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terça-feira, 18 de março de 2014

Ensinamentos da Cabala Mística

(Trecho do livro “Curso de Cabala – com noções de Hebraico & Aramaico – vol. I”, de Paulo Stekel - saiba como adquirir acessando: http://stekelmusic.blogspot.com.br/2013/10/livros-de-stekel-e-books-em-pdf.html)


1 – Introdução

O “misticismo hebreu” é uma visão humanista que percebe e transmite a mensagem e a inspiração do processo messiânico (um processo místico) do povo judeu. Esta visão assenta as bases para a formação da personalidade do homem, tanto em sua relação com o Todo-Poderoso (bên 'adám lemaqôm, lit. “entre o Homem e o lugar sagrado [de Deus]”) como dos homens entre si (bên 'adám leĥaverô, lit. “entre o Homem e seu próximo”).

A título de exemplo, eis duas referências:

Na passagem do Mar Vermelho, observamos a explosão mística que se manifesta em Êxodo 15.2 - “Yah é a minha força e meu canto, a ele devo a salvação. Ele é meu Deus, e o glorifico, o Deus do meu pai, e o exalto” - , que Aba Shaul interpreta: “trata de parecer-te a Deus; assim como Ele é misericordioso e clemente, assim sejas tu também” (Tratado Shabat, 133), e que o exegeta Rashi coloca no lugar: “(...) ei de preparar-me para seguir Sua orientação (...).”

Em Miĥá VI,8, lemos outra definição: “(...) fazer só o justo, amar a piedade e ser modesto, perante Deus”.

O apego a Deus (Dveqúth) involucra, pois, este sentido ético como princípio básico e essencial do pensamento e da prática do misticismo hebreu. Essa liga divina se produz ao realizar o homem os preceitos mosaicos (Mitsvôth, lit. “mandamentos, preceitos”), e com disposição constante os dedica ao Eterno com toda reverência e candor. Uma conjunção com Deus que se enquadra nas prescrições religiosas e não tolera superstições, magias nem ficções. Uma conformação moral íntegra, que é consequência de uma intuição metafísica e não imposta somente pelas licitudes oficiais. Metafísica, enquanto se ocupa da natureza da realidade e do significado da vida humana, mediante formulações que vão além do dedutível através dos dados empíricos. São especulações ultraterrenas que transcendem toda possível experiência humana, sem ser obscurantista nem desestimar a verdade científica.

O misticismo hebreu é vivência dinâmica do ser, tanto em escala individual como na social, à procura da integração cósmica do homem na Criação divina. A vida tem sentido plausível, quando o homem funciona como propositor para seu aperfeiçoamento na base de valores perenes (estude-se este enfoque em Isaías, cap. 49), A Real Existência só tem vigência quando é potencializada com expoentes éticos. Contrariamente, se produz em cada instante o homicídio do presente, que fica transferido imediatamente a um fútil passado, sem lograr participação alguma nos objetivos do futuro, do acariciado idílio do porvir. O misticismo realça e insufla veemente tomada de consciência na ascensão por esta escala de exercitação de verdadeiros valores. Ele dissolve as imperfeições psicossomáticas e ilumina a alma para poder distinguir a Verdade pura na elevação da Santidade, acima de toda a especulação racional, na procura do melhoramento universal. A vida profana, passageira, não serve para nada; decisivo é o sentido eterno e sagrado da vida, conforme o conceito de Rabi Shimon bar Yoĥay. Com efeito, o sentido das coisas e a alma das obras valem mais que os objetos em si, dentro da sensibilidade mística.

O segredo místico reside principalmente na sutil e reservada capacidade de meditação e retiro espiritual que imprime sua essência. Seu meio é absolutamente dissociado de todo fetichismo, simulação ou ocultismo. Sua presença reitora ou corretora do destino humano não requer, por certo, um proselitismo massivo. As exigências extremadas de verdade e de consagração na ação permanente lhe impedem, por outra parte, de converter-se em corrente popular. Entretanto, a missão do misticismo acha seu apostolado e sua militância em cada geração. Supõe-se que seus ideais sejam próprios de uma elite puritana, de espírito seleto - “pessoas de relevância” ou o “homem verdadeiro”. Mas não são eremitas nem espiritistas, apenas pessoas armadas de fé e devoção e dotadas de vida interior suprasensível, com visão direcionada ao serviço universal e impulsionados ao bem humano. Tudo isso como resultado da pureza de amor e solidariedade e do aprofundamento do estudo dos conhecimentos arcanos, distantes da frivolidade dos prazeres sensuais e da habituação mecanicista da vida. Isso constatou Rabi Akiva, ao enunciar: “ditosos os filhos de Israel, que são purificados por e perante Deus”.

Homens assim existiram desde os tempos bíblicos: ver Juízes III, Isaías X e Jeremias III. Depois do período profético, a germinação do misticismo foi gestada por intrépidos Tsadiyqíym (“Justos”), que protagonizaram realidades em conciliação sobrenatural. Entre eles: o tanaíta Shimon bar Yoĥay; o cabalista Rabi Itsĥaq Luria – 'Aríy, “o leão”); e o corifeu do Hassidismo, Rabi Israel Baal Shem Tôv (Besht).

Misticismo não é mistificação. O misticismo não admite sofismas nem tolera ficções. Sua imagem está desvinculada completamente dos indivíduos que se intitulam “místicos”, “esotéricos”, etc. O verdadeiro místico não propagandeia sua condição interior, pois não é um vendilhão do Templo e não pode colocar seu coração (sede da mais alta Sabedoria Divina) à venda em qualquer mercado moderno. Sua condição mística é sua própria emanação gloriosa, sem precisar de mais nada para ser o que é.

A cosmovisão mística evidencia: que tudo está regido por movimento, que tudo está em trânsito. Fixo e absoluto só é Quem criou a tudo e a tudo governa: Deus. E o trabalho pensante do misticismo é perscrutar este mistério remoto e compenetrar-se em sua resolução até integrar-se divinamente, para determinar um sentido elevado ao viver do ser mais privilegiado da Criação: o Homem.

Assim sugere Ben Azay as palavras de Gênese 5.1: “Este é o livro das gerações do homem”, como princípio fundamental da Torah. Importa pois basicamente, o Homem. E desde sempre quer o homem dirigir-se a Deus buscando a comunicação adequada, circunstância que se conjectura já em Gênese 4.26: “então começou-se a chamar o nome do Eterno”, ou em seguida: “e chamou alí o nome do Eterno, Deus de sempre” (Gênese, 21.33). O misticismo indica as possibilidades de tal comunicação, dando prioridade à inspiração pura.

2 – O misticismo da Torah

O Misticismo (em hebraico, Mistorín) é também denominado pela expressão Toráh haĥen (lit. “A Lei da Ciência do Mistério”), sendo Ĥen as iniciais de Ĥókhmah nistaráh ou “Ciência do Mistério”; aos entendidos nesta matéria se lhes chama “Entendidos em Mistérios”. O misticismo propõe decifrar o complexo dos fenômenos dos atributos de “Deus” e da “Criação”, segundo os mistérios da Torah [Nota: com o termo “Torah” se designa – no sentido estrito do termo – ao Pentateuco, e em geral nos referimos com ele a todo o saber hebreu legado]. Esta sabedoria esotérica, na qualidade de ciência fechada, se transmite aos homens intelectualmente preparados ou aptos para ela e que recebem adequadamente seu espírito. Por isso, esta disciplina se chamou também posteriormente Qabaláh, “recepção”, e aos que a estudam e praticam, Mequbalíym, “cabalistas ou receptores”. A Qabalah (ou Cabala, em Português) começou sendo uma tradição recebida verbalmente e conservada reservadamente pelos Iniciados.

O misticismo hebreu é tão antigo como o próprio povo judeu, e nunca foi interrompida sua presença ativa no seio do povo, deixando impresso seu selo peculiar na existência mesma da judeidade. Sabemos que nenhum acontecimento se repete exatamente no transcurso da história; e também o misticismo revestiu diferentes formas nas diferentes épocas. Mas, em todas as gerações, por mais variantes e derivações que haja registrado, as bases fundamentais do misticismo têm sido as mesmas ao largo de toda a história.

