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sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Uma "nova espiritualidade"

Por Paulo Stekel



Em abril de 2007, escrevi um polêmico artigo para a extinta “Revista Horizonte – Leitura Holística”, no qual fazia uma rápida referência ao conceito de “nova espiritualidade” (ver: http://revistahorizonte.blogspot.com.br/2007/04/nova-era-e-pseudo-espiritualidade-verso.html). Ultimamente, várias pessoas têm solicitado a mim que escreva algo mais específico sobre o assunto. Este presente texto é a resposta a elas.

Há uma “nova espiritualidade”?

Esta é a pergunta que não quer calar nos meios espiritualistas e religiosos em geral. Está se formando em escala mundial algo como uma nova espiritualidade? Se está, trata-se de uma simplesmente nova forma de superstição ou é, pelo contrário, uma proposta de unir a espiritualidade à ciência moderna (Psicologia, neurociências, etc.)? Parece-nos que ambas as opções possuem um pouco de realidade na forma como as coisas têm se sucedido. Sendo uma forma relativamente nova de se pensar a espiritualidade, ainda se pode perceber o lado supersticioso em ação. Contudo, entre os pensadores e maiores expoentes da proposta, já se pode ver uma tendência séria no sentido de unificar numa visão ética padrão o que as religiões e “espiritualidades” da humanidade sempre buscaram.

Até mesmo o Dalai Lama, tempos atrás, deu declarações no sentido de uma nova forma de pensarmos a religião e a espiritualidade. Ele disse: “Todas as maiores religiões do mundo com suas ênfases em amor, compaixão, paciência, tolerância e perdão podem e de fato promovem bons valores internos. Mas a realidade do mundo de hoje é que a ética básica que encontramos nas religiões não são mais adequadas. Esse é o motivo porque estou cada vez mais convencido de que chegou o tempo em que precisamos encontrar uma forma de pensar acerca de espiritualidade e ética que vá além das religiões de forma completa.”

Ir além das religiões é o objetivo da “nova espiritualidade”. Mas, para a entendermos, antes precisamos saber o que é “espiritualidade”.

Definindo “espiritualidade”

No referido artigo que escrevi em 2007, o conceito de “espiritualidade” é definido nos seguintes termos:

Quando falamos em “espiritualidade” podemos estar nos referindo a muitas coisas. Há uma “espiritualidade cristã”, uma “espiritualidade judaica”, uma “espiritualidade islâmica”, uma “espiritualidade budista”, etc. E, não poderia ser diferente. A espiritualidade nas religiões não é assunto de consenso. Cada doutrina espiritual tem a sua própria estrutura social, semântica e mecânica. Há ainda o que poderíamos chamar de “espiritualidade da nova era” ou, como preferem outros, “nova espiritualidade”. Contudo, paralela a esta, parece estar se formando e ganhando cada vez mais terreno uma “pseudo-espiritualidade”, baseada nesta “nova espiritualidade” ou, mais corretamente, numa distorção desta última.

Num sentido geral, podemos definir “espiritualidade” como uma dimensão do ser humano que traduz, segundo várias “linguagens sagradas” (das religiões e crenças em geral), o modo de viver característico de um crente que busca a perfeição na relação com o Transcendental (Deus, Buda, o Absoluto, etc.). Para George Brown (autor de “Espiritualidade: história e perspectivas”) a espiritualidade “traduz uma dimensão do homem, enquanto é visto como ser naturalmente religioso, que constitui, de modo temático ou implícito, a sua mais profunda essência e aspiração”.

Espiritualidade é um estado de consciência não-condicionada pela mente; é uma mente livre para ver as coisas como são, não como achamos que são. Isso foi ensinado pelo Buda há 2500 anos! Neste caso, espiritualidade teria mais a ver com essência e consciência do que com crença religiosa. Para o Buda, por exemplo, o Iluminado é aquele que buscou por si mesmo, experimentou, confirmou e, então, aceitou o ensinamento espiritual, tornando-se a própria Sabedoria e não apenas um crente, um pio devoto cego e ignorante. Ele dissuadiu completamente seus discípulos deste tipo limitado de visão espiritual.

