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sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Sphota: A alma da palavra nas tradições indianas

(Trecho do livro "A Alma da Palavra", de Paulo Stekel - saiba como adquirir acessando: http://stekelmusic.blogspot.com.br/2013/10/livros-de-stekel-e-books-em-pdf.html)

(Figura: Vâc Devi, a deusa indiana da Fala Sagrada. Nada Brama, o mundo é som, afirma a tradição védica. Este som é personificado na deusa Vâc, a força criativa do universo, contida em todas as letras do alfabeto sânscrito, cada uma simbolizando uma função distinta desta força criativa que, em sua totalidade, é considerada a "mãe em essência" [matrika].)


Sânscrito: a linguagem dos deuses

A fonte mais antiga de informações sobre a Índia são os Vedas. Eles foram escritos em Sânscrito, uma língua cuja antiguidade se perde na noite dos tempos. O termo veda vem da raiz vid (“saber, conhecer; pensar; ver, perceber") e significa “sabedoria ou conhecimento divino”. Segundo Colebrooke, teriam sido compilados por volta de 1440 a.C., segundo os brâmanes, em 3100 a.C.. Os últimos ainda sustentam que os Vedas teriam sido transmitidos oralmente durante milhares de anos antes de serem consignados por escrito. Alguns indianos declaram que os Vedas devem ter sido ensinados pelo menos há 25 mil anos (Khishna Shastri Godbole, Bombaim).

A língua védica original era um dialeto indo-europeu muito antigo. Fonologicamente, isto é, no tocante aos sons da língua, o sânscrito é praticamente idêntico à língua védica anterior. Ele tornou-se diferente do dialeto dos Vedas por um processo, não de desenvolvimento, mas de decadência. Um grande número de velhas formas gramaticais, incluindo todo o modo verbal subjuntivo e os vários infinitivos, salvo um, desapareceram completamente. As principais modificações estão no vocabulário que, enquanto perdeu muito de seu antigo léxico, foi ampliado pela inclusão de novas palavras e significados. No védico, os ditongos eram comuns, mas o sânscrito eliminou esta possibilidade. Os antigos gramáticos criaram as regras de sandhi ou de combinação de letras, entre as quais consta a de não formar hiatos. A etimologia das palavras continuou a mesma, mas a pronúncia se alterou consideravelmente. E o sentido? O sentido, o significado se tornou mais sofisticado, adaptado à filosofia espiritual. Neste ambiente surgiu, provavelmente, o germe da noção de sphota, a “alma” da palavra.

Quanto à escrita, ou seja, o alfabeto utilizado para se escrever a língua sânscrita, ele é relativamente recente, pelo menos quanto à forma como o conhecemos atualmente. Acredita-se que um tipo de escrita de origem semítica tenha sido introduzido no noroeste da Índia através da Mesopotâmia (atual Iraque), por volta de 1000 a.C.. A adaptação indiana mais recente desta escrita, conhecida de moedas e inscrições do séc. III a.C., é chamada Brâhmî ou “escrita de Brahmâ”. Apesar de ser escrita da esquerda para a direita, subsistem claros traços de um dia ter sido escrita da direita para a esquerda, característica das línguas semíticas, como o hebraico e o árabe. O antigo aramaico parece ter sido o protótipo da escrita Brâhmî, de onde descendem todas as escritas indianas tardias.

A mais importante destas escritas é a Nâgarî (lit. “escrita urbana” ou talvez “escrita dos Brâmanes Nâgara”, de Gujarât, a noroeste) ou Devanâgarî (“escrita urbana dos deuses”, um termo tardio, mas de origem obscura), que só assumiu seu traçado característico por volta do séc. VIII d.C.. A língua sânscrita é geralmente escrita em Devanâgarî no norte da Índia, mas outros caracteres indianos modernos são também empregados em suas respectivas províncias.

Não se sabe quem foi o primeiro gramático hindu, mas desde cedo houve um interesse em estudar a gramática, com o fim de preservar intactos os sagrados textos védicos. A origem do sânscrito literário deve ser simultânea a uma proto-gramática, pois nos parece que o mesmo é uma espécie de “língua sagrada semi-artificial”, construída em cima do modelo da língua védica, uma língua naturalmente desenvolvida. Diz-se mesmo que o sânscrito dos escritos sagrados nunca poderia ter sido falado, dada a complexidade das suas regras e o fato de que, em sua maioria, os textos são versificados.

Acreditava-se desde o início que era necessária uma atenção especial a cada letra, de forma que o alfabeto sânscrito, o Devanâgarî, é perfeitamente fonético, ou seja, representa individualmente todos os sons da língua. Conjectura-se que no védico existissem outros sons não representados no sânscrito, mas que sobreviveram em outras línguas indo-europeias próximas, como o zendês da antiga Pérsia de Zoroastro.

Os gramáticos hindus foram os primeiros a reconhecer que a maior parte das palavras consiste de um grupo de raízes, e o resto de afixos, que ao combinar-se com os primeiros, modificam o significado do radical de várias maneiras.

