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quarta-feira, 19 de março de 2014

O Código Secreto da Bíblia é profético ou cabalístico?


(Trecho do livro “Curso de Cabala – com noções de Hebraico & Aramaico – vol. II”, de Paulo Stekel - saiba como adquirir acessando: http://stekelmusic.blogspot.com.br/2013/10/livros-de-stekel-e-books-em-pdf.html)


Relações da Bíblia com a Cabala

O povo hebreu nunca se destacou de fato por seu interesse em matemática. Mas, na Bíblia, percebemos um grande interesse pelos números e seu uso simbólico, especialmente pelo Sete, utilizado com frequência, mas sem que se explique seu significado ou se atribua este interesse a algo em particular. A Cabala, que significa "tradição", inicialmente denominava todos os escritos recebidos, exceto a Torah (Lei ou Pentateuco). Na Idade Média, seu uso começou a restringir-se, passando a referir-se ao conjunto de doutrinas secretas judaicas que pretendiam explicar o universo na base de uma complexa filosofia espiritual atribuída aos profetas e patriarcas. Ainda que os cabalistas se apoiassem em elementos tradicionais judaicos, suas ideias não foram aceitas por todos.

Os livros fundamentais da Cabala são o Zohar (séc. XIII) e o Sefer Yetsirah (séc. IX). Contudo, suas origens remontam à interação complexa de filosofias místico-ocultistas que estuveram na moda no final do império romano e, em especial, na famosa Alexandria. No entanto, seu apogeu deu-se na Idade Média. No Renascimento, sua influência estendeu-se ao cristianismo, já que muitos pensaram ver refletidas na Cabala verdades cristãs (a Trindade, o Messias, etc.), e alguns cabalistas se converteram ao cristianismo. O interesse por estes estudos chegou até os papas.

Nota sobre a língua hebraica: O hebraico, antiga língua semítica que guarda parentesco com o cananeu e o fenício, possui um alfabeto de 22 consoantes (as vogais não são escritas, como já sabemos). Como em outras línguas antigas (grego, árabe), cada letra tem um valor numérico.

Até a Idade Média, o hebraico era escrito de forma contínua, sem separação de palavras nem parágrafos. Como outras línguas antigas, tem um vocabulário reduzido (umas quinhentas raízes e cinco mil palavras) e uma elevada polisemia (cada palavra pode ter múltiplos significados). Em um texto assim, é fundamental termos em conta sempre o contexto. Isso é tarefa para os exegetas e para os cabalistas.

A metodologia cabalística

A Cabala tem conexão com uma forma particular de ver o texto da Torah, sem a qual, as metodologias cabalísticas que se aplicam a seu estudo, não teriam muito sentido. Para a Cabala, a Torah é um grande código misterioso no qual, tão ou mais importante que a mensagem do texto, são as palavras, as letras, as formas das letras, etc. Por isso, o cabalista não pode simplesmente ler a Bíblia. Tem que decodificá-la, descobrir seus mistérios ocultos, mediante uma hermenêutica esotérica iniciática [ver nota sobre Hermenêutica, adiante].

O cabalista moderno A. D. Grad afirma:
(...) a tradição ensina que a ordem dos parágrafos da Bíblia não é a verdadeira ordem, pois esta só a conhece o Senhor do Universo, uma vez que, de outro modo, todo aquele que a lesse poderia criar um mundo, dar vida aos mortos e fazer milagres, (...).”

Daqui, é um passo para a concepção de dois níveis de leitura bíblica: a superficial das pessoas comuns (exotérica) e a profunda dos iniciados (esotérica), como ensina o Zohar. Desta forma, temos as duas idéias fundamentais para compreender o trabalho do cabalista: a Bíblia é um grande código e esse código está oculto, desordenado e entranhado no texto. Esta última ideia reforça mais o caráter iniciático do que a própria noção de código da primeira produz por si mesma. A atenção do cabalista não se limita a ler o texto bíblico a um nível mais profundo, mas a ler um "outro" texto que está oculto dentro da Torah (parte da Bíblia cristã, constituindo a "Bíblia judaica" – por isso, neste texto por vezes escrevemos Torah e, por vezes, Bíblia). Para isso, o cabalista utiliza vários procedimentos: Gematria (cálculo do valor numérico das palavras), Notarikon (formação de acrósticos com letras iniciais ou finais das palavras de um texto) e Temurah (mudança da ordem das letras de uma palavra ou decomposição desta em outras novas).

