dos anjos caídos, que são uma alegoria das forças cósmicas envolvidas no desenvolvimento da humanidade. Por isso se atribui a cada anjo certo tipo de conhecimento. Eles tinham a missão de ensinar os homens, não sendo, portanto, rebeldes. O Zohar, importante obra cabalística medieval, diz que os “filhos de Elohim”, ali chamados My#) ('ishim - “fogos” ou “almas”), não tinham qualquer culpa, mas “se misturaram com os homens mortais porque foram enviados à Terra com este objetivo”. O Zohar ainda os chama de “Homens-Espíritos” e diz que seu chefe é o anjo Azazel. Este nome divino foi deturpado no judaísmo de Esdras e passou a designar um demônio em forma de bode. Na verdade, é apenas o equivalente judaico do mito grego de Prometeu, que roubou o fogo de Zeus e levou o discernimento aos homens.

Como se pode ver, o simbolismo oculto é diferente do sentido teológico, às vezes antagônico. Enquanto judeus e cristãos vêm o arcanjo Miguel e o Deus semelhante ao homem como símbolo do Espírito, restando à Serpente o símbolo da matéria, a verdade da Filosofia Esotérica é o contrário: Deus como semelhante ao homem é a matéria; a Serpente é a Sabedoria do Espírito, transformada em Satã e no Diabo pelo judeu-cristianismo. Criado um Deus pessoal, se fez necessário um Diabo pessoal! O Satã bíblico é o anjo Samael da Cabala, o anjo de Marte, que representa a Sabedoria Oculta. O único diabo dos teólogos judaico-cristãos é a Sabedoria que tentam esconder dos incautos fiéis, pois estes, se a encontrassem, não precisariam mais da ignorância de seus sacerdotes!

Em muitos trechos bíblicos é difícil dizer se é Deus o Diabo que age:

Enquanto Tiago, em sua epístola, diz que Deus não tenta, subentendendo que o Diabo é quem o faz, Mateus, no Pai Nosso, pede que Deus “não nos deixe cair em tentação”. [ver Tiago 1.13 e Mateus 6.9-13]

Há uma identidade evidente entre a Serpente do Éden e o “Senhor Deus” [ver Gn 3.1-13]. “Deus” disse ao homem que, se comesse do fruto proibido, morreria. A Serpente (Sabedoria) esclareceu que ele não morreria, pelo menos imediatamente, mas se tornaria um “deus”.

Há ainda a identidade entre Yavé e Caim, pois, mesmo depois deste ter assassinado Abel, Deus o protege, colocando-lhe um sinal para que não fosse morto por ninguém [ver Gn 4.1-16]

Em II Sm 24.1, a “Ira de Yavé” (o próprio Yavé) manda o rei David recensear o seu povo; em I Cr 21.1, que narra o mesmo fato, é Satã quem induz David ao recenseamento. Afinal, qual das duas versões “inspiradas” é a verdade da Palavra de Deus? Ou devemos deduzir que Satã é o outro lado de Yavé, como o diabo persa Ahriman é o oposto do supremo Ahura-mazda?

O mesmo Yavé Deus que mandou as “serpentes abrasadoras”, “cuja mordedura fez perecer muita gente em Israel”, logo depois deu vida à Serpente de Bronze, curando os arrependidos [ver Nm 21.4-9]. Será que Yavé e Satã são os dois lados da mesma moeda?

Satã nada mais é que Seth, filho de Adão, e ambos são uma máscara para o deus egípcio Toth, deus da Sabedoria e escriba divino, mais tarde identificado como Hermes Trismegistos, isto é, Três vezes grande. Toth era o único deus que detinha o poder da Palavra, capaz de sustentar com vida o mundo criado pelo deus-sol, Rá.

A verdade da Bíblia é bastante polêmica: Moisés trouxe sua cosmogonia e seu culto do Egito; Esdras o deturpou e anexou trechos da mitologia mesopotâmica, apresentando-os como de “inspiração divina”; os cristão não-gnósticos forjaram os evangelhos a partir das obras secretas da Gnose.

Do início ao fim, as citações históricas da Bíblia devem ser postas à prova. As genealogias são forçadas, e mesmo a origem dos judeus é um mistério não resolvido. Como disse Blavatsky: “Eles tanto podem ser os Chandâlas desterrados da Índia antiga, os 'pedreiros' mencionados por Veda-Vyâsa e Manu, como os Fenícios de Heródoto, os Hicos de Josefo, descendentes dos pastores pâli, ou ainda um misto de todos esses. (...) Não obstante, seja qual for a origem dos judeus, deve ter sido um povo de raça híbrida, já que a Bíblia no-los mostra consorciando-se livremente, não só com os Cananeus, mas com gente de todas as nações e raças que se punham em contato.” [“Ísis sem véu”, Vol. II]

É mesmo possível que o nome Mhrb) ('Avraham– Abraão) signifique o “não-brâmane”, o que indicaria serem os hebreus (antepassados dos judeus) originários da Índia não-bramânica. Expulsos por alguma razão, refugiaram-se em Ur e depois na Palestina.