O desabrochar da alma

Após pelo menos vinte anos de pesquisa chegamos à conclusão de que as línguas originalmente tiveram um caráter sagrado, nascendo praticamente ao mesmo tempo em que a religião, numa concomitância nada casual. Aos poucos as línguas primevas foram perdendo a conexão com a sacralidade, até culminarem nas línguas modernas, totalmente desligadas de suas matrizes sacerdotais, que foram, na origem, as fontes de quase todos os conceitos e acepções que hoje utilizamos no falar e no escrever.

Outro detalhe: língua e religião são indissolúveis! Por que? Porque a palavra é necessária a ambas. A experiência espiritual mística prescinde da palavra, e isso não se pode negar, uma vez que a palavra não a pode descrever a contento. Mas as tradições seriam inviáveis enquanto transmissão sem a palavra. Os símbolos pré-históricos carregam inegavelmente um conteúdo espiritual, mas enquanto não representem a palavra falada, não são um modo de transmissão adequado e muito menos completo. O símbolo necessita da transmissão de seu significado completo e correto para se perpetuar. Na antiguidade, tal transmissão era oral, e ainda o é em muitos lugares, mesmo em meio aos registros escritos abundantes e à era da Internet.

Há uma superstição de que a transmissão oral é superior ao registro escrito das explicações, pela simples presença do “mestre” que transmite. Não é isso. Na verdade, a transmissão oral se perpetua tanto quanto a transmissão escrita, e ambas as formas têm seus perigos: a oral pelo risco de morrerem todos os seus detentores; a escrita pelo desaparecimento intencional ou fortuito dos registros. As duas coisas ocorrem com frequência, como nos mostra a História. O que há de comum a ambas? A palavra. Mas a alma da palavra está no som, na escrita ou em ambas as formas? Segundo os antigos indianos, deve estar no som.

O conhecimento ancestral que “desperta” destas análises que temos feito há décadas não só é intrigante como esclarecedor, pois a verdadeira força dos “mantras” praticados por muitas civilizações em suas iniciações aparece sem véus, os rituais passam a ter sentido universal e a história (antes) perdida da antiguidade reencontra seu elo mais confiável – a linguagem sagrada, na qual foram concebidos e transmitidos à posteridade todos os mitos do mundo.

Assim, Sânscrito, por exemplo, é considerada a língua dos devas (deuses) e seus sons foram “ouvidos” pelos antigos sábios (rishis). O hebraico é a língua dos “anjos” (mensageiros de Deus) e seus sons transmitem a Palavra de Deus. A língua e a escrita egípcia seriam obra do deus Toth, o detentor do poder criador do Verbo Divino, sem o qual as palavras do Criador não poderiam produzir um mundo vivo.

Somos tentados a imaginar que todas as línguas antigas, tenham elas desenvolvido ou não uma escrita, eram originalmente sagradas, ou seja, cercadas de um caráter santo e utilizadas em circunstâncias ritualísticas. Este caráter ainda subsistiria, de modo subjacente, na etimologia das línguas modernas, já totalmente desviadas da visão místico-religiosa primordial.
Para os antigos indianos parece haver a idéia de uma relação intrínseca entre o som produzido pelo aparelho fonatório humano e os mais secretos princípios do cosmos. Esta relação é a chave da alma da palavra.

Um conceito recente sobre idéias antigas?

A palavra sphota (lit. "rebentando, abrindo", se lê “sprrôta” e não “sfôta”, da raiz sânscrita sphut, “estourar”) é um termo técnico sânscrito utilizado pelos gramáticos tradicionais para designar o "interno e imperceptível elemento de sons e palavras e o veículo da idéia que explode ou pisca na mente quando um som é proferido" (Monier-Williams). O conceito foi introduzido por Bhartrihari por volta do séc. VI d.C.. A noção de “flash”, “insight" ou "revelação", que é central para o conceito de sphota, tem levado a um intenso debate erudito na filosofia da linguagem indiana. Mesmo porque a palavra “elemento” tem o sentido de “essência”, alma...

Sphota, na forma como esta palavra é utilizada no Mahabhashya de Patañjali, é simplesmente a linguagem falada (pronúncia, expressão vocal, desempenho lingüístico). Bhartrihari transformou este conceito para se referir ao significado de uma expressão vocal que não é afetada por variações no desempenho, tomando o sentido de "rebentar adiante" para referir-se à ideia de que a pronúncia de determinados sons é induzida como um estado mental no ouvinte em um flash de reconhecimento ou intuição (sânscrito pratibhâ - "brilhar adiante").

O conceito é uma reminiscência do idealismo platônico, no qual a compreensão do significado que passa a se manifestar como sphota está latente no ouvinte e só é desencadeada pela expressão vocal (pronúncia) do falante.

Em oposição à alegação da doutrina de sphota de que som e significado formam uma permanente unidade natural, Kumârila Bhatta e seus seguidores acreditavam que o significado de uma frase surge indiretamente, pela combinação do poder significativo dos seus constituintes. Os Naiyâyikas não consideraram a relação de uma palavra e de seu sentido como algo natural, mas consideraram isto somente como uma questão de convenção ou "significativo poder" (shakti).