Uma das coisas que chamam a atenção nesta forma de hermenêutica é que, diferentemente da hermenêutica usual, não se leva em conta o contexto, nem dos textos, nem dos livros bíblicos, nem de toda a Bíblia. O contexto é de menor importância. O cabalista deprecia a estrutura ordinária da Bíblia porque crê que a estrutura “real” é a oculta. Assim, o cabalista não é que não respeite o contexto, mas na verdade o "destrói" para buscar novos significados. Tudo depende de descobrir significados implícitos de certas passagens em outras. É um trabalho de intuição ou "inspiração" divina só logrado pelo cabalista legítimo, capaz de permanecer em oração e num estado de "santidade" contínua. Isso lembra muito os mestres realizados do Budismo Tibetano, a quem também se atribui a capacidade de revelar significados mais profundos dos ensinamentos de Buda.

Filosofia cabalística

Os cabalistas criaram também uma filosofia que era uma mescla de ideias bíblicas e da filosofia grega comum no período medieval. Em geral, o esquema cabalista era panteísta e emanatista. Tudo procede de Deus por meio de emanações, de forma que Deus não tenha um contato direto com o mundo terrestre, já que isto profanaria sua perfeição (é interessante observar as similitudes desta cosmologia com a aristotélica, tão popular na Idade Média). Neste processo intervêm dez “inteligências” intermediárias (Sefiroth), que provêm hierarquicamente uma da outra desde o próprio Deus (Áin – Ên-Sôf – Ên-Sôf-Ôr).

A Cabala, sob este ponto de vista, constitui-se numa religião ou visão religiosa sincrética e esotérica, distanciada da doutrina bíblica contida na “leitura superficial” (exotérica) das Escrituras. Por causa dessa proposta de fundo oculto, após seu auge inicial na Idade Média, a Cabala acabou por apartar-se da corrente principal do judaísmo, que não admitia essa mescla com a filosofia grega. Mas, não há como negar que a Cabala é uma mescla de filosofias e noções não apenas judaicas, mas gregas, zoroástricas e, quem sabe, indianas.

Nota sobre Hermenêutica: A Hermenêutica é um ramo da filosofia que se ocupa da compreensão humana e da interpretação de textos escritos. A palavra deriva do nome do deus grego Hermes, o mensageiro dos deuses, a quem se atribuía a origem da linguagem e da escrita e se considerava o patrono da comunicação e do entendimento humano.

O termo "hermenêutica" provém do verbo grego hermēneuein e significa "declarar", "anunciar", "interpretar", "esclarecer" e, por último, "traduzir". Significa que alguma coisa é "tornada compreensível" ou "levada à compreensão".

O certo é que este termo originalmente exprimia a compreensão e a exposição de uma sentença "dos deuses", a qual precisa de uma interpretação para ser apreendida corretamente. Encontra-se, todavia, desde os séculos XVII e XVIII o uso do termo no sentido de uma interpretação correta e objetiva da Bíblia. Spinoza é um dos precursores da hermenêutica bíblica.

Outros dizem que o termo "hermenêutica" deriva do grego ermēneutikē, que significa "ciência", "técnica" que tem por objeto a interpretação de textos religiosos ou filosóficos, especialmente das Sagradas Escrituras; "interpretação" do sentido das palavras dos textos; "teoria", ciência voltada à interpretação dos signos e de seu valor simbólico.

Ocultismo e Magia cabalística

O interesse do cabalista vai muito além da decodificação do texto. Para ele a língua, em particular a língua hebraica, não é simplesmente um meio de comunicação. É uma língua sagrada. Se a Bíblia é um mistério pleno de profundos e ocultos significados, o hebraico, a língua de Adão, também.

Como a citação anterior de A. D. Grad explica com clareza, tudo isto não é só teórico, pois o cabalista é eminentemente prático e utiliza seu conhecimento para atuar como um mago e obter poder, poder divino para ascender aos céus em santidade. Para isso adota a idéia central da magia: fazer algo “natural” neste mundo, para conseguir que algo “sobrenatural” se ative, vindo de um outro mundo ao nosso. Assim, o mago é aquele que conhece as secretas “alavancas” que neste mundo podem ser movidas para forçar o mundo sobrenatural a funcionar a favor dele na Terra:

Segundo a Cabala, tudo o que existe na Terra está formado segundo o modelo do mundo superior. 'Não existe nem o menor objeto neste mundo inferior - disse Rabí Yitsĥaq - que careça de equivalente no mundo superior pelo qual é regido'. Igualmente, ao pôr em movimento os objetos daqui de baixo, se faz com que se movam as superiores que os regem.”