Definindo “nova espiritualidade”

A primeira coisa que temos de entender é que a “nova espiritualidade” não é uma religião ou filosofia “codificada”. É, como disse no referido artigo de 2007, uma mescla de muitos pensamentos distintos sobre espiritualidade, uma gama de doutrinas e pensamentos não necessariamente coesos, um ensinamento totalmente “em aberto”. Isso nos leva ao conceito de “espiritualidade emergente”, que foi definido no artigo de 2007:

Didaticamente, poderíamos dividir a espiritualidade em uma “espiritualidade clássica” e outra “emergente”.

A “espiritualidade clássica” corresponderia à proposta pelas grandes religiões clássicas (tanto antigas quanto modernas), pelas filosofias delas derivadas e pelo espiritualismo, Teosofia e Ocultismo com raízes no Séc. XIX e início do Séc. XIX. Em todas essas vertentes, a razão ainda é respeitada em maior ou menor grau.

A “espiritualidade emergente” corresponderia à proposta pelo pensamento sistêmico, pela visão holística, pelo movimento “nova era”, pelo “espiritualismo universalista” e pela “nova espiritualidade” (isto é, tudo o que não se encaixa no “clássico”). Esta forma de espiritualidade já estaria influenciando alguns ramos da espiritualidade clássica. Um bom exemplo é a adaptação do Budismo no Ocidente, que tem feito algumas “concessões” de natureza cristã no processo de visualização meditativa, para facilitar o progresso dos praticantes ocidentais.

Fica evidente no exposto acima que a filosofia do extremo oriente tem muito a ver com a emergência de uma nova espiritualidade.

No livro “Cuidado de si, consciência do mundo”, o sociólogo Raphaël Lioger descreve o cenário atual de transformação radical da religiosidade, com o sagrado invadindo praticamente todas as esferas da vida social. Numa entrevista concedida a Antoine Dhulster, e publicada na revista Témoignage Chrétien, 23-06-2012, Lioger disse (tradução de Moisés Sbardelotto):

Eu acredito que o nosso mundo desenvolvido, ou pós-industrial, está submetido a uma nova tensão mítica, a um novo grande relato. Nesse novo marco, o indivíduo busca a sua realização, a resposta às suas perguntas metafísicas, em um processo que inclui preocupações globais: a ecologia, a paz mundial, etc. A tensão entre essas duas dimensões – individual e global – é o que chamo indivíduo-globalismo.

(…) Na antiguidade grega, pensava-se o ser humano como uma pessoa que adquiria sua dignidade na participação na vida da polis. Depois, dependendo dos contextos e das épocas, na vida da tribo, da família e da nação. Na época moderna, nasce o indivíduo. O conceito de indivíduo é a ideia segundo a qual o ser humano se volta à sua subjetividade, que é abissal, e que se torna, ela mesma, uma espécie de transcendência. (...) Também a partir da época moderna, se desenvolve uma visão do nosso universo como um conjunto infinito.

(…) Há uma coexistência entre esse esquema e as grandes religiões. Estas continuam existindo porque o velho mundo, que as criou, ainda existe. Mas estamos em um período de transição. E, a meu ver, existem três possibilidades para as grandes religiões: ou resistem agarrando-se ao passado e, nesse caso, haverá a fuga dos fiéis; ou fazem compromissos com a modernidade e se mantêm vivas; ou antecipam as transformações futuras e, nesse caso, aumentarão seus fiéis.