Mas a ideia da relação entre uma palavra e sua essência ou alma é recente ou mais antiga que Bhartrihari?

Uma breve visão histórica do conceito de Sphota

O termo Sphota é derivado etimologicamente da raiz sphut, que significa 'desabrochar' ou tornar-se subitamente e repentinamente uma cisão (com um som).

A palavra sphota é interpretada de duas formas:

1. Nâgesha Bhatta define sphota como aquilo que, a partir do significado “rebenta adiante”, isto é, “brilha adiante”, surge como um flash ou insight. Em outros termos, a palavra que expressa um significado, ou o processo de expressar um significado através de uma palavra é chamado sphota. A dúvida está no modo como este processo ocorre: como funciona a relação entre a palavra e o desencadeamento de seu significado na mente? A origem deve ser o pensamento, mas isso não responde a tudo. O pensamento molda-se à palavra ou esta se molda ao pensamento? O pensamento não é superior à capacidade de qualquer palavra em qualquer língua de expressá-lo por completo? A resposta lógica parece ser “sim”. Neste caso, qual a competência real das línguas para expressar a profundidade do pensamento humano? De certo, é uma competência relativa.

2. Sphota, conforme Mâdhava, é aquilo que é manifestado ou revelado pelos fonemas. Mas, o que eles manifestam? São apenas sons ou há uma relação destes sons com princípios cósmicos gerais? Se não houvesse, por que os indianos, em especial os xivaítas, criariam sistemas cosmogônicos totalmente dependentes da relação dos sons do alfabeto com a criação do mundo? O mesmo vale para a cosmogonia cabalística e para a doutrina gnóstica... Parece haver uma ideia ancestral de que os sons da língua representam princípios cósmicos.

Gaurinatha Shastri sugeriu que a concepção grega original de logos (palavra, verbo) tem mais a ver com o significado de sphota: 'O fato de que logos representa uma ideia tanto quanto uma palavra o aproxima maravilhosamente do conceito de sphota'.

O conceito de sphota parece ser a única contribuição dos gramáticos indianos à filosofia da linguagem, pois trata-se de uma teoria que expõe o funcionamento do processo da fala. Mas não temos evidências suficientes à disposição para estabelecer quem foi o primeiro fundador da teoria de sphota. Haradatta em seu Padamanjari e Nâgesha Bhatta em seu Sphotavâda afirma que Sphotâyana foi o primeiro fundador da doutrina de sphota. Sphotâyana é citado na gramática de Pânini, o Ashtâdhyâyî. A menção específica do nome Sphotâyana, não é suficiente para indicar que Pânini conhecia algo similar à teoria de sphota, nem para se afirmar que esta doutrina pertenceu originalmente ao sábio Sphotâyana. Mas também não se pode desconsiderar a possibilidade da teoria ser muito mais antiga do que se tem pensado.

Kâtyâyana não menciona a palavra sphota em sua obra. Ele apenas estabelece o grande princípio que diz que shabda (o som) é nitya ("eterno” ou “permanente"), artha (“a causa”) é nitya, e que há uma relação mútua entre ambos. Ele ainda afirma que as letras são fixas e que o estilo de vritti (“exposição, modo de explicação de um discurso”) depende dos hábitos de linguagem de quem fala. Esta declaração de Kâtyâyana, considerando a natureza da palavra e a diferença no ritmo ou cadência se aproxima muito da doutrina de sphota.

De acordo com os registros históricos disponíveis podemos dizer que, apesar de pensadores mais antigos falarem do caráter eterno e generalizado da palavra como um elemento ou unidade, a visão clara da teoria de sphota não é encontrada antes de Patañjali. Ele discute a ideia de sphota, palavra não aplicada no sentido de comportamento como um elemento, mas no sentido de um aspecto permanente dos fonemas.

Para Patañjali, sphota (“alma da palavra”, seu desabrochar) não é idêntico a shabda (“som”, um som qualquer). Ele é, antes, um elemento permanente de shabda, enquanto seu aspecto não-permanente seria dhvani (“som”, “som articulado”, a parte da linguagem que reside em uma espécie de tonalidade que seria a essência da poesia). O sphota (“alma”) não é audível como dhvani (“som”, a palavra articulada audível, sem sua “alma”). Isto é algo manifestado pelos sons articulados. O elemento dhvani da fala pode diferir em valor fonético no que se refere à variação na pronúncia dos falantes. Diferenças na velocidade da pronúncia e distinções de tempo são atributos de dhvani, o que não pode afetar a natureza de sphota revelada pelo som. (Neste caso, a teoria se aproxima da visão da Cabala, que considera uma palavra um conjunto místico formado de princípios cósmicos divinos, independente das variações de pronúncia.) Quando um som ultrapassa os lábios de um falante, sphota é revelado instantaneamente. (Isso liga sphota mais ao significado que à pronúncia, no final.) Mas antes que o ouvinte compreenda alguma coisa, os elementos dhvani manifestam o elemento permanente de shabda. Assim, sphota vem primeiro e, manifestando dhvani, ainda continua a existir após a revelação de sphota (o sentido “essencial”, “de alma”, da palavra). Por isso Patañjali comenta que os dhvani são os elementos e os atributos reais de sphota.