A Cabala prática, com base nesta fundamentação, pretende chegar a certos tipos de "milagres": curas, exorcismos, etc., invocando o nome de Deus ou escrevendo-o em amuletos e pantáculos. A mais conhecida, e também a mais aterradora lenda de magia cabalística é a do golem (figura de argila à qual, com conjurações especiais, se dava vida – ver nota). A Cabala ainda pode ser utilizada para prognosticar o futuro e a vinda do Messias.

Nota sobre o Golem: Golem é um ser artificial mítico, associado à tradição mística da Cabala, que pode ser trazido à vida através de um processo mágico. É uma possível inspiração para outros seres criados artificialmente, tal como o homunculus na alquimia e o moderno Frankenstein (obra de Mary Shelley). No folclore judaico, o golem é um ser animado feito de material inanimado, muitas vezes visto como um gigante de pedra. No hebraico moderno a palavra golem significa "tolo", "imbecil", "estúpido". O nome é uma derivação da palavra gélem ("matéria prima"). A lenda diz que o rabino Judah Loew, durante o século XVI, teria criado um golem para defender o gueto de Josefov, em Praga, contra ataques antissemitas.

O código da Bíblia é profético?

Infelizmente, hoje em dia a Cabala se converteu em modismo em alguns círculos, e isso a desvirtua. Mas continua viva mesmo assim. É estudada por judeus e cristãos. Contudo, se os cabalistas medievais buscavam um profundo saber na Cabala, no Renascimento ela se tornou moda entre os cristãos para provar, precisamente contra os judeus, a veracidade da mensagem cristã. Nos últimos séculos, ante as críticas à Bíblia, o principal objetivo de muitos "pseudo-cabalistas" é apologético. Pretendem usar estes “descobrimentos” para “demonstrar” aos céticos a inspiração divina do texto bíblico. Isto é uma deturpação do sentido primitivo da Cabala. É porque se acreditava que o texto era sagrado e divinamente inspirado, que se buscava nele um conhecimento superior, e não o contrário.

Há uma divisão importante de opiniões aqui: os “cabalistas apologéticos” (pseudo-cabalistas) pregam que o código da Torah é “profético”, ou seja, que contém, de modo cifrado e oculto, referências a fatos futuros, com nomes precisos, lugares e até mesmo datas; os “cabalistas iniciáticos” (legítimos detentores da Tradição esotérica) pregam que o código da Torah é “cabalístico, iniciático, simbólico” e não profético, contendo, assim, referências a conhecimentos ocultos profundos e divinos, não a fatos proféticos – seriam conhecimentos atemporais, universais e divinos conducentes à reintegração.

O melhor exemplo atual de “cabalista apologético” ou pseudo-cabalista é Michael Drosnin (jornalista dos EUA), com seu livro “O Código da Bíblia”.

Que tipo de código Drosnin propõe conter a Bíblia? Um código profético. Como decifrá-lo? Através de um método, no mínimo, contestável, para não dizer, ridículo e sem base real.

Para se chegar a ele, segundo Drosnin, se converte o texto da Torah em um fio contínuo de 304.805 letras. Depois se indica ao ordenador (um software) que busque nomes, palavras, etc. que lhe definimos. O ordenador inicia a busca pela primeira letra e vai provando todas as possibilidades, formando palavras mediante saltos de 1, 2, etc. caracteres. Depois, repete a busca iniciando pela segunda letra, e assim até a última das 304.805. Ao encontrar uma palavra- chave formada pela união de letras com a mínima separação fixa possível, o ordenador reorganiza o texto de forma que essa palavra possa ser lida verticalmente e forma uma “matriz bidimensional” de letras, cujas filas têm como largura a distância entre as letras que formam a palavra-chave. Continuando, busca-se nos arredores outras palavras relacionadas em qualquer ordenação possível (vertical, horizontal, diagonal). As combinações por este procedimento são exorbitantes, segundo um de seus inventores, o matemático Rips: “Dez ou vinte bilhões, no mínimo.”

