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sábado, 1 de março de 2014

Do Paganismo Sagrado ao Cristianismo Profano

(Trecho do livro "Santo & Profano - estudo etimológico das línguas sagradas", de Paulo Stekel - saiba como adquirir acessando: http://stekelmusic.blogspot.com.br/2013/10/livros-de-stekel-e-books-em-pdf.html)


O pagão e seus Mistérios

Para o Império Romano, “bárbaro” era todo aquele que vivia fora de seus domínios, que não falava o latim ou então, que falava um péssimo latim (o sermo vulgaris ou fala comum). A ideia de “civilização” era evidentemente a maior soberba de Roma: fora de suas fronteiras não existiam homens civilizados.

Curiosamente, para o “Império Católico Romano”, “pagão” era todo aquele que vivia fora de seus domínios, que não estava convertido ao Cristianismo. A ideia de “religião” era – e ainda é – a maior soberba do Vaticano: fora de sua influência não existem homens religiosos e todos seriam pagãos, idólatras, violentos, fanáticos e irremediavelmente perdidos.

A comparação pode parecer cruel, mas é a mais pura realidade. Os “bárbaros”, até sua revolta triunfante, sofreram nas mãos da Roma régia. Os “pagãos”, que eram os mesmos bárbaros, sofreram nas mãos da Roma eclesiástica. A Roma régia sempre tolerou a religião dos conquistados, levando o culto de seus deuses para o centro do império. A Roma eclesiástica não pôde, ao contrário, suportar a concorrência. Destruiu os deuses dos pagãos, transformou-os em demônios, mas escondeu em seu próprio ritualismo evidentes sinais de paganismo.

O termo “pagão” vem do latim pāgānus, que se refere ao aldeão, o homem de aldeia e que não é soldado, aquele que habita o pagus (pago, aldeia, lugar pequeno, distrito). Na origem não havia qualquer significado pejorativo nesta palavra, pois simplesmente designava o habitante dos campos ou dos bosques, o que vivia a grande distância dos templos urbanos e ignorava, portanto, a religião do estado e seus ritos. Em inglês, o seu equivalente seria heathen (gentio, pagão), designando aquele que vive nos campos (heath, charneca, terreno inculto, pobre e arenoso, coberto de urze – heather -, planta rasteira de pequenas flores). O termo tem a mesma origem do alemão heide, “pagão” (heideland, “charneca”, “terreno arenoso”; heidentum, “paganismo”).

O latim eclesiástico mudou a sentido de “pagão” (aldeão) para “gentio, idólatra”, o mesmo acontecendo com heathen e heide. Assim, todos os não-cristãos (deveríamos dizer “não-católicos”?) passaram a ser considerados “pagãos” e “morrer pagão” equivale ainda hoje a “morrer não convertido ao Cristianismo”, embora devesse significar simplesmente “morrer na condição de aldeão”.

O fato do “pagão” (o aldeão, não o idólatra) estar longe das grandes cidades e desconhecer seus deuses não significa que não tivesse sua própria religião. Na época clássica existiam as pāganālia, as festas dos rústicos ou camponeses em honra de Ceres (deusa das searas, do pão e do trigo) e da Terra. Os pagãos cultuavam divindades como Arungus (tb. “auruncus” e “averruncus”), deus das searas; Chlōris ou Flōra, deusa das flores; Cūnīna, deusa que defendia os meninos no berço; Diāna, deusa dos bosques e irmã de Apolo; Épona, deusa dos cavalos; Fascinus, deus do olhado ou enfeitiçamento; Faunus, deus dos bosques (irmão e esposo de Fátua ou Fauna); Fauna, deusa dos bosques (a bona dea, a boa deusa, cujo culto era reservado somente às mulheres); Fornācālis, deusa das fornalhas e dos fornos; Herthus, deusa da terra (adorada pelos Germanos); Hēsus, deus da guerra (na língua dos antigos habitantes da Gália); Lūcīna, deusa dos partos; Montinus, deus das montanhas ou montes; Silvānus, deus campestre dos bosques, florestas, campos e gados (de silva, ‘bosque, mata, selva’); Vacūna, deusa dos ociosos, a quem os lavradores sacrificavam depois de colherem todos os frutos.