Patañjali aponta para o fato de que sphota, que é revelado pelos sons articulados, pode ser apresentado pelos fonemas somente. Um fonema (vogal) que representa sphota permanece o mesmo em três modos de pronúncia, ou seja, lento, normal e rápido, enquanto que dhvani (som articulado) difere em diferentes pronúncias.

Isso é semelhante à distância numa viagem. Ela permanece a mesma, mesmo quando se viaja por vários meios, seja de modo lento, normal ou rápido. Referindo-se à natureza não afetada de sphota, Patañjali apresenta a analogia com uma batida de tambor. Quando se bate num tambor, uma batida pode viajar dez metros, outros quinze metros, outros vinte metros, e assim por diante. Apesar dos sons produzidos pela batida no tambor diferirem, a batida permanece a mesma. Sphota é precisamente deste tipo e tal como numa medida, o aumento ou diminuição do passo é causado pela diferença na duração de dhvani.

De acordo com Patañjali, sphota é uma entidade conceitual ou uma característica geral dos sons articulados, seja na forma de fonemas isolados, seja numa série de fonemas. É um elemento permanente dos sons físicos que são transitórios por natureza, variando em tamanho, ritmo e velocidade conforme o falante.

A natureza de Sphota

Bhartrihari inicia a discussão da natureza de sphota com a observação de que palavras ou frases podem ser consideradas sob dois aspectos: como um padrão sonoro e como sua característica genérica. Ele reconhece duas entidades, as quais podem ser chamadas shabda (“som”), sendo uma a causa fundamental dos sons articulados, enquanto a outra é usada para expressar o significado. A palavra que aqui define “causa” (artha) tem vários significados em Sânscrito: “coisa, objeto, riqueza, propriedade, propósito, estímulo, interesse, causa, razão, significado”. Entendemos, então, que uma palavra pronunciada contendo um significado tem um princípio que antecede a compreensão de seu significado. Este princípio é sua causa, sua propriedade intrínseca e mesmo seu propósito enquanto entidade.

Assim, sphota é a entidade conceitual e o elemento permanente da palavra, enquanto dhvani é um padrão sonoro, que é o aspecto externo do símbolo de linguagem. Desta forma, sphota, que é a impressão mental de um padrão sonoro audível é a causa daquele padrão sonoro. Mas uma “impressão mental” poderia ser a “alma” da palavra? Se entendermos por “alma” a forma-pensamento que se gera em torno de cada palavra quando esta é pronunciada pela primeira vez e que ganha vida, podendo levar a compreensões extralinguísticas (como ocorre com os mantras indianos, o que veremos adiante) e, consequentemente, a estados espirituais específicos, podemos, então, dizer que a impressão mental de um padrão sonoro audível tem a propriedade de “alma”.

Contudo, Bhartrihari registra duas visões totalmente contraditórias sobre estes dois diferentes elementos da palavra: Sphota e Dhvani. Segundo a primeira visão, há uma diferença absoluta entre eles, com uma relação de causa e efeito. Isso concorda com a visão sustentada pelos mestres de Lógica, que presumem total distinção entre a causa e o efeito. Conforme a segunda visão, a diferença entre estes elementos é meramente psicológica e não real. Esta seria a visão presumida pelos vedantinos, os adeptos do Sâmkhya e os gramáticos, que acreditam que o efeito é herdado da causa.

Sphota, conforme Bhartrihari, é sempre intimamente relacionado a dhvani. Assim que os sons são produzidos, o sphota é conhecido instantaneamente. Assim, os sons são manifestadores e sphota é manifestado.

É o som articulado que alcança o ouvido de quem escuta na forma do sphota. Colocando isso de outro modo, sphota é uma cópia fiel de dhvani possuindo características fonéticas.

Para Bhartrihari, sphota é uno e sem sequência. Desta forma, nem a questão das partes nem a da ordem podem surgir na concepção de sphota. Ele é som ou nâda (sânscr.), que é produzido em momentos diferentes de tempo, e as noções de sequência ou pluralidade que realmente são próprias dos sons são equivocadamente atribuídas a sphota.

Bhartrihari elucida este ponto com a ilustração do reflexo. No reflexo da lua na água, apesar desta estar realmente imóvel, parece que a mesma está a mover-se devido ao movimento da água. Aqui está a propriedade da água, isto é, a mobilidade está sobreposta à imagem refletida da lua. De modo semelhante, a sequência, que é uma propriedade do som, está sobreposta ao sphota, que na realidade é destituído de sequência.

A distinção temporal e as variações na velocidade da pronúncia são as propriedades que proporcionam mais variedades e, assim elas explicam a continuidade da percepção de sphota. Mas as propriedades do som secundário não afetam a forma intrínseca de sphota.

Podemos considerar três visões principais a respeito da natureza de Sphota:

1 – O som, que é intimamente unido ao sphota, não é percebido separadamente, como a cor, que não é percebida em separado do objeto. Neste caso, a “alma” vem junto com o som e sempre carrega um sentido essencial. Esta é a teoria da Cabala, segundo a qual cada som hebraico representa um princípio cósmico que concorre na formação das palavras e de seus significados. Esta parece-nos ser a visão mais profunda a respeito da “alma da palavra”.