Encontramos o misticismo na Bíblia e especialmente entre os profetas Isaías, Ezequiel e Zacarias. O livro de Daniel é todo místico e particularmente os capítulos 07 a 12. Este livro faz a ponte entre a Bíblia e os apócrifos. O Talmud contém idéias místicas que servem para cobrir o vazio entre Deus e o Mundo. Nos Midrashím (homilias) e nos Targumím (traduções-comentários em aramaico, de Ónkelos e Yonatán) continua o misticismo através de um abundante material rico em referências e interpretações deste gênero misterioso. Esta corrente se desenvolveu logo com uma variada gama de diferenciações conforme a escola que haja seguido no transcurso do tempo. Desde a época dos Tanaítas é difícil achar um só período na história no qual não se acuse a presença ou forte influência do misticismo na produção judaica. A Cabala é produto deste misticismo e, como o fenômeno místico é algo inerente ao homem que busca o divino, a Cabala é, além de Sabedoria hebraica milenar, um bem espiritual inestimável da Sabedoria espiritual da Humanidade. Não pertence, portanto, mais ao Homem judeu do que ao Homem místico de qualquer origem que busque A Verdadeira Realidade.

3 – Evolução histórica

Na evolução histórica do misticismo podemos enumerar quatro períodos:

1) De Moisés até a época talmúdica (500 d.C.) - Cabala Mosaica;

2) Desenvolvimento da Cabala Judaica (Século XIII, na Espanha);

3) Período “Êrets Israelí” (após a expulsão da Espanha);

4) Difusão popular na Europa, quando a Cabala se mescla a doutrinas de origens cristãs, rosacruzes e maçônicas – nascem, então, os conceitos de Cabala Cristã e Cabalismo Cristão. Para os cabalistas cristãos, Jesus é o Messias. Para os cabalistas judeus, o Messias é um conceito muito mais complexo, o mais profundo mistério divino, o qual não pode se resumir na figura comum de um homem de carne.

A determinação precisa do começo do misticismo constitui um dos problemas difíceis no estudo da história da civilização hebréia. A razão desta dificuldade reside em que os pesquisadores não dispõem de elementos suficientes de prova para si.

Eis alguns estudiosos dedicados ao tema:

Adolf Franck, em 1843, publicou em Paris sua obra “A Cabala ou a Filosofia Religiosa Hebréia”.

Adolf Yelínek publicou importantes estudos sobre os primeiros tempos do Cabalismo.

Heinrich Graetz propõe uma explicação histórica. Segundo ele, o Cabalismo é uma reação contra o extremo racionalismo de Maimônides e sua aparição dataria de princípios do Século XIII. Essa teoria poderia ser aplicada, no máximo, ao conjunto de textos que compõem o Sefer Ha-Zôhar, mas não a todo o conjunto do Cabalismo.

David Neumark, em sua “História da Filosofia Judaica”, expõe sua tese sustentando que mito e filosofia alternam sua predominância no transcurso da história, e desta maneira explica a aparição do Cabalismo [Nota: A Bíblia é um mito em si, e só encontramos traços de filosofia em poucos livros do Antigo Testamento já influenciados pelo pensamento grego].

Schlomó Rubin, em seu livro “Razéi Olám”, publicado em 1909, sustenta que o povo de Israel conhece a Torah e nada tem a ver com mistérios. Afirma que os primeiros místicos foram os Essênios, e que depois o misticismo foi o produto da influência de babilônios e persas sobre os judeus [Nota: Os textos da mística russa Helena Blavatsky, em especial “A Doutrina Secreta”, fazem afirmação semelhante, ainda que não com a intenção de desmerecer a validade do misticismo da Cabala].

Schmuel David Luzzatto sustenta, por sua parte, que a Cabala é filha da filosofia árabe [Nota: É certo que a filosofia árabe influenciou o Cabalismo, mas não lhe deve ser a origem].

Abraham Eliahu Harkavi fixa também o começo do Cabalismo na época babilônia e persa [Nota: Nesta época o misticismo hebreu sofreu influência babilônica e persa, mas era mais antigo, e tinha uma influência egípcia da época de Moisés].

M. H. Landauer quer diferenciar completamente o misticismo legendário do Cabalismo que surge no século XIII e cuja base deriva do Neoplatonismo.

Nahman Krohmal intentou achar na Cabala uma profunda visão metafísica. Tratou de englobar as bases místicas com a antiga tradição judaica, e mesmo simultaneamente com a filosofia hegeliana.

Ezriel Guenzig supõe que sua origem é muito antiga, mas considera que o misticismo da época gaonita não tem nada a ver com o cabalismo novo desenvolvido na França e na Alemanha.

Hilel Zeitlin remonta o misticismo judeu à mesma origem da religião mosaica. Assevera que não há diferença entre os mistérios que se podem achar no Talmud, entre a literatura mística da época gaonita e a cabalística que surgiu a partir do séc. XIII. Finalmente assegura que o misticismo judeu não sofreu influência alguma de Babilônia e Pérsia nem da Índia ou da Grécia nem da filosofia árabe, mas que é a alma da Torah de Moisés.

Cada disciplina requer para seu correto estudo um método particular próprio. Portanto, a verdade cabalística não deverá, pois, perceber-se de acordo com regras de análise e síntese, nem conforme a comparação histórica, nem com o auxílio da intuição, mas sim, deve-se estudá-la mediante uma compreensão íntima peculiar.

Isto sim, é o que fará com que se diferencie plenamente entre os princípios autênticos da Cabala, que são eternos e imutáveis, e os canais empregados para seu esclarecimento e difusão, que variam de geração em geração e de um cabalista a outro. Estas variações são forçosas e naturais, se consideramos a profusão do léxico que se emprega e os erros a que está exposto e na medida em que o exemplo não resulta fiel reflexo do exemplificado.

É óbvio dizer que a interpretação detalhada é diferente de um místico a outro, de acordo com seu nível intelectual, sua capacidade dialética e a pureza de alma de que esteja dotado.

Rabi Zevi Elimélekh de Dinov explica: “que os cabalistas deviam materializar de alguma maneira os conceitos espirituais do misticismo com designações reais, e por isso não se deve estranhar a diferente terminologia e modo de expressão entre, por exemplo, o livro Ha-Bahír e o Zohar, os geoním e o “Arí”. Todos tendem à mesma meta; a variante só se encontra no revestimento da linguagem e na coerência do léxico”.

4 – Misticismo teórico e aplicado

O misticismo procura dar uma explicação acerca do segredo da Existência, do Criador e da Criação, e responder às dúvidas sobre a Vida, sua Meta e seus Fins em relação com o Universo. Propõe que a mente humana chegue a captar os efeitos arcanos (misteriosos) da obra da Criação; que entenda este Mundo como originado por Deus, sua Fonte e define o que o homem deve fazer em sua tarefa de aperfeiçoamento.

Costuma-se colocar a Cabala no campo da filosofia religiosa. Mas, diferentemente da filosofia, que é teórica e cuja exposição segue só o raciocínio, a Cabala implica um sentimento, e sua área se encontra intimamente vinculada ao coração dos que abraçam esta disciplina. A Cabala chega à profundidade psicológica daqueles que a professam e une intuitivamente ao homem em comunicação com Deus. Esta comunhão cabalística se professa de modo completamente distinto do ensinado pela Teurgia não-hebraica. Não tem nada a ver com as formas místicas tratadas pelos psicólogos. Não tem relação alguma com o tipo que oferece, por exemplo, Eckhart, que é especulativo-visual, e se diferencia essencialmente do que exibem a mística cristã ou hindu. Com efeito, será mais correto falar de “misticismo”, ou seja, de vida cabalística judaica, que de “mística” (ou “teologia mística”), que não é mais que uma atitude especulativa mental. A Cabala busca a perfeição da alma pelo exercício das Virtudes Morais, que é o único modo de fazê-lo.

Religião e misticismo judeus não são disciplinas divorciadas, por mais que tenham pontos não comuns. Enquanto religião significa culto codificado, comum a todos os crentes com serviço de ofícios públicos, o cabalismo é a poesia medular da religião, reservada aos homens sensíveis ao mistério divino. O propósito do misticismo, em íntima instância, é conseguir que o homem venha a aderir-se, apegar-se a Deus, a integrar-se e consubstanciar-se com Ele.