Todos esses deuses possuíam seus ritos ou Mistérios (consumações, cerimônias de Iniciação). Foram erroneamente interpretados pelos cristãos no sentido de “ídolos”. A ideia filosófica ligada a esses deuses nunca foi a de algo objetivo ou antropomórfico, mas em cada caso tratava-se de uma potência abstrata, uma virtude ou uma qualidade da Natureza. Eram meras personificações transitórias do céu, dos astros, elementos, forças ou fenômenos da Natureza. E que mal há nisso? Os católicos não têm seus “deuses” mascarados na figura dos santos? Afinal, hoje já existe um santo para cada aspecto da vida tanto quanto os pagãos tinham seus deuses e gênios tutelares regendo cada pessoa, pedra, bosque e cachoeira. Há o patrono dos motoristas, das causas impossíveis, santos guerreiros (São Jorge, Santo Expedito, São Miguel), santas guerreiras (Santa Joana d’Arc), patronos das portas do Paraíso (São Pedro), santos gêmeos tipo os Dióscuros gregos (São Cosme e São Damião), enfim, um panteão maior que o de qualquer povo pagão.

Os pagãos são chamados de “idólatras”, mas é o catolicismo que está tomado de ídolos. Helena Blavatsky definiu bem o significado de “ídolo “ no seu Glossário Teosófico: “estátua ou pintura de um deus pagão ou de um santo da Igreja Romana, ou então um fetiche das tribos selvagens.”

“Ídolo” vem do grego êidolon, cujo correspondente latino é imāgo, a imagem, figura, o retrato, a pintura, semelhança, o modelo, a representação de alguma coisa. No seu Glossário, Blavatsky diz que: “no primeiro período do Egito não havia imagens; porém mais tarde, como diz Lenormand, ‘nos santuários do Egito, dividiam-se as propriedades da Natureza e, conseqüentemente, da Divindade em sete qualidades abstratas, cada uma das quais caracterizada por um emblema, que são: MATÉRIA, COESÃO, FLUXÃO, COAGULAÇÃO, ACUMULAÇÃO, ESTAÇÃO e DIVISÃO’. Todos eram atributos simbolizados em diversas imagens.” O mesmo deve ter ocorrido na aurora de outros povos, pois em praticamente todos encontramos estátuas de deuses que representam forças da Natureza ou um dos sete emblemas citados acima.

Qual seria, então, o aspecto reprovável da idolatria? Devemos compreender que foram os Mistérios Iniciáticos os criadores das imagens dos deuses, inicialmente como representações dos atributos de Deus. Em seu Glossário, Blavatsky diz que:

“(...) entre as massas, tais Mistérios degeneram em feitiçaria, tomando com o tempo, a forma de religiões exotéricas, de idolatria cheia de superstições, e o povo, ao invés de adorar ao Ser Supremo em espírito e em verdade, rendeu culto a imagens grosseiras, forjadas segundo a sua própria fantasia. De uma idéia de pura abstração, unicamente perceptível para a inteligência mais elevada, fizeram ídolos toscos, que falavam apenas aos sentidos de um vulgo ignorante, materializado e corrompido. (...) Um populacho grosseiro e supersticioso, que não raciocinava, que não sabia nem duvidar, nem negar, nem crer, que ia ao templo por pura ociosidade e porque ali os pequenos são iguais aos grandes, que levava suas oferendas por costume, que sem cessar falava de milagres sem haver examinado algum e que não estava quase em nível superior ao das vítimas que conduzia; este populacho podia muito bem, à vista da grande Diana de Éfeso e de Júpiter Tonante, sentir-se tocado por um terror religioso e adorar, sem saber, a própria estátua.”