Segundo Bhartrihari, os sons produzidos a partir dos sons iniciais que se espalham em todas as direções o fazem em dois modos, que são: vîcîtaranganyâya (como leves ondulações) e kadambagolakanyâya (como a floração da árvore kadamba). Eles são como os reflexos do som original. O primeiro som em cada encadeamento sonoro é o resultado da vibração dos órgãos vocais, enquanto os demais são produzidos, não pelo movimento dos órgãos vocais, mas pelos sons que os precedem imediatamente. O primeiro é o sphota e o último é chamado dhvani. Conforme esta visão, mesmo após os órgãos terem cessado de vibrar, outros sons ainda se originam do sphota como a série de chamas que se desencadeiam a partir de outras chamas.

2 – O som, sem tornar-se ele mesmo percebido, causa a percepção do sphota, assim como o órgão do sentido e suas qualidades, que sendo elas mesmas não percebidas, causam a percepção dos objetos.

Segundo esta visão, dhvani e sphota são considerados como sendo produzidos ao mesmo tempo. Isto é explicado pela analogia da chama e da luz. A chama e a luz são produzidas no mesmo momento. Contudo, de certa distância podemos ver a luz sem vermos a chama. Do mesmo modo, de certa distância podemos perceber o som e não o sphota. Então, não há intervalo entre sphota e dhvani.

3 – O som é também percebido sem dar origem à percepção da forma de sphota. Em outras palavras, a percepção do som não é considerada como idêntica à percepção de sphota.

Aqui, sphota representa o conceito universal, o qual é manifestado por muitos sons individuais. Os sons individuais variados são chamados dhvani, enquanto a natureza universal destes é considerada o sphota.

Independente destas visões, algo subsiste: a idéia de que cada palavra e, antes, cada “som articulado” (o som que forma palavras, diferenciando-se de meros ruídos) possui uma “alma”, uma essência que se manifesta apenas quando nos valemos da linguagem articulada para a comunicação. Complementarmente, a Cabala hebraica nos ensina que esta “alma” está intrincada em cada som particular, de modo que as palavras têm dois sentidos: o imediato (lexical) e o oculto (místico, metafísico, “esotérico”).

O processo de comunicação

O sphota permanece no intelecto tanto do falante quanto do ouvinte sem movimento algum antes de sua manifestação. Há um inter-link entre som e sphota, de modo que assim que o falante produz o som através dos órgãos de articulação, o sphota é revelado, ou seja, “vem-a-ser”, manifesta-se. Mas o ouvinte não pode compreendê-lo imediatamente. Isso nos faz desconfiar de que quem “domina” o sphota é o falante, não o ouvinte. Por que? A resposta pode ser simples: o falante é quem detém a prerrogativa do pensamento que gera a fala! Então, o sphota está no pensamento? Sim, na mente, tanto na humana quanto na mente cósmica, que funciona como “fonte da alma da palavra”. Isso é concordante com a Cabala hebraica.

Cada unidade sonora contribui em algo para a percepção total de sphota. (A Cabala diz o mesmo ao ensinar que cada letra de uma palavra hebraica contribui em seu significado místico para a compreensão do sentido real e profundo da palavra inteira.) O ouvinte recebe os fonemas em uma sequência e se apodera da forma de uma palavra (já conhecida previamente) em sua mente quando o último fonema é ouvido. O último som ajuda o ouvinte a reconhecer o sphota (a alma da palavra) absolutamente. Este processo completo de manifestação de sphota é comparado ao ato de pintar. Assim como um artista reproduz sua ideia mental da forma de um objeto sobre uma tela, similarmente o falante reproduz a imagem verbal mental de uma palavra através de fonemas articulados. Essa ideia realmente subentende a preexistência da ideia, o que conecta o sphota ao logos grego e gnóstico.

Para Bhartrihari, o processo de comunicação (vâgvyavahâra) é a combinação de quatro passos:

1. O falante seleciona em sua mente uma forma particular de palavra, que esteja relacionada ao significado particular que deseja transmitir. (Esta palavra faz parte de seu léxico interno, mas isto não significa que o léxico abranja toda a extensão de seu pensamento. Há alguma [ou muita!] imprecisão entre o pensamento original e sua manifestação pela palavra.)

2. O som-forma da palavra é revelado através do ato fonético. (Ainda que a fonética varie de língua para língua, devemos crer que tudo ocorre do mesmo modo.)

3. Os sons são emitidos em sequência pelo falante e são recebidos pelo ouvinte também em sequência. (Esta sequência é importante para a compreensão do pensamento do falante. Na verdade, parece que nosso cérebro identifica simplesmente a sequência, que é o que define a compreensão sintática.)