O misticismo deve ser enfocado a partir de duas fases, uma teórica e outra aplicada.

A teórica é uma expressão abstrata, produto do pensamento místico legado por gerações ancestrais.

A aplicada é a que se ocupa de assuntos concretos por cujo meio resulta possível ao homem conectar-se com Deus e unir-se a Ele até sentir-se participando d'Ele.

O valor das letras do alfabeto hebraico e a prática de realizar combinações com elas e de suas equivalências numéricas, a formação de siglas e acrósticos, se enraizam profundamente na operativa do misticismo. Citemos apenas um exemplo do Talmud:

Disse Rav Yehuda de parte de Rav: sabia Betsalel fundir (combinar) Letras com as quais se criaram Céus e Terra.” [Beraĥot, 55]

O artífice bíblico Betsal'êl, de betsêl, “com sombra” e Êl, “Deus”, através da invocação divina, realizava misticismo aplicado.

[Nota - Ex. 31.1-5: “Yahveh falou a Moisés, dizendo: 'Eis que chamei pelo nome a Betsalel, filho de Uri, filho de Hur, da tribo de Judá. Eu o enchi com o espírito de Deus em sabedoria, entendimento e conhecimento para toda espécie de trabalho, para elaborar desenhos, para trabalhar em ouro, prata e bronze, para lapidação de pedras de engaste, para entalho de madeira, e para realizar toda espécie de trabalho.' (...)”]

A utilização esotérica dos Shemôth, “Nomes” [Divinos] para a obtenção de efeitos maravilhosos, juntamente com o emprego de fórmulas secretas, práticas ascéticas e entregas ao êxtase, são parte da técnica do misticismo. A paixão na fé e o fervor na oração podem causar no privilegiado cabalista um recolhimento até o grau de arrebatamento da realidade (um estado alterado [ou ampliado] de consciência, numa definição mais moderna) que o faz sentir-se iluminado de visões sobrenaturais e capacitado a produzir coisas ou estados estranhos.

A mística se desnivelou em certa medida no campo de tarefas do tipo ocultista que apareceram como resultado de influências estrangeiras. Entre estas desvirtuações, praticada com certo exagero, estão: a adivinhação de sonhos, a neutralização de espíritos demoníacos, os augúrios astrológicos e predições, etc., que tratava-se de conseguir mediante o manejo de amuletos, exercícios de necromancia (adivinhação através dos espíritos dos mortos, invocados em rituais específicos para este fim), revelações de abracadabras e outras artes milagreiras. O próprio Talmud condena estas formas de superstição com o epíteto de “costumes amorreus”, que utiliza como denominador para estas fontes extrínsecas, que produzia o meio circundante, e que deterioravam a própria imagem misticista. O Sefer Ha-Ĥasidim ataca, por sua vez, toda crença em magias e espiritismos. Com certeza, todo excesso leva a equívocos, fanatismos e superstições que dificultam separar a alma da casca...

O importante aqui é saber separar essas supertições da verdadeira Cabala e da Magia Prática (chamada também de Alta Magia) dela advinda. Há muito simbolismo em todas essas crenças, mas os ignorantes, não sabendo seu significado, encheram de seres demoníacos o ar, e a cada instante pensavam ser necessário um nome divino, um amuleto, um pantáculo ou um ritual específico para aplacá-los. Não sabiam que a grande maioria dos nomes angélicos ou demoníacos das obras da Cabala são simbolismos para conceitos muito mais profundos.

5 – Elementos místicos na Bíblia

Destaquemos os importantes elementos místicos que encontramos após uma análise cabalística na própria Bíblia. Já em seu começo, ela diz: “No princípio, Deus criou os céus e a terra... e o espírito de Deus se movia sobre a face das águas”. [Gênese 1.1,2] Este espírito não é outra coisa independente, senão que é Deus mesmo que se manifesta como Espírito (e em gênero feminino em sua versão original hebraica). Nos encontramos, pois, com típicos elementos de teofania mística, ou seja, descrições de aparição ou revelação da Divindade.

O fenômeno de Ma'aseh Bere'shith, “Obra da Criação”, isto é, a ação ou obra primitiva da Criação do Mundo, cheio de mistérios e interrogações, é básico no trabalho pensante místico que trata de sondar o que ocorre adiante e atrás, acima e abaixo, com referência à “Criação”. Nesta “cosmogonia” não há qualquer ação manual; não há utilização de matéria prima alguma; não aparece nenhum intermediário entre Deus (Criador) e o Mundo (Criação). Só há a ordem emanada do Todo Poderoso que com as 'Asaráh Ma'amarôth, “dez ordens ou mandados” ou Sefirôth, “emanações ou numerações”, criou tudo.

Rab Abraham Itsĥaq Kuk disse: “Todos sabem que a 'Criação' pertence aos mistérios da Torah [A Lei]. Por isso se reservou sua versão nas palavras “no princípio...”; o fundamental é o conhecimento de Deus e a vida ética – 'Igrôth Ha-Ĥayyáh).”

O espírito como “mediação” aparece quando Deus fala pela boca dos Profetas. Ouvimos o Salmista clamar: “(...) não te retires de mim Teu Santo Espírito.” [Salmo 51, versículo 13]

Deus se manifesta também em função de seu símbolo místico Mal'ákh, “anjo, mensageiro”, isto é, como um anjo (cfe. Gênese 16.7; 31.11; 48.16), ou assumindo a forma de seu Kavôd, que significa Honra ou Glória (cfe. Êxodo 24.16; Reis 1.8; Ezequiel 1.28). Deus se descobre a seus fiéis através do modo chamado Shekhinah, pronunciado como se fosse “sheĥinah” = “habitação” ou “morada”, o sinal místico da Presença Divina, denominado também Kevôd ha-Shekhináh = “A Honra ou A Glória da Habitação” ou Kanfê ha-Shekhináh = “As Asas da Habitação” ou Ziv ha-Shekhináh = “O Brilho da Habitação”).

Os anjos como emissários executando a vontade de Deus, é outro capítulo do inventário místico. Os anjos moram em especial no Hekhál, “Palácio” ou Ma'ôn, “Habitação”, um dos sete céus. Rodeiam a Deus agrupações de anjos chamados Serafim, Hayôt, Tsevaôt, etc. Dois anjos, além do principal Metatrôn, “diante do Trono”, segundo uns um nome técnico criado na Idade Média – que é Enoque – têm nomes próprios, e são: Mikhael, “Miguel”, o “Semelhante a Deus” e Gavriel, “Gabriel”, o “Varão de Deus” [Daniel 8.16; 22.1] O anjo do mal, que é Satanás (orig. em hebraico ha-Satán, “O Adversário”, traduzido pelo grego como “satanás”) [Zacarias 3; Jó 1; Crônicas 21], tem seu antecedente na serpente primitiva Naĥásh ha-Qadmôniy, “a Antiga Serpente” ou, mais corretamente, “a Antiga Astuta/Sábia”) de Gênese 3.1 e sua variedade nos espíritos maus e demoníacos Sheddíym, lit. “destruidores, opressores, subjugadores”, em Lilith, de láylah, “noite” e Ashmaday ou Asmodeus (Deuteronômio 32.17; Provérbios 30.15). Seni, Senseni e Smangalof são os anjos que cuidam da parturiente e de seu bebê da malícia de Lilith.

[Nota: O vocábulo Lilith provém de láylah, “noite”, que é quando precisamente tem poder, e seria equivalente aos Se'iyríym, demônios em forma de bode, de Levítico 17.7.]

Foram grandes realizações místicas: a subida de Enoque aos céus; a Aliança de Deus com Abraão; o sonho da escada de Jacó (por onde anjos subiam e desciam); o episódio da sarça ardente; o Monte Sinai; a elevação de Elias aos céus; como o foram também os acontecimentos relativos a todos os Profetas e as visões messiânicas. Fora Moisés, pai de todos os Profetas, assumiu uma situação mística particular Isaías, e mais ainda, Ezequiel. Isaías pôde observar visões concretas (em hebraico, lifnê velifníym) e o Trono de Deus (Kissê'); e Ezequiel, cuja vista perfilou a “Carruagem Celestial” (Merkaváh, lit. “carro”). De forte e original colorido místico são, por fim, as visões que registra Zacarias, como são de elevada inspiração as ocorrências de Daniel, com a assistência do anjo Gabriel.