É exatamente o que acontece ainda hoje nas procissões católicas, em que as imagens são adoradas como o próprio santo ou mesmo Deus. O idólatra é um profano, um não-iniciado, que atribui poder à própria imagem feita pelo homem. O Iniciado é sagrado, pois sabe o princípio cósmico que a imagem representa, sabe que este princípio está dentro de si e não na estátua. As imagens de deuses de todos os povos são o livro dos Iniciados para aqueles que sabem lê-lo. O simbolismo cristão tem este caráter, embora não o saibam os cristãos, o mesmo valendo para o simbolismo da Maçonaria, depositária da iniciação pagã ocidental.

Resquícios pagãos na ritualística cristã

A palavra “resquícios” é uma ironia, pois a estrutura do ritual cristão não é nada original, mas praticamente toda tomada de “empréstimo” aos cultos e Mistérios pagãos. O problema é que os verdadeiros autores nunca foram reconhecidos, ao contrário, perseguidos, para não denunciarem o mais arquitetado plágio da história da humanidade. Alguns exemplos destes “resquícios” serão suficientes:

O emprego da água benta é um dos mais antigos rituais egípcios, de onde passou para a Roma pagã. No seu Fé egípcia, Bonwick diz que: “o sacerdote egípcio aspergia com água benta as imagens de seus deuses, bem como seus fiéis. Vertia-se e aspergia-se com tal água."

O báculo episcopal (do latim baculum, bordão, bastão, cetro), uma das insígnias dos bispos, tem origem no cetro sacerdotal dos adivinhos etruscos, sendo encontrado na mão de diversas divindades.

O batismo cristão é o mesmo rito de purificação celebrado durante a cerimônia de Iniciação nos tanques sagrados da Índia, pertencente à primitiva teurgia dos caldeus e acádios, praticado nas cerimônias noturnas nas pirâmides e durante os Mistérios de Elêusis em honra de Deméter (Ceres). Há ainda relação com a Lustração dos greco-romanos, especialmente a lustração da criança, na qual ela recebia seu nome e era purificada com uma aspersão de água lustral.

O cálice do culto, feito de metais nobres, especialmente ouro, no início era de madeira. Depois, de vidro e mármore. O ouro aproximou o novo culto ainda mais dos mistérios pagãos. Mas a virtude ficou para trás, caso contrário Bonifácio, bispo e mártir, não teria dito: QUONDAM SACERDOTES AUREI LIGNEIS UTEBANTUR CALICIBUS, NUNC E CONTRA LIGNEI SACERDOTES AUREIS UTUNTUR CALICIBUS, ou seja, “em outros tempos, os sacerdotes de ouro serviam-se de cálices de madeira; hoje, pelo contrário, os sacerdotes de madeira servem-se de cálices de ouro”.

A eucaristia não é exclusivamente cristã. Tem sua origem no Egito. O sacrifício do pão e do vinho era comum em várias nações antigas. Ceres era o pão e Baco era o vinho, o primeiro, a regeneração da vida e o segundo, o emblema da sabedoria. O soma, bebida sagrada dos brâmanes, preparada provavelmente com o sumo fermentado da rara asclepias acida (de propriedades alucinógenas), é a ambrosia ou néctar dos gregos e a eucaristia cristã, já que, pelo poder de certos “mantras”, supõe-se que tal licor se transubstancie no próprio Brahmā.

As iniciais I.H.S. são interpretadas no sentido de Jesus Hominum Salvator (Jesus Salvador dos Homens) e de In Hoc Signo (Com este signo). A expressão teria surgido da suposta visão de Constantino, que, então, colocou as iniciais de Christos (as letras gregas khi – X - e rho – P) no seu lábaro. O lábaro é o estandarte que era levado diante dos antigos imperadores romanos, tendo uma águia como emblema da soberania. Tratava-se de uma longa lança com um pau cruzado, formando ângulos retos. Constantino trocou a águia pelo monograma de Cristo, mas o lábaro foi um emblema etrusco muito antes do imperador e da era cristã. Era ainda o símbolo de Osíris e de Hórus. IHS (leia-se “iês”) era um dos nomes mais antigos de Baco.