(…) As religiões se recompõem em torno a uma noção central, a energia, que é, ao mesmo tempo, salvadora e pessoal. Daí a noção de conexão, de conectividade entre o individual e o global, entre o indivíduo e a natureza. Nesse contexto, o próprio dogma católico é reinterpretado com essa ideia de energia. É preciso pensá-lo perto do imaginário da ioga, da espiritualidade oriental. (…) Por exemplo, incensaremos o taoismo ou o budismo, porque se pressupõe que sejam próximos à natureza. E, simetricamente, rejeitaremos o catolicismo... mas só em um primeiro momento, porque certos aspectos do catolicismo permitem pensar a ecologia, a união com a natureza, o equilíbrio global. É neste jogo de confrontos que o rolo compressor indivíduo-global avança e aproxima as religiões, focando-se na sua estética, mas removendo-lhes o seu núcleo dogmático. As religiões tornam-se pouco a pouco intercambiáveis. Na prática, vê-se o aparecimento de híbridos: faz-se ioga cabalística, gi gong cristão ou meditação zen recebendo a comunhão...

(…) No Ocidente, essa espiritualidade é levada adiante pela classe média. (…) Mas não só. Poderiam ser acrescentados os católicos de esquerda, muito interessados no diálogo inter-religioso ou o âmbito humanitário, processos indiscutivelmente indivíduo-globais.

(…) Há precisamente a formação de um fundo mítico comum a toda a humanidade, que corresponde a uma situação política, econômica, em que todos já tomaram consciência da condição dos outros. Portanto, não é possível voltar atrás. Quais serão as consequências dessa revolução em algumas décadas? Poderão ser positivas ou negativas. Pode-se até imaginar um integralismo indivíduo-globalista: seitas de loucos poderiam querer destruir a humanidade ou instaurar uma ditadura anti-humanista por causa das devastações causadas pelos seres humanos ao meio ambiente. É possível. Assim como é possível um mundo em que a realização pessoal se tornará a norma dominante. O roteiro ainda está para ser escrito.”

Estas palavras servem-nos como introdução ao que seria a proposta (ainda em aberto) de uma “nova espiritualidade”. Inicialmente, podemos dizer que essa tendência ou visão emergente, alcunhada de “nova espiritualidade”, não é uma religião, não exige um conjunto de rituais e nem depende de mestres, gurus ou intermediários entre o homem e o divino, o transcendente. Ao mesmo tempo, essa visão emergente não contradiz as religiões, mas propõe uma visão universal dos conceitos e princípios espirituais centrada no “seja seu próprio Mestre”, a propósito, um conselho de Buda a seus discípulos.

O renascimento do antigo paganismo também pode ser considerado dentro do contexto da nova espiritualidade, pois este “renascimento” não é o ressurgimento do antigo paganismo tal como fora no passado, mas com as cores da modernidade. Isso se deve a vários fatores, incluindo o fato de que muito do antigo paganismo original se perdeu, tendo de ser completado com noções mais recentes. De qualquer forma, o novo paganismo, como parte da “nova espiritualidade”, é uma cosmovisão, um modo de ver e entender a realidade, que bebe em fontes de religião e filosofia gregas, nas antigas religiões de Mistério, no paganismo romano, celta, escandinavo, etc. Assim como o todo desta “nova espiritualidade”, parece ser essencialmente monista – o Monismo é uma teoria filosófica segundo a qual a realidade consiste num único elemento, num universo uno e harmônico, onde todas as coisas são formas de uma só substância.

A nova espiritualidade possui algumas ideias já assentadas que servem de base para sua identificação. Entre elas: O aspecto transcendente do universo (Deus, o divino, o transcendente, o búdico, etc.) e o mundo são um, de modo que tudo está unido numa só realidade divina; o mundo foi emanado, evolui, se destrói e se recria constantemente, em múltiplos universos (algo de que as novas teorias astronômicas começam a comentar); o homem é uno com o divino, assim com o mundo o é, de modo que podemos dizer que o homem é Deus em certo sentido, por ser divino; o antigo Deus pessoal passa a ser reverenciado como um Deus impessoal, não uma figura humana, mas uma energia permeando todo o universo, incluindo o interior do homem, o que o faz divino também; em essência, o ser humano é bom, ainda que em sua visão equivocada da realidade, se apresente como mau – no final das contas, todos desejam a felicidade; a unidade mística de todos os credos, religiões e “espiritualidades” é o convite da “nova espiritualidade”, um convite a que todos participem e compartilhem da experiência mística – uma flagrante rejeição doutrinária aos dogmas de todas as religiões; o abandono da separatividade, que permite a busca do autoconhecimento e o encontro com sua própria divindade; a solução está dentro de nós (por isso, a nova espiritualidade adere a técnicas orientais de respiração, concentração, meditação, yoga, etc.).

