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sexta-feira, 6 de junho de 2014

Nós Contra os Outros


Nós contra os outros
A forma primitiva de unificar um grupo
contra um inimigo comum real ou imaginário

 [Versão completa do artigo publicado em forma condensada em https://sites.google.com/site/hanamatsuripoa/home/9/nos-contra-os-outros]


Paulo Stekel (Pema Dorje)*

            O outro parece ser sempre o problema. O outro, o externo, o fora de nós. Esta é uma falsa proteção que nosso ego tenta sustentar o tempo todo. Assim, ele evita confrontar-se com sua própria fragilidade, fragilidade que está na base de sua inexistência inerente. Ao reconhecer que o problema não é o outro, ao se ver no espelho, o ego não encontra nada. Eis o abismo!

            O abismo entre o eu e o outro é o abismo entre o mundano e o dármico, entre a ilusão e a compaixão, entre o prejuízo e o benefício ao outro. Enquanto estivermos focados apenas em nós mesmos, em nossa mente, o outro sempre parecerá um obstáculo e pensaremos ter que lutar contra ele. O culparemos por nossas infelicidades, insatisfatoriedades, e vamos, em vão, continuar procurando as pessoas “perfeitas” para nós, mas sem nunca nos perguntarmos se somos a pessoa perfeita para alguém...

            A partir deste mecanismo ilusório de autoproteção, desde tempos imemoriais os seres humanos se unem em grupos contra inimigos comuns, reais ou imaginários, onde os outros, fora do grupo, são o mal, os demônios, o ruim, o desprezível, o insatisfatório, o inimigo a ser combatido. Nada mais enganoso e fracassado. Ver no outro o inimigo é fazer o caminho oposto ao do Buda, que enfrentou Mara e seus demônios sabendo que isso se tratava de seu próprio conteúdo interno sendo dissolvido. Ao ter o insight do quanto a visão de mundo apresentada por seu pai, o rei, era equivocada, deludida, o futuro Buda resolveu romper com os grilhões do prazer e da dor, buscando um estado de equanimidade capaz de fazê-lo transcender o eu ilusório e chegar à Verdadeira Natureza, a Natureza Última, a essência.

            Se vemos Mara no outro, estamos presos nas garras de Mara. Se vemos o Buda no outro, Mara aos poucos se dissolve... O ser humano comum, não conectado ao Dharma, vive lutando contra os outros, unindo-se a outros iludidos – cegos guiando cegos – na mesma tarefa de reforçar o eu. Quando nos conectamos ao Dharma, independente da tradição escolhida, passamos a enfrentar a nós mesmos, nosso eu sempre insatisfeito, e unimo-nos a nossos iguais na busca – a Sangha – para nos apoiarmos mutuamente neste caminho de dissolução do eu ilusório, sem prejudicar ninguém e sem culpar os outros por nossos problemas.

            A propósito, sempre vejo a Sangha como meu irmão mais querido, meu companheiro mais precioso, meu guia, mestre e espelho. A convivência com os irmãos de Sangha nos dá uma noção clara do quanto temos ainda que purificar nossa mente. Quando ocorre algum conflito, nos lembramos do voto de refúgio e bodhicitta e refreamos nosso comportamento ofensivo, agressivo ou displicente. Pelo menos, deveríamos...

            Atualmente, vemos um mundo onde as pessoas estão cada vez mais agitadas, inquietas, exigentes com o outro e pouco consigo mesmas, assoberbadas de compromissos fúteis, sem nenhuma utilidade para o bem comum. Isso reflete a inconsciência destes tempos de degenerescência, onde ouvir a palavra do Buda, aderir-se a ela e gerar a motivação de praticar o que ela orienta é algo fenomenal, quando ocorre. Tenho visto isso ocorrer às vezes. A luminosidade que isso gera é fantástica. Vemos no brilho do olhar de quem refugiou-se no Buda, no Dharma e na Sangha a certeza de quanto benefício isso está causando a si e aos demais aos quais se está conectado.

            Mas, para que o benefício perdure e aumente, se faz necessário o compromisso retomado diariamente de cessar as lutas contra o outro e engajarmo-nos na luta contra o eu, combatê-lo através da técnica do espelho, que nos mostra exatamente o que estamos fazendo e o caráter ilusório de qualquer tentativa de perenidade no samsara, o mundo cíclico onde renascemos incontáveis vezes, até cansar. Cansando do samsara, sentamos, acalmamos, meditamos, praticamos de fato...

            Cessemos, pois, de lutar contra os outros e de nos aliarmos a outros para combater fora o que deve ser combatido dentro, no solo ilusório do nosso eu mundano. Meditemos sobre isso com um coração gentil, compassivo, e nossos atos começarão a refletir a luminosidade da mente, ao invés das trevas do eu.

Sarva Mangalam! (Haja benefício para todos os seres)

 
* Paulo Stekel é praticante budista desde 1995. Apesar de pertencer ao Budismo Vajrayana, tem uma visão não-sectária e estuda e apóia todas as tradições do Buddhadharma. Professor de línguas sagradas, estuda sânscrito, páli e tibetano, além de hebraico, grego, latim e outras línguas antigas.

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