O dogma da Imaculada Conceição é a desfiguração de uma doutrina de escolas gnósticas e neoplatônicas. Diz tal doutrina que, quando da criação do mundo, a substância primordial diferenciou-se e a Trindade (Pai, Mãe e Filho) converteu-se em quatro (o número da forma). A ideia é, portanto, simbólica e cosmogônica, não devendo ser levada ao pé da letra.

A auréola (nimbo ou halo) que circunda a cabeça de Cristo e dos santos católicos é de origem oriental. Da mesma forma circunda a cabeça do Buda nas imagens da Índia, China, Tibete e Japão, bem como de divindades do Egito, Grécia, México, Peru, etc.. Roma reservou a auréola para os santos e imperadores cristãos!

O rosário cristão tem seus equivalentes mais antigos no Japa-mala indiano (lit. “rosário de recitação”) e no rosário usado pelos antigos romanos. Existem rosários de oração no Japão, Sri Lanka, entre os muçulmanos e entre os turcos.

Os cristãos primitivos não tiveram nem templos nem altares, nem círios nem incenso, nem água benta nem qualquer dos ritos instituídos posteriormente. Os cristãos começaram a edificar templos no reinado de Diocleciano (final do séc. III), sendo o primeiro deles o de Nicomédia. Outros foram levantados em seguida, mas os cristãos continuavam com aversão aos círios, aos incensos, à água lustral e aos hábitos pontificiais, pois isso tudo lhes parecia o selo distintivo do paganismo. Entretanto, estes usos foram sendo adotados aos poucos durante o reinado de Constantino (séc. IV) e de seus sucessores.

A Cruz dos cristãos é um símbolo praticamente universal. Em muitos sepulcros egípcios primitivos, o plano da peça tinha a forma de uma cruz. Na Índia, a cruz gamada ou svástika era colocada sobre o coração dos Budas e santos budistas. Para os hermetistas, a cruz é o símbolo dos quatro elementos. Os egípcios tinham a sua cruz “ansata” (com asas) chamada ankh, “vida”, pois simbolizava a imortalidade. A Cruz do Calvário não data do cristianismo. Figurava nos rituais do Egito, da Grécia, Babilônia, Índia, México, Peru, China, etc.. Tertuliano atesta que existia em todas as nações “pagãs”. O TAU ou “T” é a mais antiga forma de cruz, e o TAT egípcio é igualmente antigo. Baal e a Astarte fenícia possuíam cruzes nas mãos. Foram exumadas cruzes em Tróia, na Etrúria e na Mesopotâmia. A cruz é o símbolo mais antigo da vida, originada no sopro universal e individualizada na respiração; portanto, é o emblema da vida e da morte.

A Trindade católica – Pai, Filho, Espírito Santo – é uma corrupção da trindade dos antigos, composta de PAI, MÃE e FILHO. No Egito era Osíris, Ísis e Hórus. Na Índia, Brahmā, Vishnu e Shiva. O Espírito Santo é a MÃE da Trindade, pois segundo os Evangelhos Gnósticos, Jesus se dirigia ao Espírito Santo como sua “mãe”.

A análise de certos termos de uso corrente no latim eclesiástico, mas de acepção diferente (pagã) no latim clássico delatam o quanto a Igreja Católica profanou a religião dos povos do Lácio, apropriando-se de sua nomenclatura “de assalto”:

Basílica era o palácio ou a casa real romana; edifício público magnificamente ornado, em que se tratavam os negócios da República e se juntavam os tribunais, os contratadores, etc.. O termo basílicus significava “real, magnífico, esplêndido”. Hoje, “Basílica” é uma igreja privilegiada.

O que hoje se chama Cūria (tribunal eclesiástico dos bispados) era, na verdade , a corte, o senado, o tribunal, o templo ou o lugar onde se reuniam as “cúrias” ou partes da tribo do povo romano. O sacerdote de cada cúria era o cūrio.