A emergência

Tudo começou nos anos de 1960-1970, com a contracultura, os movimentos pacifistas, os hippies e as novas tendências da psicologia. Nesta mesma época nasceu a noção de “nova era”. A nova espiritualidade é a continuação desta tendência, mas agora de um modo mais sério. Tudo começou com a ideia de paz, do respeito à natureza e do amor incondicional. E, continua assim. Mas, agora, novas noções ampliam a ideia original. A insatisfação das pessoas com as antigas formas patriarcais de religião e espiritualidade toma agora a forma de um culto sem igrejas, sem templos, sem sexismo, sem preconceito...

Há pouco tempo pesquisadores das religiões, especialmente nos EUA, ao aplicar questionários, perceberam que muitas pessoas respondiam não praticar nenhuma religião oficial em particular, mas também não se definiam como ateias, agnósticas ou não-praticantes; se definiam como pessoas sem religião, mas com espiritualidade. Isso chamou a atenção dos pesquisadores, que então, começaram a falar em uma “nova espiritualidade” emergente em suas pesquisas. Na verdade, parece que o caminho que levou à nova espiritualidade passou por três fases:

1ª – A fase da prática de religiões formais, especialmente as grandes religiões instituídas, fase esta que durou até as décadas de 1960-1970;

2ª – A fase do “religioso não-praticante”, do ecumenismo, do universalismo, em que se continuava professando uma religião tradicional, mas com possibilidade de interagir com outros ambientes espirituais, antigos ou novos, fase esta que durou da década de 1970 até recentemente;

3ª – A fase da “nova espiritualidade”, do rompimento com a prática formal das grandes religiões instituídas, com o dogma que impede a expressão do pensamento e dos potenciais do indivíduo, com uma cosmovisão limitada baseada em prazer e dor, em castigo e compensação, fase esta que é bem recente, da década de 1990 para cá.

Este novo padrão e esta nova cosmovisão, ainda aberta, é fato, tem, contudo, bases firmes, como uma nova sensibilidade cultural, a busca por uma consciência superior, por mais qualidade de vida, por harmonia profunda (física, emocional, mental e espiritual), por paz e relaxamento (através da meditação, por exemplo) e por uma nova ordem mundial, mais justa, ética e equilibrada.


Neste quadro, as religiões no seu formato antigo não têm mais vez. As que sobreviverem, se adaptarão a esta nova cosmovisão. Já há vislumbres disso aqui e ali, seja no ecumenismo, no diálogo interreligioso, na visão integral, na troca de informações e experiências entre os praticantes de diversas religiões, ou na relativa liberdade que os religiosos estão tendo em algumas tradições para se envolverem com práticas de outras, sem que isso caracterize alguma heresia.

Para alguns, o que estamos vivendo agora, com a nova espiritualidade, é uma espécie de ressurgimento da Religião-Sabedoria dos antigos, ou algo equivalente, e que durou mil anos, mais ou menos (de 700 a.C. a 300 d.C.). Este período antigo, em que viveram Buda, Zoroastro, Pitágoras, Platão, Moisés, Jesus, etc., influenciou tudo o que vivemos até aqui em nossa sociedade, o bom e o ruim. Agora, com um novo influxo de pensamento, de consciência e de busca de transcendência, novos paradigmas começam a se formar na mente globalizada da sociedade atual, como o paradigma da complementaridade (para substituir a polaridade do antigo mecanicismo), um legado da Mecânica Quântica, que surgiu há pouco mais de cem anos. Daí, surgem as noções de paradigma holográfico e visão holística, também parte da nova espiritualidade.