[Nota: O Talmud previne quanto a Daniel em comparação, por exemplo, com Zacarias ou Malaquias, dizendo: “que estes são profetas, não assim Daniel, que não é” (Meguiláh 3), e o racionalista Maimônides se regozija assinalando que Daniel só viu sonhos por meio de Rúaĥ ha-Qôdesh, O Espírito Santo, que também pode ser traduzido como “O Sopro Santo” ou o “Fôlego Santo”.]

Ma'assê Bereshíth e Merkaváh foram pautas fundamentais na evolução da ciência mística hebraica pós-exílica e, especialmente, no período talmúdico, que vai até cerca de 500 d.C.. O Talmud assevera que: “não se estuda Ma'assê Bereshíth entre dois, nem Merkaváh a sós, a não ser que se fosse um sábio que compreenda por sua própria mentalidade”.

O ofício no Templo, a oferenda e o sacrifício; a pureza ritual e a santificação, foram elementos práticos que tornavam o misticismo aplicado, como foram também as manipulações do Shêm, “Nome [Sagrado de Deus]”, referência ao nome Yahveh, nome santo demais para ser pronunciado, e a percepção interpretada do 'Uríym veTummíym, “luzes e perfeições”, o oráculo bíblico, incrustado no peitoral do Sumo Sacerdote. O 'Uríym veTummíym funcionava como uma categoria de Rúaĥ ha-Qôdesh - O Espírito Santo, que é menos que a categoria de Nevu'áh, “Profecia”, mas superior à de Bath-Qôl, “Eco Celestial” ou “Voz Divina”, lit. “Filha da Voz [divina]”.

[Nota: Êxodo 28.30 - “Porás também no peitoral o Urim e o Tumim, para que estejam sobre o coração de Aarão quando entrar na presença de Yahveh, e Aarão levará sobre seu coração o julgamento dos filhos de Israel diante de Yahveh, continuamente.”]

Os autores do Talmud e do Midrash se ocuparam de desenvolver conceitos deístas. Um exemplo: Maqôm, “lugar”, expressão geométrica, como Nome de Deus. Misticamente falando, Deus é o Maqôm do mundo, mas o mundo não é Seu Maqôm, conforme as palavras de Rav Iosi ben Ĥalafta. No tratado “Baba Batra” (25), se fala de “shekhináh em todo maqôm” (Habitação ou Presença em todo lugar). Também sabemos que não há Maqôm livre de Shekhináh (Sanhedrin 39), isto é, não há lugar livre da presença divina, que se poderia formular racionalmente mediante estas equações algébricas:

DEUS – MUNDO = DEUS
MUNDO – DEUS = ZERO

Os anjos, que não discriminam referências espaciais por serem de categoria etérea e mandatária (meshartíym), perguntam:

'ayyêh meqôm kevôdo?

“Onde está o lugar da Glória?”

Já nós, terráqueos, distinguimos com nossos parâmetros intelectuais o conceito de Maqôm e dizemos:

melô' khól-ha-árets k'vodô.

“A Sua Glória enche toda a terra.”

Deus recebe Setenta e Dois apelativos diferentes que O designam de uma maneira distinta. No primeiro versículo do Pentateuco, Deus aparece como 'Elohíym, que é o plural de 'Eloáĥ ou de 'Êl. Os talmudistas referem-se a Qôl-Elohíym, “Voz de Deus” e Dibúr-Elohíym, “Fala de Deus”. São sete os Nomes de Deus que está proibido apagar (Sofrim IV); entre eles figuram Adonay (Meu Senhor), Tsevaôth (Exércitos), Shadday (Suficiente). Especial tratamento aplicaram aos Shemôth (“Nomes”) de Deus, com as desinências de hammeforásh, “O Explícito”, donde Shem hammeforásh, “semânforas” ou “clavículas de Salomão”, significando “O Nome Explícito”), ha-gadôl, “O Grande”, hammeyyuĥád, “O Particular” ou haqqadôsh, “O Santo”. São os Nomes de Deus que surgem das letras: de 2 letras, que é o Nome Yah (letras yod-hê), cujo valor numérico é 15; e de 4 letras ou Tetragrama: Yehováh (letras yod-hê-vav-hê), que vale 26. Esclarece o Talmud que “não se lê como se escreve; se escreve Yod-hê e se pronuncia Álef-bêth (Adonay) estes Nomes de Deus” (Kidushin 71).

Na prática usual, fora do ofício religioso, se pronuncia simplesmente ha-Shêm, “O Nome”. Rabi Aba bar Mémel distingue a Deus, ao qual faz manifestar-se assim: “Quando julgo as gentes Me chamo Elohíym; quando castigo os malvados se Me denomina Tsevaôth; quando observo os pecados do homem, Meu patronímico é El Shadday; e quando Me compadeço, Sou Ha-Shem” (Midrash). Os talmudistas não esclareceram o alcance dos Nomes de doze, quarenta e duas e setenta e duas letras que se formam além de empregar as Combinações de Letras, também com os valores das nequddôth, “pontuações, vogais”.

Os Nomes de 42 e 72 Letras poderiam ser derivações das Treze Virtudes de Deus, que são aclamadas em Êxodo 34.6-7: “Yahveh! Yahveh... Deus de compaixão e de piedade, lento para a cólera e cheio de amor e fidelidade; que guarda o seu amor a milhares, tolera a falta, a transgressão e o pecado, mas a ninguém deixa impune e castiga a falta dos pais nos filhos e nos filhos dos seus filhos, até a terceira e quarta geração.” O Nome Shadday contém uma insinuação ao mistério da vinculação entre Deus e os Patriarcas. Em Êxodo 6.3, lemos: “Apareci a Abraão, a Isaac e a Jacó como El Shadday; mas pelo meu nome, Yahveh, não lhes fui conhecido.” Recorde-se que no máximo serviço sagrado, que o Sumo Sacerdote oficiava no Santo Santuário o Sagrado Dia do Perdão, não teria feito mais que a invocação do Shem de quatro letras.

O misticismo encontrou logo seu desenvolvimento através dos livros apocalípticos. Na época dos macabeus foi cultivado pela seita dos Essênios, a ala esquerda dos Ĥasidím primitivos. Esta seita se havia proposto a materializar os ensinamentos místicos no espírito de: “Vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa.” [Êxodo 19.6] A terra de Israel foi destruída e com ela feneceu a seita essênia. A Shekhinah ou Presença Divina acompanhou o povo de Israel no desterro.

Filon de Alexandria, nascido em 20 a.C., judeu de educação helenística, mas possuído por íntimos sentimentos religiosos, lançou-se ao descobrimento de Deus e o encontrou misticamente no elogio do êxtase. Filon já se referia ao 'Adám Qadmôn, o racional superior criado por Deus à Sua imagem e semelhança, que antecede e difere do enfoque de Adão, pai de toda a espécie humana, que Deus formou com o pó da terra. Filon foi quem levou a “alegoria” ao máximo desenvolvimento.

A “alegoria” é o método de interpretação que desconhece o sentido imediato, objetivo-literal, das Escrituras, como se retirasse o manto envolvente superficial e descobrisse de seu interior outro significado, de sentido simbólico, velado em sua profundidade. Assim, por exemplo, no relato do paraíso de Gênese, para os alegoristas, o jardim é o cúmulo de virtudes; a árvore do conhecimento simboliza a inteligência; a serpente é a tentação; Eva é o fator sentimental e Adão o elemento de raciocínio. Em geral, em hebraico se conhece os alegoristas pela expressão Dorshê Reshumôth, “pesquisadores de registros”.

Na face prática, sustentava Filon que o homem está composto de corpo e alma e deve afastar-se de vãos luxos mundanos. Filon propõe que o homem se desprenda das roupagens voluptuosas e renuncie às falácias sensuais, que lhe impedem de consagrar-se plenamente à vida espiritual.

Em um estudo que, segundo parece, escreveu em sua mocidade, Filon expõe um argumento que tende a demonstrar a verdade do paradoxo estóico de que “somente o homem sábio é livre”, porque sustenta que o homem culto é aquele que faz voluntariamente o que é reto e justo. Tanto que, segundo a mesma tese, todo homem tolo ou mau é um escravo. A aludida soberania ou vontade “filoniana” deve entender-se como domínio das paixões e o seguimento a Deus.