A “diocese” (orig. diocēsis), circunscrição territorial sujeita a administração eclesiástica de um bispo, era o governo, a jurisdição romana, ou o lugar e território da jurisdição. A administração católica desde o início se assemelha à administração de um império!

O episcopus era o superindentente, o guarda, o vigia ou inspetor romano. Hoje é o bispo, prelado que governa uma “diocese”.

A “hóstia”, partícula de pão ázimo que se consagra na missa, era para os romanos, a “vítima”, a rês sacrificada, principalmente depois da vitória, a alguma divindade.

Papa ou pappa era tanto o diminutivo de “pai” (pater) quanto comida dos meninos, a “papa”. “Pappas” era o pedagogo, o aio do menino e um título do próprio Júpiter!

Paróchia ou parochus era o presente, a dádiva feita do público. O parochus é o que provê do necessário, o que dá de cear, o que faz os gastos do banquete = “paroquiano”. Hoje, paróquia é o território menor do que a diocese sobre o qual se estende a esfera de ação de um pároco ou vigário e, ironicamente, o "paroquiano" (parochus) continua sendo aquele que “provê os gastos dos banquetes” e sustenta o pároco.

O termo “pontífice” [orig. pontifex, lit. "que faz ponte"] hoje significa dignitário eclesiástico, ministro do culto de uma religião, bispo, prelado. O original pontifex referia-se aos sacerdotes romanos, especialmente aos que faziam anotações no pontificia, o livro das cerimônias religiosas. Como o imperador romano era considerado o mais alto sacerdote, tinha o título de pontifex maximus (“o sumo-pontífice”), o mesmo adotado depois por todos os papas! Existiu, por acaso, um “Império Católico”? Se existiu, hoje está decadente!

O “sacramento” (orig. sacramentum), ato religioso, consagração, era o juramento que prestavam os soldados, quando assentavam praça, bem como a obrigação que resultava dele. Tinha o mesmo nome o dinheiro que os litigantes depositavam na mão do pontífice, para que o caluniador não ficasse sem castigo.

O sacrārium era a capela, o oratório e o lugar onde se guardavam as coisas que serviam nos sacrifícios, o lugar secreto e oculto. Hoje, é a “sacristia”, onde se guardam os paramentos e os demais objetos de culto. O sacrārius era o guarda do templo e das coisas que serviam nos sacrifícios. Hoje, é o “sacristão”, o guarda da sacristia e ajudante da missa.

O termo vicārius (vigário) significava “substituto”, que serve por outro; o escravo que dependia ou estava sujeito a outro escravo; que faz as vezes de outro”. O Papa tem o título de vicarius Dei e vicarius filii Dei, ou seja “vigário de Deus” e “vigário do Filho de Deus”. Na verdade, isso quer dizer “substituto de Deus” e “substituto do Filho de Deus”. Pode um simples homem ser o substituto de Deus?

E o que dizer do “Vaticano”, o palácio do Papa, na colina chamada Vaticano, em Roma? Pois, Vāticānus era o deus romano que presidia à primeira fala dos meninos ou vāticinium. É o nome de um dos dez montes sagrados de Roma, regido por este deus. Daí vem vātes (profeta, vaticinador), vāticinātio e vāticinium (vaticínio, predição, oráculo), derivados de vāticināri (predizer, adivinhar, profetizar; enfurecer-se, delirar, enlouquecer; dizer, afirmar como oráculo).

Eis o velho culto pagão de Roma agora envolto em vestes suntuosas de hipocrisia eclesiástica! Constitui isto uma profanação? Considerando que esta palavra significa o ser/agir como ignorante, violando ou manchando as coisas sagradas, ser corrompido e desrespeitoso com relação às coisas santas e não-iniciado nos Mistérios, com certeza constitui, pois se aplica perfeitamente aos perseguidores dos gnósticos, os promotores das sangrentas Cruzadas e instituidores da “Santa Inquisição”, eventos nos quais morreram Iniciados, homens nobres de espírito e pagãos (no sentido de camponeses).