Em seu estudo “Espiritualidade e Consumo: Relações e Temáticas de Pesquisa”, Paulo Ricardo Zilio Abdala diz:

(...) nos encontramos diante de uma redefinição das antigas formas institucionais de religiosidade. A sociedade contemporânea, impregnada pelo anseio de liberdade e poder individual, deu origem a um novo senso de espiritualidade desprovido de regras rígidas e paradigmáticas, no qual cada indivíduo se utiliza daquilo que mais lhe chamar a atenção sem a necessidade de um comprometimento. Este fenômeno, chamado por alguns pesquisadores de “nova era” (Redden, 2002), também já foi conceituado como espiritualidade “à la carte” (Possamaï, 2000).

(…) No âmbito das ciências sociais, um termo bastante utilizado para designar este fenômeno da nova espiritualidade é “nova era”, ou uma espécie de religiosidade não rigidamente estruturada na qual os indivíduos escolhem livremente no que acreditar de acordo com sua própria vontade e realidade (para maior abrangência desta visão ver Redden, 2002).

Na revista Época, um artigo intitulado “Deus é Pop” trouxe dados de uma pesquisa chamada Religion Monitor realizada em 21 países do mundo pelo instituto alemão Bertelsmann Stiftung
sobre fé e religiosidade (Fernandes, 2009). Os números publicados atestam a força da religião.
Com enfoque no público jovem, a reportagem afirma que 95% dos brasileiros entre 18 e 29 anos se dizem religiosos e 65% profundamente religiosos, colocando-os em terceiro lugar entre os mais religiosos do mundo, atrás apenas de Nigéria e Guatemala.

Comentando sobre o papel da internet neste panorama, o estudo aponta as tecnologias da informação como veículos ideais de uma religião contemporânea e desregulada, que pode ser exercida coletivamente sem sair de casa e submeter-se a qualquer disciplina (Fernandes, 2009).

De fato, observa-se hoje uma busca pela espiritualidade fora dos dogmatismos das seitas e igrejas tradicionais, demonstrada pelo crescimento no ocidente das terapias e práticas orientais de cura, como yoga, reiki, entre outras, conhecidas como terapias alternativas (Bauman, 1998). Estes meios de relacionamento com o mundo espiritual têm por característica serem mais livres do que as antigas igrejas, trazendo em si menos regras de conduta e procedimentos. Na pesquisa alemã antes mencionada, enquanto o jovem brasileiro é o terceiro mais religioso do mundo, ele é apenas o décimo em termos de seguir preceitos de uma determinada igreja ou movimento (Fernandes, 2009).

O princípio e o objetivo são os mesmos, porém sua forma foi reinventada e adaptada a uma nova realidade social e cultural. Percebe-se uma “individualização do crer e do agir, para a efetivação e a relativização das crenças” (Lipovetski, 2004, p. 132). Hoje, o que confere o valor espiritual a determinado movimento não é sua posição como verdade absoluta, mas sim a possibilidade de
acesso a uma força superior aos homens, a um estado de consciência mais ampliado, a um estado superior de ser, a uma vida subjetiva melhor e mais autêntica.

Na esfera da fé e da religiosidade, observa-se uma perda gradual da força do cristianismo clássico e das religiões ligadas às promessas de salvação no além para uma lógica voltada para a felicidade mundana, baseada em valores humanos e na busca por um mundo melhor. Para Lipovetski (2007, p. 131), a religiosidade neste início de século “...se ajustou aos ideais de felicidade, de hedonismo, do desabrochamento dos indivíduos difundidos pelo capitalismo de consumo: o universo hiperbólico do consumo não foi o túmulo da religião, mas o instrumento de sua adaptação à civilização moderna da felicidade terrestre”.