Se a Bíblia é um pálido eco da Iniciação do mundo antigo, os cabalistas e os gnósticos são os verdadeiros herdeiros desta tradição, e não os judaístas e os cristãos. Yavé é uma cópia (agora deturpada) do deus egípcio Osíris (o deus da ressurreição, cujo dia sagrado era 25 de dezembro!), Cristo o fantasma de seu filho Hórus, enquanto o Espírito Santo é a formosa Ísis... Tudo foi escrito numa linguagem universal de Mistério.

Os deuses de Israel são muitos, e os cristãos os transportaram em bloco para sua religião, mas nenhum deles é o Absoluto. O Yavé judeu (pós-exílico) e o Jesus cristão, ambos deuses pessoais, são muito diferentes do En-sof da Cabala. Este En-sof é a verdadeira divindade de Moisés: o Ilimitado, o Infinito, o Ancião dos Anciãos, o Eterno, a Causa Primeira, Impessoal, Sem Atributos. Não é o Criador, pois este é o Logos, emanado de En-Sof. En-sof é o Parabrahman dos hindus, para quem Ele é o Absoluto, a Realidade sem atributos e sem segundo, impessoal, inominado, Causa sem causa, Raiz sem raiz de tudo o que foi, é e será. Ele é o próprio Espaço cósmico infinito. E isto é Filosofia Esotérica Universal!

Eis alguns ecos deste Esoterismo Universal na Gênese de Moisés:

O Absoluto: É apresentado como o Espírito de Elohim que se move sobre as águas (Gn 1.2). É o nâda hindu (a “Voz do Silêncio”), o Áin e o En-sof da Cabala. O termo que designa o Absoluto no segundo versículo de Gênese é xwr (Ruach - “espírito, sopro, vento”), que vale 214 = 7. Ora, 214 também é o número de rh+ (tohar – a “claridade” do céu), citada em Êx 24.10 como estando sob os pés do Deus de Israel. O termo Ny) (Áin - “nada, vazio”), aplicado ao Absoluto pela Cabala, vale 711=9. Ora, 711 remete-nos ao termo N+b (beten - “interior”), pois o Absoluto está no interior de toda a Natureza. O número que o caracteriza é o nove, símbolo do todo cósmico.

O Logos recém emanado do Absoluto: É o Adão andrógino do cap. 1 de Gênese. É o Manu Svâyambhuva dos hindus e o Adam Qadmon (o Homem Celeste) da Cabala. Este Adão é o mundo abstrato, a presença da Divindade em sua glória, pois Adão vale 605 = 11 = 2, sendo 605 o valor de trd) ('adêreth - “glória, capa, manto”).

O Logos dual: É o Homem macho e fêmea de Gn 4.1, chamado hwhy (Yavé) ou hwx-hy (Yah-Chavah, Yah + Eva). Este segundo Logos é a humanidade na matéria, a glória e o poder do Logos (hwhy – Yavé vale 26, o mesmo valor da palavra dbk – Kavod, “glória, poder”). Este homem dual é o Adão Belial (o Homem Terrestre) da Cabala, o artífice do mundo, o demiurgo gnóstico, a Sabedoria Criadora.

A Sabedoria (Sofia): Aparece em Gn 3.20 na alegoria de Eva, a mãe de todos os homens. É a Vâch hindu, a linguagem mística e secreta, o Logos feminino, o poder oculto dos mantras, a Sata-rûpa (deusa de cem formas), a Sabedoria contida na Natureza. Noutro sentido, é o raio solar, a Gâyatrî hindu. É a hmkx (Chókhmah - “sabedoria”) dos cabalistas, a linguagem usada pelos homens antes da confusão das línguas (Gn 11.1-9).

Após o Exílio, Esdras refundiu os escritos dos judeus, grupou os fatos das diversas tribos, a fim de construir um relato aparentemente harmônico da criação e da história de Israel. O resultado não convence! Afinal, não se tratam de fatos históricos, mas de simbologia, que a ignorância de Esdras não foi capaz de compreender, interpretando na sua literalidade os arquivos antigos de Moisés e de seus sucessores. Já em plena Era Cristã, quando os talmudistas inventaram os pontos massoréticos, isto é, as vogais para a escrita hebraica, a confusão aumentou. [O hebraico, como o egípcio, o fenício e o árabe, é uma língua consonantal, isto é, representa apenas as consoantes, deixando as vogais subentendidas, transmitidas oralmente. Como as vogais é que determinam a flexão dos nomes e dos verbos, o não conhecimento delas dificulta a tradução de textos antigos.] Tal pontuação vocálica, às vezes é tão arbitrária, que se pode dar a um texto a interpretação que convier. Basta consultar um dicionário de hebraico bíblico para se constatar a confusão que é possível desde que se perdeu a vocalização e a interpretação correta. Apenas a Cabala pode resgar o real sentido dos termos bíblicos, pois não considera as vogais em suas operações místicas – as consoantes falam por si mesmas.