Maçonaria: a sobrevivência dos Mistérios

A palavra “Mistério” (grego mystérion, latim mystērium) significa o segredo, a coisa oculta, principalmente religiosa. Em Roma, Mysteria eram os Mistérios, festas, cerimônias secretas em honra de alguma divindade. O mystagōgus era o que iniciava nos Mistérios, mas também o guarda ou tesoureiro dos vasos sagrados e que os mostrava aos estrangeiros. O mysta ou mystes era o iniciado nos Mistérios e cerimônias de qualquer culto. Daí vem, inclusive, a palavra “místico” (mysticus, misterioso).

“Mistério” é uma palavra grega derivada do verbo muô, "fechar a boca”. Outra, relacionada, é teletai, “consumações”, “cerimônias de Iniciação ou Mistérios” (do verbo teléō, “realizar, terminar, acabar, completar”). Os Mistérios eram cerimônias ocultas aos não-iniciados, nas quais se ensinavam, através de representações dramáticas e outros métodos, a origem de tudo, a natureza do espírito humano, suas relações com o corpo e a forma de purificá-lo e conduzi-lo a uma vida superior. Platão dizia que os Mistérios eram altamente religiosos, morais e adequados como escola de ética. A Igreja de Roma, todavia, não concordou com Platão e sepultou os Mistérios, alcunhando-os de “idolatria” e “culto ao Diabo”. Sem mitos e Mistérios Iniciáticos, o homem mergulhou, então, na Idade das Trevas, a Idade Média. Cristo venceu Pã e Aristóteles foi adotado no lugar de Platão. Mas Pã e Platão não haviam morrido...

Durante o período do Renascimento europeu, homens sedentos de conhecimento retornaram às origens pagãs, ressuscitando Pã, de quem se houvera dito outrora “o grande Pã morreu”. Redescobriram o pitagorismo, o neoplatonismo e a gnose. Giordano Bruno (séc. XVI), cristão legítimo como poucos, alertou para o fato de que o ritual católico era um plágio do culto egípcio, um dos motivos que o levou à fogueira em 1600.

Pouco depois destes fatos, apareceram os manifestos rosacruzes e, mais adiante, as primeiras lojas maçônicas. Renascia o paganismo e todo o ritualismo dos antigos Mistérios, agora envolto na aura da Cabala e do Cristianismo gnóstico, diferente do Católico no sentido de que não aceita o poder religioso de Roma como absoluto, pois absoluta é apenas a liberdade espiritual do homem.

Hoje, existe um sem número de organizações estruturadas de forma semelhante à maçonaria, ou seja, com graus hierárquicos ou de conhecimento, acordos fraternos mais do que “secretos”, rico simbolismo de natureza cosmogônica e antropogônica, ideais de igualdade, fraternidade e liberdade. As diversas ordens denominadas “maçônicas” ou “rosacruzes” têm este caráter; as ordens “templárias”, “martinistas” e suas congêneres de outras culturas, como as que revivem os Mistérios andinos, mexicanos, asiáticos e africanos, como é o caso da Fraternidade Ogboni, na Nigéria, têm os mesmos objetivos.

Como se pode observar, o termo “maçonaria” tem se tornado bastante geral, servindo para definir um grande número de ordens místicas, simbólicas, filantrópicas e iniciáticas de origens distintas e não necessariamente conectadas. Nenhuma delas é “demoníaca” como pregam a Igreja e, enfurecidamente, os protestantes fanáticos. Nenhuma propõe a seus membros qualquer atitude ou ritual que fira a liberdade e a constituição de seus respectivos países. Portanto, nestas organizações, não se fazem sacrifícios humanos, não se adora o diabo nem se humilha ninguém, mesmas acusações feitas no passado contra os ritos do paganismo e os Mistérios Maiores. Estas instituições são, sim, a sobrevivência dos antigos cultos iniciáticos na mente e na alma dos homens, talvez mesmo em seus genes, uma vez que pessoas de praticamente todas as religiões e mesmo sem religião adentram em seus Mistérios. Isso é bom sinal, sinal de que o “grande deus Pã sobreviveu à profanação”.



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