(…) Diferente das antigas formas de religiosidade, nas quais o caráter mercantilista era velado sob promessas de fé incondicional, as novas terapias alternativas e caminhos espirituais têm preço fixado, praticam marketing e trabalham com conceitos de relacionamento com o cliente.
Diversas revistas, clínicas, programas de imersão, universidades, escolas e empresas, com foco na espiritualidade, proliferam-se ao redor do mundo (O ́Guinn e Belk, 1989). (…) De um lado temos o
espiritual sendo consumido, e de outro temos o consumo sendo espiritualizado. (…) o consumidor espiritualizado é mais suscetível a apelos sociais e ecologicamente responsáveis, contendo altas doses de simbologia e poder de reflexão em seus atos de consumo (Shaw, D., & Newholm, T., 2002). Isto se explica a partir do desenvolvimento de valores altruístas (Sánchez-Fernández et al., 2009), ocasionados por uma possível mudança de foco na relação com o mundo, com as pessoas e com os objetos, causada por uma alteração perceptiva ligada a absorção de insights permanentes advindos das experiências místicas vivenciadas – mesmo que estas tenham sido mínimas e transitórias (Gaarder et al., 2000).

(…) Outra modificação importante na lógica da nova espiritualidade diz respeito a uma mudança nas formas de intermediação entre a fé e o indivíduo. Nestas, a pessoa em questão possui a opção de fazer contato direto com o conhecimento espiritual de seu interesse por intermédio do mercado. Seja na internet, nas livrarias, nas bancas, nos centros de práticas espirituais ou nas lojas especializadas, o buscador da fé tem à sua disposição uma série de possibilidades para se aproximar daquilo que almeja conhecer, bastando para isso ter o dinheiro suficiente para efetivar uma transação. Nisto está também envolvido outro princípio sagrado das práticas religiosas pós-modernas, a liberdade individual para escolher e traçar o próprio destino (Redden, 2002).”

Em direção a uma Nova Espiritualidade Integral

Ken Wilber (1949- ), é um famoso pensador norte-americano e o criador da Psicologia Integral, e de forma mais geral, do chamado Movimento Integral. A sua obra propõe, em suma, a integração de todas as áreas do conhecimento (ciência, arte, filosofia, espiritualidade). A preocupação em unir ciência e religião é recente. A vemos em uma das primeiras vezes nas obras da mística russa Helena P. Blavatsky (1831-1890), na segunda metade do Século XIX, que propunham um estudo comparado de ciência, filosofia e religião.

A visão integral de Wilber, especialmente no que tange a uma Espiritualidade Integral, pinta a noção de “nova espiritualidade” com cores mais sérias, mais científicas, mais observadoras.

Um exemplo menos “científico” é o de Neale Donald Walsch (1943- ), escritor norte-americano, autor da série de livros Conversando com Deus, dentre outros. Suas obras propõem que as pessoas se relacionem com a Divindade numa perspectiva mais moderna. A visão de Walsch, que acredita num deus panteísta que tenta comunicar-se com as pessoas, é expressa como uma “nova espiritualidade: uma expansão e unificação de todos as presentes teologias e religiões, uma reinterpretação de todos os ensinamentos sagrados atuais com a finalidade de comunicar e implementar novas crenças espirituais, especialmente que todos nós somos um com Deus e um com a vida, em um estado global compartilhado de ser”.

O fato é que, desde os tempos do guru indiano Maharishi Mahesh Yogi (com sua Meditação Transcendental, nos anos de 1970), passando pela “Cura Quântica” de outro indiano, Deepak Chopra (a partir dos anos de 1980) e por filmes recentes como What the Bleep Do We Know? (Quem somos nós?) e The Secret (O segredo), chegando à gama infinita de Terapias Holísticas e técnicas “quânticas” (o termo virou jargão!) que não param de surgir no mundo todo, junto a novas filosofias espirituais dos mais variados tipos, o que temos visto é a emergência de uma nova forma de busca espiritual, uma busca oposta ao método utilizado até então pelas grandes religiões instituídas. Antes, o corpo hierárquico, o papa, o líder, a comunidade, o dogma, a insensibilidade ao outro fora da comunidade; agora, o indivíduo, o mestre de si mesmo, o líder de si, o servidor da comunidade, a liberdade, o altruísmo direcionado a todos, em amor incondicional.