4. A partir destes sons, um ouvinte recebe a ideia mental da palavra proferida. (A ideia mental recebida não é, certamente, 100% igual à ideia mental do falante, mesmo porque as palavras não vêm soltas, mas em frases, de modo que as frases têm sentidos mais complexos que as palavras individuais. Contudo, o percentual deve possui uma quantidade mínima aceitável para que se estabeleça a comunicação entre as partes. Dependendo de vários fatores e do assunto, este percentual será maior ou menor. Ao se discutir matemática, filosofia ou metafísica, por exemplo, o percentual de compreensibilidade deve ser bem menor que o atingido quando se fala sobre coisas práticas do dia-a-dia. Mas isso também varia de caso para caso.)

Considerando o exposto, mesmo sabendo-se que sphota refere-se ao som da palavra, e não a frases, não há como negar que interfere nelas, especialmente no que tange ao significado. Uma coisa é o significado da palavra individual (lexical), outra é o significado sintático de uma frase completa. As expressões idiomáticas são a prova disso. Mas elas possuem sentido claro para quem as conhece. Sphota está ligado ao pensamento em primeiro lugar e ao som em segundo. O som articulado é a manifestação do pensamento. É a alma do pensamento. Então, a alma da palavra é também a alma do pensamento, que por sua vez, a crermos na tradição indiana, é originário da fonte universal, o Absoluto. Nesta doutrina, pensamento e som não se separam!

Ao final, percebe-se não haver concordância entre os eruditos quanto a quem foi o fundador da teoria de sphota. Patañjali parece ser a fonte antiga mais segura, mas não necessariamente a origem da teoria. Também não há concordância quanto ao que seja sphota. Para uns, inclusive nós, é a “alma” da palavra, enquanto para outros é simplesmente a classe de sons individuais.

Mantras

Um “mantra” é uma combinação particular de sons cuja repetição pode produzir certos resultados definidos. Todos os ensinamentos ocultos e iniciáticos da Índia, dos Vedas até o presente, requerem certo domínio da ciência do controle mental através do uso de mantras. O mantra não se liga apenas à ideia da pronúncia correta de uma língua sagrada – fator também importante no hebraico da Cabala -, mas ao fator da pronúncia repetida e com finalidades “mágicas” ou ocultas.

Os mantras indianos, usados no Hinduísmo, Jainismo e Budismo, ainda que com variações, requerem a compreensão do conceito de sphota (“alma”, “essência”) para que sejam devidamente captados como técnica de purificação mental. Afinal, os mestres orientais ensinam que, além do significado lexical de um mantra, e muitos nem podem ser traduzidos, há um significado oculto que deve ser percebido pelo praticante numa espécie de insight que lhe permite compreender a “essência” (alma?) do mantra, que vai muito além de qualquer palavra.

A determinação da etimologia da palavra “mantra” tem duas linhas de pensamento. No entender do orientalista Heinrich Zimmer, o termo vem da raiz man, “pensar” combinada com o elemento tra, que forma palavras-instrumento. Assim, “mantra” seria “o instrumento para pensar”, aquilo que cria uma imagem mental. Mas não podemos esquecer que uma palavra comum também cria uma imagem mental. No entender dos orientais, entretanto, como é o caso dos gurus do mantrayana budista, a palavra é formada de duas sílabas: man, “mente” e tra, “proteger”. Nesta visão, “mantra” seria “aquilo que protege a mente”. Em seu comentário ao Îsha Upanishad, Prabhupâda, o fundador da Sociedade Hare Krishna, define “mantra” como “sílaba, palavra ou verso que invocam percepção espiritual”.

Mantras são certas combinações de palavras ritmicamente dispostas, as quais originam certas vibrações, que produzem determinados efeitos ocultos. A doutrina iniciática indiana ensina que cada som no mundo físico desperta um som correspondente nos reinos invisíveis e incita a ação de forças no lado oculto da natureza. O som é o mais poderoso e eficaz agente mágico e a primeira das chaves para abrir a porta de seu significado oculto e sua razão de ser; é uma causa e um efeito de outra causa precedente e a combinação deles produz, frequentemente, os efeitos ocultos. Sobretudo as vogais contêm as potências mais secretas e intensas, por serem a “alma da palavra” (sphota). Estes seriam os princípios de uma espécie de “acústica oculta” muito antiga.

De fato, considerando-se a teoria de Sphota, a única diferença que podemos conceber entre uma palavra comum e um mantra é a energia mental intensa dispensada no caso do último. Esta energia, granjeada durante a recitação contínua num estado mental meditativo durante dias, meses e até anos a fio, certamente produz resultados psíquicos de cognição muito superiores ao requeridos para a comunicação ordinária. Podemos chamar esta compreensão de “estado metacognitivo”. Encontramos exemplos desta metacognição em outras tradições: na contemplação das palavras hebraicas da Torah pelos cabalistas, que “sacam” sentidos ocultos a partir dos versículos bíblicos; nas operações mágicas dos antigos gnósticos e dos ocultistas (magistas teúrgicos), que usavam palavras e códigos que transmitem um comando energético, devendo ser potencializadas pelo pensamento do operador.