Nos anos de 1980, o grupo do físico Doron Witztum, com a participação do matemático Eliyahu Rips (colaborador de Drosnin), se decidiu a estudar esta idéia com a ajuda da estatística e da informática. Para isso, buscaram no Gênese relações entre os nomes de uma lista de personagens judeus e suas datas de nascimento ou morte. Os surpreendentes e exitosos resultados foram publicados na revista especializada Statistical Science. Ainda que Drosnin não mencione, não se pode omitir que os principais protagonistas desta história, Doron Witztum, Eliyahu Rips e aquele que Drosnin apresenta como independente, Harold Gans, estão relacionados (especialmente este último) com a organização religiosa judaica ortodoxa Aish HaTorah - lit. "fogo da Lei" – ver www.aish.com), que utiliza o “código da Torah” como parte de sua apologética. Os seguidores de Witztum mantêm várias páginas na Internet. Com este grupo, especialmente com Rips, teve contato, a principios de 1980, Drosnin, que se converteu em um entusiasta do “código (profético) da Bíblia”:

A Bíblia tem a forma de um gigantesco jogo de palavras-cruzadas. Está codificada do princípio ao fim com palavras que, ao conectarem-se entre si, revelam uma história oculta. (...) Há uma Bíblia debaixo da Bíblia.”

Rips extraiu um volume de sua biblioteca e leu-me uma citação de um sábio do séc. XVIII chamado o Gênio de Vilna: ‘É regra que tudo o que foi, é e será até o fim dos tempos está incluído na Torah, desde a primeira até a última palavra. E não só em um sentido geral, mas até o menor detalhe de cada espécie e cada um de seus indivíduos, e até o detalhe de cada detalhe do que venha a ocorrer a este desde que nasce até que deixa de existir.’ ”

Não sabemos, todavia, se todo o passado e todo o futuro de cada um de nós estão contidos em algum nível superior e por enquanto inacessível do código secreto da Bíblia. Isso a converteria, com efeito, no Livro da Vida..”

Maior deturpação do que seja o código oculto da Torah, impossível! O código é cabalístico, ou seja, simbólico, versando sobre conhecimentos universais. Não tem nada de profético, muito menos trazendo nomes específicos como "hitler", "saddam", "bin laden", "bush", "yasser arafat" ou o que o valha.

Drosnin, na verdade, é um cético religioso. Só crê agora na existência de um fabuloso código na Bíblia, mas não tem interesse no Deus da Bíblia. Segundo Drosnin, Rips considera que Deus é a explicação de tudo, mas ele prefere outras razões fantásticas, como uma origem extraterrestre para a Torah, qual o misterioso monolito negro que aparece em momentos críticos da evolução humana do conto de Arthur C. Clarke, 2001 – Uma Odisseia no Espaço. Ou seja, o código de Drosnin se converteu numa espécie de ufologia bíblica inimaginável até para autores como Däniken!

Contestando o código profético de Drosnin

São numerosas as objeções ao “código da Bíblia”, não só ao apresentado por Drosnin em seu livro, mas à obra original do grupo de Witztum, entre elas a ortografia e a seleção de personagens do experimento de Witztum. Mas também se tem observado que o texto hebraico da Torah não é tão exato como se pretende. O professor Menachem Cohen lembra que existem muitas variantes que, embora sejam ortográficas e não afetem a compreensão do texto, afetam o número de letras e outras características implicadas nestes experimentos.

O livro de Drosnin inicia com a matriz que anuncia o assassinato de Ytzhak Rabin. Em seguida, Drosnin encontra a previsão da eleição de Netanyahu como novo primeiro-ministro. A matriz anunciava também o assassinato deste. Tudo parecia combinar-se para indicar que, em 13 de setembro de 1996, se desencadearia uma guerra nuclear no Oriente Médio, que seria o estopim do fim do mundo. A tensão aumenta ao longo do livro até que o clímax se produz quando Netanyahu anuncia uma viagem a Amã, para encontrar-se com o rei Hussein, da Jordânia. Revisando a matriz onde se falava de Netanyahu, Drosnin encontra a expressão “Julho para Amã”.

Então, no último momento, a viagem de Netanyahu sofreu um adiamento inesperado. Na noite anterior à viagem, o rei Hussein ficou doente. O primeiro-ministro não foi à Jordânia até 5 de agosto.

O código errara? É evidente, mas vejam como Drosnin se sai desta enrascada:

"Fui ver Eli Rips. Lhe perguntei se o código podia atuar como a física quântica. Se era assim, não conseguiria precisar de uma vez o que e o quando. O princípio da incerteza o formula claramente: quanto mais precisamente se mede o que, com menor precisão poderá medir-se o quando. Essa é a razão pela qual a mecânica quântica não prediz um, mas muitos futuros possíveis.

Rips não invocou o princípio da incerteza. Ao contrário, assinalou a palavra que aparecia no código da Bíblia justo em cima de 'julho para Amã'. A palavra era 'postergado'."

Infelizmente, Drosnin não conheceu a verdadeira Cabala dos místicos...


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