Se este novo padrão de busca parece ainda meio caótico, é apenas por estar no começo. Aos poucos os paradigmas vão se assentando. É natural. Faz parte da contemplação do ser humano sobre si mesmo e sobre a sua busca por transcendência. A verdade é que a nova espiritualidade emergente se encaminha para uma integralidade, uma visão unificada, que vê o universo como um todo que pode ser perscrutado sob diversos olhares, mas que continua um só e mesmo universo, o qual não conhecemos de fato porque só o vemos como achamos que ele é, não como realmente é. A visão integral busca, através de múltiplos olhares, diminuir nossa cegueira sobre o universo e sobre nós mesmos.

Em uma entrevista recente, Ken Wilber disse o seguinte sobre sua visão de religião e espiritualidade (http://papodehomem.com.br/ken-wilber-entrevista-brasileira-parte-2/):

(...) a espiritualidade e a religião são interessantes porque ambas estão se tornando cada vez mais separadas. É comum para as pessoas nos Estados Unidos dizerem que “são espirituais mas não religiosas”, ou seja, elas estão separando ambas, elas se identificam com o espiritual mas não com a religião, existe algo sobre a religião que eles não apreciam e existe algo na espiritualidade que eles gostam e esta é a razão deles se definirem daquela forma.

A espiritualidade significa uma consciência mística de uma experiência imediata, que passa diretamente por alguma forma de experiência que não pode ser descrita como parte de alguma mitologia ou dogma, mas pura e simplesmente uma experiência imediata. A religião para essas pessoas significa as formas institucionais de religião e seus mitos, crenças e dogmas; e elas não se sentem mais confortáveis com esse tipo de religião mas se sentem confortáveis com aquilo que eles denominam de espiritualidade, que consiste em não acreditar em dogmas e sim em um processo que emerge na consciência pessoal.

Claramente ambas existem e são importantes para os seres humanos. Provavelmente cerca de 60% da população mundial frequenta algum tipo de religião institucional, seja ela islamismo, judaísmo, cristianismo, budismo ou hinduísmo, eles acreditam em seus fundamentos, sendo muito importante o significado de tudo isso em suas vidas.

Essas questões são centralmente importantes para a condição humana e , assim, continuo a escrever sobre ciência, espiritualidade e religião em uma tentativa de mostrar como elas se fundem e como elas podem ser incluídas em uma visão de mundo coerente.”

Então, viva o novo paradigma integral, viva a nova espiritualidade! Sim, a “nova espiritualidade” se propõe a ser, numa definição melhor, uma “espiritualidade integral”. Aliás, “espiritualidade integral” é o título de um dos recentes livros de Ken Wilber, no qual ele formula uma teoria da espiritualidade que absorve tanto crenças tradicionais das religiões, quanto os princípios culturais e científicos modernos e pós-modernos, propondo outro papel para a religião no mundo, transcendência e sua aplicação no cotidiano. Afinal, viver a espiritualidade no dia a dia é a melhor forma de expressá-la, de torná-la útil e de mantê-la viva! De acordo com o referido livro de Wilber, devemos diferenciar estado de consciência de estágio de consciência. O primeiro pode se alternar (estado de vigília, sonho e sono profundo) e o outro progride gradualmente, nunca retornando ao anterior. Eis uma definição mais criteriosa do termo “evolução”, muito utilizado nos meios espiritualistas e entre os adeptos da “nova espiritualidade”.

Os caminhos futuros da espiritualidade humana – o que agora identificamos como “nova espiritualidade” ou “espiritualidade integral” – ainda estão se definindo. A partir do caos dos velhos paradigmas (dogmatismo, em religião; mecanicismo, em ciência) vai sendo gerado um outro, mais abrangente, holístico, humano, coletivo, altruísta e baseado no amor incondicional, na liberdade, na ampliação de consciência e na paz interior. Contemplemos, pois, esta proposta e, na medida do chamado de nossos corações, acerquemo-nos dela!


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