Tradicionalmente se diz que a combinação de sons que constitui um mantra, quando perfeitamente vocalizada, dá o controle da mente, liberando da dualidade material e conduzindo ao caminho espiritual. Contudo, a vocalização não é o fator principal nem tão importante quanto parece. A postura mental, esta sim, é imprescindível. Isso lembra a idéia de dhvani, em que as variações na pronúncia, velocidade, ritmo da palavra não altera seu sphota.

A ciência tradicional que estuda o poder oculto dos sons pode ser chamada de Mantra Vidyâ (lit. “ciência dos mantras”) ou Mantra Yoga (lit. “união [com o Absoluto] através dos mantras”). Seu único objetivo é o desenvolvimento de nossa natureza espiritual, e sua doutrina básica é a de que todo este sólido e tangível universo é constituído tão somente de diferentes tipos de vibrações e energias operando em muitos níveis. O que nos parece sólido e real não é senão o resultado da interação de diferentes tipos de energia e da Consciência.

Os Rishis (sábios indianos ancestrais), por meio de seus poderes supranormais, descobriram que não apenas os elementos tangíveis do universo, mas também os intangíveis, como pensamentos e emoções, têm uma base material (usando-se a palavra “material” no seu sentido mais amplo de “substância-mãe”), sendo que a matéria mais sutil através da qual operam estes elementos também é, no fundo, apenas um conjunto de vibrações e um arranjo de diferentes espécies de energia. Descobriram ainda que os mundos mais sutis (os chamados Sûkshma lokah), invisíveis ao homem, estão fundamentados em muitas vibrações energéticas. Tais iogues revelaram que não apenas todos os mundos manifestados estão fundamentados assim, mas também que todas as vibrações e energias estão conectadas umas com as outras, e podem ser rastreadas desde um estado até outro ainda mais sutil, até que terminam em uma Vibração Primária, fundamental e todo abarcante (o mantra Om), a partir da qual todas as vibrações presentes no universo manifestado podem ser consideradas como sendo derivadas, inclusive os sons produzidos pelo nosso aparelho fonatório, base da linguagem articulada. Desta forma, os sons sagrados, quanto a seus significados místicos, seriam transcendentes à própria manifestação da linguagem articulada, o que parece inaceitável para a maioria dos cientistas e lingüistas modernos. Mas, o que a teoria de sphota parece indicar é exatamente isso.

Segundo o Mantra Yoga, a vibração encontra-se na base da forma (usando-se essa palavra em seu amplo sentido). O universo manifestado está repleto de uma imensa variedade e de um número infinito de formas, que conhecemos por meio dos órgãos dos sentidos físicos ou supra físicos. Cada uma destas formas é produzida por meio de vibrações. Quando estas vibrações cessam, a forma se desintegra.

A vibração não está apenas na base da forma, mas também é necessária para a manifestação da Consciência. Se estas vibrações forem completamente interrompidas, a manifestação da consciência no plano físico cessará e retrocederá para o próximo veículo mais sutil (astral, mental, etc.), como ocorre no caso do sono, da anestesia ou do samâdhi (lit. “êxtase”, o último estágio do Ioga - mais precisamente, deveríamos traduzir este termo por "ênstase", por tratar-se de uma "interiorização" e não de uma "exteriorização").

Vibração (Shakti), Forma (Rûpa) e Consciência (Âtman) estão intimamente relacionadas, e afetam umas às outras de todos os modos. O conjunto do universo manifestado é essencialmente o resultado de uma vibração que inclui e abrange tudo, chamada nâda (lit. “som”). Esta mais sutil das vibrações pode, por sua diferenciação e subdivisão, originar uma infinita variedade de vibrações, as quais estão por detrás de todos os fenômenos da natureza, produzindo todos os tipos de formas.

Uma vez que um mantra é essencialmente uma combinação de sons e estes podem ser representados pelo alfabeto de uma língua, os mantras são construídos arranjando-se as letras do alfabeto em certas permutações e combinações, com necessárias indicações acerca da pronúncia correta e exata. Os efeitos produzidos pelas combinações de letras não são a média aritmética das propriedades das letras isoladas. Assim, ninguém pode prever o efeito de uma determinada combinação de sons sem uma completa investigação e experimentação.

Cada uma das 50 letras do alfabeto sânscrito, as quais representam um determinado som, possui certo poder ou potência inerente, da mesma forma que certas propriedades são inerentes a qualquer tipo de átomo químico. Estes poderes específicos associados às letras, ou antes, aos sons que representam, têm sua origem no mais elevado plano (sânscrito, loka) do sistema solar, segundo a tradição indiana, e podem, portanto, operar em todos os planos que constituem o sistema solar. Isso não significa que o Sânscrito, com suas 50 letras, seja uma língua privilegiada pela natureza, o mesmo valendo para o Hebraico da Cabala, com suas 22 consoantes.