6 – Princípios da Cabala

Em seus princípios, a Cabala estabelece que Deus é o Primeiro Ser no Universo, o Hamatsúy ha-Ri'shôn, “A Presença Primeira”, essência espiritual acima de todo entendimento e que escapa a todo raciocínio humano. A Deus não cabe nenhum qualificativo de dimensão, limites, comparação, variação, vontade, fim ou instinto, tempo, espaço ou potência, porque Deus é o Sumo em Perfeição e Infinito, e por isso se lhe diz 'Ên-Sôf, “Sem Fim, Infinito, Ilimitado, Sem Limites”. Essa visão da Divindade se aproxima intrigantemente da visão hindu do aspecto imanifestado de Deus, o Absoluto, chamado Parabrahman, que também não possui qualificativos e, por isso, é chamado de Nirguna (Sem Qualidades).

Sabemos que todo evento esporádico é caótico, e o mundo, ao contrário, é pura ordem, porque justamente não é casual, mas a obra do Criador. Deus, de 'Áiyn (“Nada”) o originou em Yêsh (“há; a existência”).

[Nota: Yêsh e Áiyn são concepções existenciais importantes na teoria do misticismo. O Yêsh importa que “há” o que “é”, de um modo objetivo, e cuja presença se manifesta sensorial ou intelectualmente. O Áiyn, ao contrário, implica o “não há” em sentido orgânico, isto é, onde a percepção regida pelos sentidos e/ou a inteligência já não consegue registrá-lo de maneira alguma. O Áiyn seria o substrato recôndito, de imponderável essência celestial, que impulsiona energia criadora, e que só pode ser enfocado por certa captação espiritual e divina de almas puras capazes de neutralizar o Yêsh. Para o cabalista, esta alienação de seu “ego” não supõe masoquismo nem contradiz o livre-arbítrio do homem, mas é uma idéia básica do misticismo hebreu.]

Mas, como da Perfeição Espiritual se engendrou o material e finito? A Cabala responde a isso com sua teoria de Sefiyrôth, “Numerações” ou “Esferas” - exposta pela primeira vez no Sefer Yetsiráh -, que se encontram refletidas na oração sabática matutina “El Adôn” (Deus Senhor).

As Sefiyrôth são dez exatamente: três na ordem Sékhel, “Inteligência”; três na ordem Néfesh, “Alma”; e quatro em Teváh, “Natureza”.

As Sefiyrôth – fundamentais para a existência – foram chamadas pelos cabalistas com as designações e na ordem que segue:

I - Kéther: Coroa; turbante; ornamento.
II – Ĥókhmah: Sabedoria; habilidade técnica; experiência.
III - Biynáh: Compreensão; inteligência; entendimento, discernimento.
IV – Ĥésedh: Fidelidade; benevolência; bondade; piedade; graça.
V – Gevuráh: Vigor; força; poder; valentia.
VI - Tif'éreth: Beleza; glória; honra; magnificência.
VII – Netsáĥ: Eternidade; fulgor, glória.
VIII – Hôdh: Esplendor, majestade, vigor.
IX – Yesôdh: Fundamento, alicerce, base.
X - Malkhúth: Reino, reinado; domínio; realeza.

Deus instrumentou as Sefiyrôth como se fossem canais que descobrem Seus efeitos. São dez emanações, dez sublimações, dez roupagens, dez categorias ou escalas de evolução, embora não haja unanimidade de critério quanto a se as Sefiyrôth são autárquicas em sua essência, ou não são mais que variações caleidoscópicas da Fonte que é o 'Ên-Sôf.

Atualmente há cabalistas que percebem a semelhança da noção mística das Sefiyrôth e das mais modernas teorias da Física, como a Mecânica Quântica e a Teoria das Supercordas. Dizem, inclusive, que as dez Sefiyrôth da Cabala correspondem às 10 dimensões espaciais da Teoria das Supercordas. Como a versão mais recente prevê 11 dimensões (10 espaciais e uma temporal), há ainda um paralelo possível, já que haveria uma 11ª Sefirah, chamada Dá'ath, “Conhecimento”, escondida entre a 3ª e a 4ª Sefirah, ou seja, entre a 1ª e a 2ª Ordem.

Deus emanou de Si a primeira Sefirah, Kéther, que se passou também a chamar de Rôm Ma'aláh, “Grau Elevado” e também de Ratsôn, “Vontade”: fazer Sua Vontade, segundo a tese filosófica de Schlomó ben Gabirol. Desta Sefirah sublimou-se a segunda e desta a seguinte, e assim sucessivamente. De modo que cada uma das Sefiyrôth é de menor importância que a precedente, ainda que todas funcionem só por influência divina. As três primeiras têm também, segundo muitos cabalistas, uma especial primazia de emanação sobre as sete restantes. Com as três primeiras (o Triângulo Divino), uma vez tendo sido emanadas, Deus não se serviu mais, circunstância chamada Sheviyráth ha-Kelíym, “ruptura de instrumentos”.

A Cabala concebe metafisicamente quatro estados na constituição do Universo. Dito em outras palavras: quatro Mundos concorrem em sua formação. São níveis constitutivos e ao mesmo tempo cosmogônicos. São eles:

I – 'Atsiylúth, “Emanação” – do verbo 'atsál, “retirar”;

II – Beriy'áh, “Nascimento” - do verbo bará', “criar”;

III – Yetsiyráh, “Criação” ou “Formação” - do verbo yatsár, “formar, moldar”;

IV – 'Asiyáh, “Realização” - do verbo 'asáh, “fazer, realizar”.

De 'Ên-Sôf emanaram as Dez Sefiyrôth que constituem o Mundo de 'Atsiylúth. Abaixo se acha o Mundo de Beriy'áh, que é existencial como se fosse um quadro negro pronto para receber a escrita; é o Mundo das idéias criadoras, da forja de Yêsh a partir de Áiyn; é o Mundo que contém os palácios e o trono divino e onde se encontram almas piedosas. A acusação de formas e de ordem pertence ao Mundo de Yetsiyráh; é o Mundo das dez classes de anjos, é o mundo das coisas espirituais (sua formação se aproxima da teoria atomista). O engrossamento ou densificação maior da matéria até efetivar sua relidade nos traslada ao Mundo de 'Asiyáh; é o nosso mundo ordinário, que se costuma chamar 'Olám ha-Shafêl, “O Mundo Inferior”, todo o Yêsh materializado e concreto.

Mas tudo se encontra potencialmente em 'Ên-Sôf, e o influxo da vontade de Deus, em sua unicidade absoluta, é o que impulsiona sempre a tudo, disposto em suas respectivas graduações. De modo que o estrato mais inferior também existe só por desígnio divino. O homem enlaça os Mundos por seu amor a Deus. O amor é o laço supremo entre a alma do homem e Deus.

O ente ou energia anímica que chamamos comumente “alma” se compõe também de várias categorias, a saber:

I - Néfesh: A “Alma Vivente” [tradução mais adequada], no entender do relato de Gênese, a qual impele todo objeto da Criação e se reflete no Mundo de 'Asiyáh;

II - Rúaĥ: O “Sopro” [também “fôlego” ou “espírito”], que pulsa nos vegetais e nos animais, e que é de ordem do Mundo de Yetsiyráh;

III – Neshamáh: A “Alma” própria somente do homem [portanto, podendo se traduzir por “Alma Humana”], concernente ao Mundo de Beriy'áh;

IV - Ĥayyáh ou Yeĥiydáh: “Vida” ou “Unidade”, que inspiram somente a homens superiores em qualidade ética-espiritual. Seria a “Alma dos Perfeitos”, numa concepção gnóstica. Por sua natureza, estaria relacionada ao Mundo de 'Atsiylúth e poucos homens teriam acesso a esta categoria de alma.

A escatologia se ocupa das doutrinas acerca das coisas futuras, ou seja, do estudo da crença na imortalidade da alma, de seu juízo, retribuição e pena, e se refere à vida pós-morte e ao fim último da existência humana, que em hebraico se designa Teĥiyáth hammethíym, “ressurreição dos mortos”) e Hasha'a´rath hannéfesh, “subsistência da alma [vivente]” ou sua imortalidade.