O Deus que falava face a face com Moisés era o seu Deus Interno e não um deus antropomórfico, concebido nos tempos de Esdras. Diz o Êxodo:

“Moisés tomou a Tenda e armou para ele, fora do acampamento, longe do acampamento. Haviam-lhe dado o nome de Tenda da Reunião. Quem quisesse interrogar a Yavé ia até a Tenda da Reunião, que estava fora do acampamento. (...) Moisés respondeu a Yavé: 'Rogo-te que me mostres a tua Glória.' Ele replicou: 'Farei passar diante de ti toda a minha Beleza, e diante de ti pronunciarei o Nome de Yavé.' (...) E acrescentou: 'Não poderás ver a minha Face, porque o Homem não pode ver-me e continuar vivendo.'” [Êx 33.7, 18-20]

A Tenda da Reunião representa a Perfeição de Deus, manifesta espiritualmente na Natureza criada. A face de Yavé é o seu Véu de Mistério. Este Véu é o limite entre o Absoluto (plano imanifestado) e o universo criado pelo Logos. O limite é o Logos ou Cristo Cósmico. Quem chegue a ele, pela Iniciação, não pode mais viver como um Ser separado do Absoluto, mas a este se une. Assim, o sentido místico dos trechos citados acima pode ser reconstituído:

“Moisés tomou a Tenda [d'O Elevado] e a armou para Ele, fora do acampamento, longe do acampamento. Haviam-lhe dado o nome de 'O Absoluto está na Natureza'. Quem quisesse interrogar O Existente ia até 'O Absoluto que está na Natureza', que estava fora do acampamento. (...) Moisés respondeu a O Existente: 'Rogo-te que me mostres O Teu Existente.' Ele replicou: 'Farei passar diante de ti todo o Meu Espaço Infinito, e diante de ti pronunciarei o Nome d'O Existente.' (...) E acrescentou: 'Não poderás ver o meu Véu. Porque o (próprio) Homem (Celeste, o Logos) não pode ver-me e continuar vivendo.'”

Estes trechos são impressionantemente semelhantes ao que está descrito no capítulo 11 do poema Bhagavad-Gîtâ [lit. “a canção do Senhor”], antiga obra hindu, parte da fabulosa epopéia Mahabhârata.
Comparemos:

“Ó Purushottâma, ó forma suprema, embora veja aqui diante de mim a Sua posição verdadeira, eu ainda desejo ver como você entrou nesta manifestação cósmica. Eu quero ver esta sua Forma Divina. Se você pensa que sou capaz de ver esta sua forma cósmica, ó meu Senhor, ó Senhor de todo o poder místico, então mostre-me, por favor, esta Eterna Alma Universal.
O Bem-aventurado Senhor disse: Ó filho de Prithâ [i.e., Arjuna, discípulo direto de Krishna, que é quem fala], olhe agora Minhas formas, centenas de milhares de formas, divinas variadas, multicoloridas. (...) Eis aqui as muitas coisas que ninguém jamais viu ou ouviu antes. (...) Mas você não pode Me ver com seus presentes olhos. Por isso, eu lhe dou olhos divinos com os quais você pode ver Meu poder místico inconcebível.
(...) Arjuna viu nessa forma universal bocas ilimitadas e olhos ilimitados. Era totalmente maravilhosa. (...) Se centenas de milhares de sóis surgissem a um só tempo no céu, eles talvez se assemelhassem à refulgência do Grande Senhor naquela forma universal. Neste momento, Arjuna pôde ver na forma universal do Senhor as expansões ilimitadas do universo situadas em um lugar ainda que divididas em muitos e muitos milhares. (...) Não há fim, não há começo e não há meio para tudo isto.
(...) Arjuna disse: (...) 'Ó Senhor dos senhores, de forma tão feroz, por favor me diga quem é você.'
(...) O Bem-aventurado Senhor disse: 'Eu sou o tempo, (...).'”

Compare-se esta visão do Bhagavad-Gîtâ com Êx 33.18-23 e 34.5-9, 29-35. A relação entre Arjuna (o discípulo) e Krishna (o avatar do deus Vishnu) guarda semelhanças com a relação entre Moisés e Yavé.



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