Nos sons produzidos pelas letras é que residem os sutis poderes específicos (e a “alma”, sphota) e não nos símbolos que os representam. Assim, o efeito do som de um “A” é o mesmo em qualquer língua, independentemente do símbolo usado para representá-lo. Este é o verdadeiro sentido místico da teoria da “alma da palavra” (sphota), que designa a conexão orgânica entre uma palavra e um conceito. Ele se baseia na ideia de que em cada palavra deve estar contida uma alma dessa palavra, a qual se manifesta ao pronunciá-la. A Cabala completa essa teoria com sua visão de que cada letra/som possui um significado arquetípico profundo que concorre na determinação do significado da palavra final. A captação do significado completo depende da meditação e da contemplação da palavra. Subentende-se aí alguma possibilidade de captação intuitiva do significado, o que chamamos de metacognição.

O culto a Shiva é um dos mais antigos da Índia. O Xivaísmo da província da Caxemira é um sistema filosófico fundamentalmente pré-védico, mas que se desenvolveu dentro da religião védica. Trata-se de uma escola monista (que prega que só existe uma Realidade), diferenciando-se das demais filosofias monistas pelo fato de aceitar que tudo no universo é Consciência Universal. Afirma que tudo foi e é continuamente criado por Shiva e que o universo inteiro é o corpo de Paramashiva (lit. “consciência suprema”). A consciência individual (Âtman, o “eu interior”) é idêntica à Consciência Universal (Paramashiva), e tudo no universo está ligado na “dança” da Consciência.

Nesta visão xivaíta, o Som, a vibração da Consciência, dá origem à criação com o surgimento de pares complementares em cada nível desta criação. Paramashiva, a Consciência, tudo sustenta. No momento da dissolução, tudo retorna à Consciência. Nada é destruído, apenas muda de forma. A substância eterna permanece.

Como se pode observar, para os indianos – e outros povos também – o som é a causa da criação, a causa e não o efeito da vibração, a energia potencial primordial, o “som potencial” ou “som silencioso”, capaz de reorganizar partículas (em sânscrito, anu, “átomo, diminuto”), a partir de seus padrões originalmente imperturbados, em outros padrões. O som silencioso passa por quatro níveis de desenvolvimento para tornar-se som audível:

Inicialmente é o Absoluto, indiviso, indiferenciado, uno, o seu estado antes da formação do universo. Depois vem o nível mais sutil do som, chamado parâshabda (lit. “som supremo”) ou parâvak (lit. “linguagem suprema” ou “o plano supremo da realidade verbal”). Neste ponto ele não é manifesto, ainda não soa, é sem vibração, com um comprimento de onda infinito; ao mesmo tempo é som com comprimento de onda zero, com vibração infinita. Tudo está contido neste único ponto.

O segundo nível chama-se pashyantî (lit. “vidência”), a forma-semente do som, anterior a qualquer diferenciação de palavra e objeto. Para os Iniciados indianos a palavra para um objeto é sua forma sonora, invisível (seu sphota, “alma”). O objeto é a condensação final da energia pura nesse processo criativo.

O terceiro nível é madhyamâ (lit. “mediano, sem princípio nem fim”), o primeiro estágio de diferenciação de palavra e objeto, quando o som sutil está prestes a manifestar-se no nível elementar. As letras sutis (fonte de Sphota?) começam a tomar forma, criando pensamentos e sentimentos. Estes “letras sutis” são citadas pela Cabala zohárica, que diz que Deus primeiro inscreveu as letras hebraicas nos céus, antes destas descerem à Terra e serem utilizadas pelos homens.

O quarto nível é vaikarî (lit. “fala individualizada”, arquétipo manifestado), a linguagem pronunciada ou articulada, o estágio final de densificação do som, a completa diferenciação da palavra e do objeto. É a fala, o som das palavras e das letras. Apesar da diferenciação aqui ser completa, persiste o sphota (a alma que conecta o objeto/pensamento à palavra).

Esses quatro níveis de som existem em cada um de nós. O corpo físico é a densificação final da consciência individual. Por isso, temos uma alma...

Alguns linguistas – inclusive nós – acreditam que a estrutura das línguas mais antigas foi arquitetada para representar o esquema do universo, de acordo com a compreensão dos sábios e videntes das tradições ancestrais. Segundo esse conceito, as línguas sagradas mais antigas são expressões da harmonia e estrutura do universo. Os sábios que as desenvolveram descobriram uma “ciência do som” (shabda vidyâ) que faz muito mais do que representar objetos e ideias, pois nela estaria toda a chave das chamadas “invocações mágicas”, dos “mantras” e mesmo das “orações” das diversas religiões. Alguns autores da Filosofia Perene, como René Guénon, parecem ter vislumbrado esta realidade.

Segundo esta linha de pensamento, podemos dizer que as letras do alfabeto sânscrito são expressões reais das energias mais sutis do processo criativo, as formas audíveis dos princípios da criação. As 22 consoantes do alfabeto hebraico seriam a versão iniciática de Moisés para os mesmos princípios. Segundo os xivaítas da Caxemira, a partir do primeiro impulso do Absoluto de causar a Criação até a manifestação da matéria mais densa, existem 36 níveis de desenvolvimento, entre os quais se distribuem as 50 letras do alfabeto sânscrito.

 (Trecho do livro "A Alma da Palavra", de Paulo Stekel - saiba como adquirir acessando: http://stekelmusic.blogspot.com.br/2013/10/livros-de-stekel-e-books-em-pdf.html)

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