Nada disto reza expressamente na Bíblia, fora o que deixa transparecer por um prisma místico o fato narrado no capítulo 37 de Ezequiel (os ossos secos que foram novamente revestidos de carne, que muitos interpretam erroneamente de modo literal).
Também ouvimos Ana (a mãe do profeta Samuel) orar a Deus: “(...) É Yahveh quem faz morrer e viver, faz descer ao Sheol [o Reino dos Mortos] e dele subir.” [1 Samuel 2.6]

Rabi Gamliel (Sanhedrin, 90) vê na expressão de Deuteronômio 31.16, um indício de Teĥiyáth hammethíym na Torah: “Yahveh disse então a Moisés: 'Eis que vais descansar com os teus pais, e este povo se levantará para se prostituir com os deuses da terra estrangeira em que está para entrar. Ele vai me abandonar, rompendo a aliança que com ele concluí.” Muito do conteúdo escatológico se deduz lendo com lente mística as proposições de parágrafos bíblicos.

Citemos como exemplos algumas frases:

Os teus mortos tornarão a viver, os teus cadáveres ressurgirão. Despertai e cantai, vós os que habitais o pó, (...) e a terra dará à luz sombras” (Isaías, 26.19);

(...) e com tua Glória me atrairás” (Salmo 73.24).

Neste caso, o místico faz uma manifestação de fé de que Deus se ocupará dele depois da morte, como em vida. Não se detém em imaginar o que é a morte; lhe basta estar ligado a Deus. Concebe a Deus como Eterno, e como ele se considera parte de Deus, por simples caráter transitivo lhe é fácil concluir que algo desta parte que lhe concerne continuará imortal.

Os livros apócrifos trazem esta crença de forma clara. No Segundo Livro dos Hasmoneus, disse sobre isto o terceiro dos sete filhos imolados: “Deus, estes membros de meu corpo que Tu me deste, sacrifico pela Santa Torah, e espero que me sejam devolvidos depois de minha morte.”

7 – O Sefer ha-Yetsirah

O Sefer ha-yetsirah, “O Livro da Criação” ou, mais corretamente, “O Livro da Formação”, é a obra mais antiga de ordem puramente mística. Também conhecido apenas como Sefer Yetsirah, sua autoria chegou a atribuir-se ao próprio patriarca Abraão, mas seguramente não é posterior à Mishnah do Talmud.

Seu texto original, confuso e cheio de erratas, é de uma sintaxe difícil e emaranhada. Se compõe de três temas, a saber:

1º – A influência dos feitos de Deus;
2º – O homem (microcosmos) e sua relação com o macrocosmos;
3º – A combinação de letras.

As Dez Sefiroth ou Numerações junto com as 22 letras hebraicas são as Trinta e Duas Vias ou Caminhos da Sabedoria, que convergem ou se unem em sua fonte comum, em 'Elohíym, “Deus”. Os números e as letras, segundo este livro, não são apenas símbolos, mas as formas de todo o Existir e as bases do Universo. Os 10 números primordiais, similares aos 10 dedos, onde 5 estão frente a 5, referem-se aos 10 atributos infinitos e que correspondem a Deus, amo único.

O conjunto fundamental das 22 letras se compõe de:

- 3 principais, que refletem os elementos: terra (e ar, juntos), água e fogo;
- 7 de pronúncia dupla, uma débil e a outra forte, que representam os antônimos: vida e morte, paz e desgraça, sabedoria e necessidade, riqueza e pobreza, cultivo e desterro, graça e repulsão, poder e servitude;
- 12 letras simples, que representam os 12 signos do Zodíaco.

A numeração imagina também a representação dos pontos cardeais, dos órgãos humanos e suas atividades psico-sensoriais, dentro de sua simbolística.

O Talmud menciona várias vezes o Sefer Yetsirah e o exegeta simplicista Rashi também comenta nestes casos os Tsirufim (combinações das letras, uma importante operação mística da Cabala) conseguidos por intermédio de seu estudo. O Dr. Neumark considera que o Sefer Yetsirah teve intensa repercussão e profunda influência sobre os cabalistas do século XIII.

8 – O Sefer ha-Baĥir

O Sefer ha-Baĥir, “O Livro Brilhante” é um pequeno volume, cuja autoria é atribuída ao tanaíta Rabi Neĥunia ben ha-Kana. Segundo parece, sua última redação deu-se em Lunel, Provença, onde viveu Rabi Yaakov ha-Nazir.

Constitui um Midrash, isto é, um conjunto de narrações e homilias, que se encontra ordenado e redigido de modo muito débil. Os protagonistas são muitos dos tanaítas e amoraítas talmúdicos e figuram muitos outros com nomes fictícios.

Exíguo no número de páginas, é rico em conteúdo místico. Muito curioso é a grande quantidade de exemplos que traz, às vezes pouco claros ou ininteligíveis e outras vezes paradoxais.

O Sefer Baĥir afirma que as nekudot (pontuações ou vogais hebraicas) são para as letras como a alma para o corpo humano. Em geral, emprega um léxico simbolístico e uma terminologia rica em vocábulos interessantes por sua evolução técnica. Contém algumas variações daquilo que se encontra no Sefer Yetsirah.

9 – O Sefer ha-Zohar

O Sefer ha-Zôhar, “O livro do Resplendor”, atualmente muito em voga, e que se converteu na obra clássica do misticismo, foi denominado pelos diferentes cabalistas com diversos nomes, a saber: Midrásh Yehí Ôr (“Comentário do 'Haja Luz'), Midrásh ha-Zôhar (“Comentário do Resplendor”), Ha-Zôhar ha-Gadôl (“O Grande Resplendor”), e se difundiu com o título de Ha-Zôhar ha-Qadôsh (“O Santo Resplendor”) ou simplesmente Zôhar, “resplendor”.

Inspira-se o título no versículo de Daniel 12.3, que diz: vehammaskilíym yazhíru kezôhar haraqíyaĥ (“Os que são esclarecidos resplandecerão, como o
resplendor [zôhar] do firmamento.”)

As primeiras impressões da obra foram feitas em Mântua e Cremona, no ano de 1558, e logo em Amsterdã em 1642, seguidas de inúmeras edições.

O conceito fundamental do Zohar é que toda a Torah, seus mandamentos, ordenanças e relatos têm propósitos superiores e misteriosos que constituem sua própria alma, e o estudo e a leitura do Zohar, por si só, permite elevar-se em santidade.

O Zohar se compõe de cinco partes. As três primeiras correspondem a comentários ao Pentateuco; a quarta, é de complementos que se conhecem como Tikunê Zôhar e traz considerações acerca do vocábulo Bere'shíyth, “no princípio”, que inicia a Bíblia; a quinta e última parte é o Zôhar Ĥádash, que é uma coleção de complementos e estudos dos cinco Megillôth, “rolos”: Cântico dos Cânticos, Ruth, Lamentações, Eclesiastes e Esther.

Os místicos crêem firmemente que o espírito do Zohar reconhece a mesma origem que a Bíblia e o Talmud. O Sinai seria o ponto comum de partida para os três: a Bíblia, o Talmud e o Zohar. Atualmente o “culto” ao Zohar está retornando com força através de grupos de cabalistas judaicos sediados especialmente nos EUA. Para estes grupos, o simples ato de passar os olhos sobre uma página do Zohar em hebraico, mesmo sem entender uma palavra, já produz resultados redentores (?). Esta crença é muito controversa!

Na realidade, muitos dos ditos do Zohar são repetições de coisas que se encontram no Talmud e nas Homilias; só que aqui recebem uma nova luz. Com suas raízes antigas e profundas, tem ramos novos e numerosos em sua copa. Ao longo do tempo sofreu agregados que se incorporaram a sua primitiva redação, chegando a fundir-se e integrar-se numa só obra.

O Zohar menciona vários livros e em seu contexto traz citações dos mesmos; alguns destes livros são conhecidos, ou não, como, por exemplo, o “Sifrá Ditsiníuta” (cuja autoria se atribui a Jacó). O Zohar se refere também a personalidades que em sua maioria são os mesmos protagonistas da Bíblia e do Talmud, só que aqui adquirem dimensões misteriosas e são tratados com uma insólita dispensa dos fatores de lugar e tempo. É que no Zohar estes dados são considerados de um modo muito relativo, e é muito elástico na colocação dos fatos.

O importante é o espírito que injeta nas letras, o vigor que insufla nas palavras e a alma que inflama na Torah. O Zohar agrega santidade ao santo e sumo espírito ao espiritual. Ademais, sustenta e incentiva o homem para convertê-lo em um participante ativo no processo universal, ensinando que cada boa ação inclina a vontade divina em direção a emanações benéficas.

10 – O Autor do Zohar

Segundo a tradição mística, o Zohar foi escrito por Rabi Shimon ben Yoĥay (conhecido pela sigla Rashbi) e por seu filho Rabi Elazar em sua permanência na cova durante 13 anos. Os alunos de Rabi Shimon reuniram suas diferentes partes em um só livro 40 anos depois da morte de seu mestre.

O cabalista Rabi Moshe ben Shem Tov de León (1250-1305) achou os originais do Zohar e lhes deu publicidade. Esta versão não foi aceita por todos e encontrou resistência por parte de muitos investigadores:

- O Rabino Iaacov Emden sustenta que o Zohar é de Rabi Shimon ben Yoĥay, mas reconhece que também contém agregados de épocas posteriores, especialmente expressões próprias do período espanhol e que é difícil separá-las do texto primitivo.

- Segundo H. Graetz, A. Geiger e outros estudiosos, o autor do Zohar é o próprio Moshe de León, pois sua viúva haveria atestado neste sentido.

- O erudito Rabi David Luria demonstra com argumentação assaz convincente que não poderia ser Rabi Moshe de León o autor do Zohar.

- Hilel Zeitlin, em um minucioso estudo, chega a concluir que Rabi Shimon ben Yoĥay e sua plêiade legaram a seus seguidores as bases do misticismo no idioma aramaico usado naquela época. Logo se fizeram comentários que foram fundidos com o primitivo original numa só obra. Assim até a época de Rabi Moshe de León, que reuniu todo este material, dando-lhe a redação final, mas conservando suas características antigas.

- Margolis e Marx dizem, em sua “História do Povo Judeu”: “A composição nos assegura que o Zohar não poderia ser obra de uma só pessoa ou de uma geração. Seu conteúdo crescia, simplesmente, com o tempo, até que Moshe de León deu-lhe publicidade.”

11 – Misticismo judaico na Europa até o Século XVIII

O misticismo passou do Oriente (particularmente da Babilônia), através da Itália, à Europa e se difundiu na Alemanha e na França. Na Itália, eis os nomes dos principais místicos:

- Abu Aarón Ben Shmuel Hanasí, de Babilônia (atual Iraque);

- Shaftía, poeta e místico, aluno de Abu Aarón – viveu até 886;

- Shabetái Ben Abraham Donnolo (913 – 982), da Itália Meridional.

Desde a segunda metade do século XII o judaísmo europeu começou a sofrer maiores perseguições, que o condenou a grandes sacrifícios. Esta situação se reflete no estado de ânimo e nos sentimentos íntimos dos judeus que ficaram predispostos ao misticismo ético. O amor a Deus e a santificação de Seu Nome são ideais que logram multiplicar seus adeptos, em uma época marcada pela barbárie.

O livro mais popular, de elevada ética social e individual, que se encontra nesta época é o Sefer ha-Ĥasiydíym, “O Livro dos Piedosos”. Este livro, impresso em 1538, não é de uma só peça nem de um só autor, mas é a feitura de várias gerações; produto do folclore acumulado, que havia absrovido em si as esperanças, crenças, contos e fantasias do povo.

Segundo este livro: a raiz da Torah consiste na prática religiosa, e a oração entendida e consciente supera as boas ações, sendo a devoção a essência da oração.

Os redatores finais do Sefer ha-Ĥasiydíym foram os místicos Rabi Shmuel Ben Klônymus, nascido em 1116, um cabalista admirado que levou uma vida santificada, e seu filho, Rabi Yehuda Haĥassid, falecido cerca do ano de 1200, que ampliou o livro com agregados de sua própria colheita.

O discípulo mais conhecido de Rabi Yehuda Haĥassid é Rabi Elazar Ben Yehuda (falecido em 1238), de Worms. Escreveu as obras: “Roqêaĥ” (lit. “Farmacêutico”), “Sôd Sêĥel” (lit. “Segredo da Inteligência”) e “Raziel” (nome de um anjo – Ratsiel, “Minha Vontade/Razão é Deus”). Nelas, sustenta que a razão humana não é suficientemente apta para definir a essência de Deus, porque o homem é capaz de analisar apenas o que é possível comparar e o que está submetido às leis de tempo e espaço. Rabi Elazar é um pioneiro da Cabala Aplicada e manipulava com combinações de números e letras; se dedicava à astrologia e se entregava à exaltação das orações.

Rabi Abraham Ben David ha-Levi (1110 – 1180), conhecido como “Rabed Primeiro”, é o autor da obra “Sefer ha-Qabalah” (1160), “O Livro da Transmissão”, depois renomeada como “Emuná Ramá” (“Crença Elevada”). É um trabalho apologético que pretende conciliar a religião com a filosofia ou a divergência entre a tese de “Deus que sabe de tudo” (Onisciente) e a crença no “livre-arbítrio do homem”.

O “Rabed” divide os preceitos ordenados em cinco classes, a saber: 1º) religiosos; 2º) morais-éticos; 3º) civis e trabalhistas; 4º) comerciais e sociais; 5º) não submetidos a racionalismo algum.

Rabi Abraham Ben Itsĥak (1110 – 1179), conhecido como “Rabed Segundo”, é autor de muitas obras que se perderam. Entregou a seu filho, Rabi Itsĥak Saguí-Nahor, os segredos cabalísticos que recebeu do Profeta Elias.

Saguí-Nahor, o suposto autor do Sefer ha-Baĥir, escreveu apenas livros sobre Cabala. Como era cego, diz a tradição que, com sua vista espiritual, pressentia a qualidade da alma daqueles que se aproximavam, e sabia sondar seu destino.

Sua força era a profunda meditação e a intensidade de suas orações. A intenção consciente na oração serve para materializar o apego a Deus. Na ascensão do segredo divino, Saguí-Nahor reconhece três graus, que são: Ên-Sôf, “O Infinito”, Maĥshaváh, “O Pensamento” e Dibúr, “A Fala”, com sentido próprio na terminologia usada. Ele encontrou no Livro de Jó (28.12) a tese das Sefiyrôth e sua origem a partir de Áiyn:

A frase interrogativa

vehaĥókhmah me'áiyn timmatsê', “mas a Sabedoria, donde ela provém?”,

ele transforma em enunciação afirmativa:

E o saber de Áiyn encontres.”

Embora Saguí-Nahor se sirva do termo Sefiyrôth, prefere utilizar a acepção de Diburíym, “palavras, Logos”. Considera que a mística do idioma é também a mística de sua escritura e de suas letras.

Os principais alunos de Saguí-Nahor foram Rabi Ezra Ben Shlomó e Rabi Azriel (1160 – 1238), mestre de Naĥmánides.

Azriel considerou a Deus como o “Um Sem Fim” a Quem pode conhecer-se pelos atributos negativos; a Deus não se deve adjetivar com designações positivas. Deus é invariável e imutável porque está acima de todo conceito e enfoque humanos. Essa idéia se assemelha muito à noção hindu (no Vedanta) do aspecto Impessoal do Absoluto, o Parabrahman.

Importante é citarmos duas obras muito antigas, mas que só foram impressas no final do século XVIII: o “Sefer ha-Plía” (O Livro da Maravilha) e o “Sefer ha-Kaná” (O Livro de Kaná). Seu autor seria o tanaíta Rabi Neĥunia Ben ha-Kaná, que afirma ter escrito as obras no ano 4000 do calendário hebreu (que corresponde ao ano 240 d.C.), mas é provável que não remontem além do século XIII, e seu autor seria um judeu da Espanha ou da Itália.

Sabemos que ninguém constrói sem antes proceder à demolição prévia do anterior, fazer uma limpeza e efetuar logo os preparativos para a obra nova. Assim também, estes livros destroem o velho para levantar o edifício novo. Por isso o mestre Kaná adverte aos discípulos que cuidem bem para que estes dois livros não caiam em mãos profanas, que os considerarão simplesmente obras destrutivas, quando o que realmente importa é mudar os esquemas velhos conhecidos para trocá-los por estruturas novas, fortes e perfeitas em sua mística secreta. A operativa cabalística se aprecia na justa manipulação das Trinta e Duas Vias de Sabedoria, que é o somatório das Dez Sefiyrôth mais as Vinte e Duas Letras do alfabeto hebraico, que formam os Canais de comunicação entre as Sefiyroth.

Veja-se que a adição da primeira letra do Pentateuco (b) – o “B” - mais a última (l) – o “L” - formam o algarismo 32, segundo a equivalência numérica.

[Nota: A primeira palavra do Pentateuco é Bere'shíyth, “no princípio”, Gênese 1.1; a última palavra é Yisra'el, “Israel”, Deuteronômio 34.12. O b (bêth) e o l (lámed) formam bal, “não”. Isto pode formar a seguinte frase misteriosa:

(Bere'shíyth bal Yisra'êl, “No princípio não [havia] Israel”).

Juntando ainda a última letra de Bere'shíyth (o t) e a primeira de Israel (o y), formamos a seguinte frase oculta:

(Bere'shíyth Yisra'êl biltíy, “No princípio, Israel não existia!”).]

Ha-Plía e Ha-Kaná derrubam a simplicidade literal na exegese bíblica, derrubam o plano e a importância do sentido explícito, para edificar a imponência mística e erguer os artifícios simbólicos da Cabala. Condenam os sábios do Talmud que interpretaram literalmente expressões da Bíblia sem haver achado nelas o espírito intrínseco, profundo e oculto que guarda seu sentido místico.

Rabi Moshe Ben Naĥman, também conhecido por “Ramban” ou “Naĥmánides” (1194 – 1270), negava a filosofia como verdade absoluta, considerando como firme apenas a doutrina religiosa que surge da Bíblia e do Talmud. Para ele nada era mais essencial que a crença na Criação a partir do Nada, a providência divina e a onisciência de Deus. Quando lhe perguntaram qual é o serviço a Deus, sua resposta rápida foi: “Tudo aquilo que contém deleite de alegria junto com temível respeito.”

Depois da expulsão dos judeus da Espanha, em 1492, os cabalistas levaram consigo o misticismo à Itália e ao Oriente.

Alguns deles são:

Rabi Meir Ben Yeĥezqel Ibn Gabay: Nasceu na Espanha, em 1480. Refugiou-se na Turquia. Seu livro principal é “Avodath Ha-Qôdesh”, no qual expõe sua teoria de forma ordenada, ilustrando o contraste entre a filosofia grega e a visão judaica do mundo ao referir o desenvolvimento da mística judaica. Opondo-se a Maimônides, sustenta que a inteligência humana não é suficiente para captar os segredos da Torah e de seus preceiros. Só a Qabalah é o implemento ideal para o saber verdadeiro.

Eliahé Ben Moshe de Vidasch: É o autor do livro Re'shíyth Ĥókhmah, “Princípio da Sabedoria”, composto de cinco partes: Temor, Amor, Arrependimento, Santidade e Modéstia (uma verdadeira apresentação graduada da Senda Espiritual!). Vidasch sustenta que o homem deve munir-se de três dotes essenciais para melhor servir a Deus, que são: Fé, Seguridade e Alegria. Não renega a vida, mas pretende santificá-la mediante a observação dos preceitos. Em cada preceito encontra santo misticismo. Segundo Vidasch, são três os gozos que auguram a felicidade do “mundo vindouro”, a saber: o Sol, a Torah e a união do homem e da mulher.

Rabi Yitsĥak Luria (1534 – 1572): Chamado o “Ari” (lit. “leão”), renovou a Cabala ashkenazi. Acreditava na Cabala com uma simplicidade natural. Em tudo via um processo de Gilgúl, isto é, de reencarnação de almas que reaparecem em outra geração, à procura de lograr o “Olám ha-Tikún”, isto é, o Ciclo de Realização ou Mundo de Aperfeiçoamento (acreditava que o Profeta Elias havia reencarnado como Rabi Akiva, o autor do Sefer Yetsirah).

Esta migração de almas (metempsicose) depois da purificação reconhece no sistema luriano, ademais, outro tipo de Gilgúl, que é o “Ibúr”, e que serve para apressar o processo. Consiste em que, já nascida a pessoa, lhe ingressa outra alma mais (é um caso de impregnação de alma), de forma que funcionam duas ou mais repetidas, para expiar determinada infração ética cometida em uma encarnação anterior.

[Nota: Como se pode ver, a escola luriana de Cabala é claramente “reencarnacionista”, algo inicialmente inconcebível num ambiente judaico. Contudo, várias pesquisas modernas demonstram que a idéia de retorno ou renascimento não era algo tão estranho assim aos antigos povos da Palestina. Luria apenas parece ter resgatado essa antiga noção que, no Oriente é explícita, mas no Médio Oriente e no Ocidente ficou implícita em textos ocultos de natureza judaico-gnóstica.]

Mediante estes processos de correção se conseguirá, na visão de Luria, a vinda do Messias, que não tem possibilidades de vigência enquanto não se separe o santo do profano e se resgatem as Nitsotsôth Qedoshôth, “Centelhas Sagradas” de seu envoltório. A cessação do anarquismo e o reinado de Deus se procurará – segundo estes ensinamentos – mediante a renúncia aos caprichos materiais, praticando-se uma vida ascética e cultivando o bem.

No século XVI se difundiu o cabalismo aplicado luriano na Polônia, que superou o misticismo completamente filosófico sefardita, através do trabalho de Rabi Israel Srok.

Alguns dos nomes destacados desta época foram:

Rabi Matitiahu Ben Shlomó Delucrat: Explicou que Deus é anterior a tudo, e que é a Causa de todas as causas. Segundo seu pensamento, as virtudes estão condensadas em Deus e desde a Criação mostra sua Glória aos povos, através das Dez Sublimações.

Rabi Ieshaia Ish-Hórovitz (1570 – 1630): Acreditava que quem não consegue ser iluminado pela disciplina da Cabala, não viu ainda qualquer luz em sua vida.

Rabi Shimshon Ben Pesaĥ, de Ostropoli: Entendia que as ciências secretas se devem ensinar somente aquelas pessoas que possuam virtudes excepcionais.

Em finais do século XVII se reuniram sob o nome de Ĥevráth Ĥasiydíym, “Companhia de Piedosos”, muitos judeus que, mediante práticas ascéticas, acreditavam poder adiantar a vinda do Messias. Rabi Iehuda Ĥassid encabeçou este grupo, que acabou fracassando. São conhecidos comumente como Judeus Piedosos ou Judeus Hassídicos.

O objetivo dos partidários desta corrente era introduzir-se no Pardes, “pomar, parque, jardim ou laranjal”, erroneamente traduzido por “Paraíso”, o Pomar do Saber, guiados pelo modelo que é a figura de Rabi Akiva, o suposto autor do Sefer Yetsirah, segundo a Tradição cabalística.

O misticismo conseguiu através do Hassidismo, passar por um processo de filtração que o tornou popular, eliminando a apreensão e o enclausuramento. Fundou tudo sobre o amor e a solidariedade do homem para com Deus e com os semelhantes.

Esta categoria de amor a Deus caracteriza o misticismo judeu. Busca elevação ética e pureza no proceder do homem. Os cabalistas não são “religiosos” enclaustrados em monastérios, somente dedicados a seu Deus. Os cabalistas são homens obrigados pelos preceitos e a justiça, que convivem na sociedade e sentem a preocupação de ativar a pronta liberação messiânica do gênero humano, ungidos por íntima vocação para o bem.

Quanto ao indivíduo em si, deve ter presente para sua correta orientação as duas faces da moeda. Numa se poderia ler: “para mim foi criado o Mundo”, e na outra: “e eu sou pó e cinza”. O prudente emprego de ambas as enunciações há de servir como ótima guia na vida do homem.

Segundo o Pirkê avôt (V,10), o homem piedoso é o que manifesta:

O que é meu é teu, e o que é teu é teu.”


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