Sobre o blog

Músicas, Livros, Cursos, Atendimentos, Budismo e Nova Espiritualidade. Blog de Paulo Stekel com todas as novidades do seu trabalho como músico, escritor, instrutor e pesquisador da Espiritualidade Universal. Confira os livros disponíveis, seus álbuns musicais já lançados, a lista de cursos à disposição e os atendimentos. ***** Contato: pstekel@gmail.com ***** © 2014 Paulo Stekel – todos os direitos reservados - all rights reserved

domingo, 11 de outubro de 2015

[CAMINHOS DO DHARMA 10] Novos Formatos


"Numa época como a atual, em que ensinamentos de mestres de todas as linhagens estão disponíveis a todos em vários formatos de mídia (textos, áudios e vídeos), pretender limitar o aprendizado dos alunos é algo inadmissível, pois os tempos são outros e os problemas são novos, a humanidade é muito maior, a cultura tende a se globalizar cada vez mais, e as informações tendem a ser compartilhadas num ritmo irreversível. Negar isso é ficar de fora! E, não podemos deixar o Buddhadharma de fora da sintonia com os novos tempos. Ele tem se adaptado aos tempos e às adversidades há mais de 2.500 anos! Não pode, agora, sucumbir sob o peso de interesses de linhagem pouco conectados com o verdadeiro propósito dos ensinamentos do Buda: fazer cessar o sofrimento (próprio e dos seres sencientes), liberar a mente de sua paranoia “samsárica” (cíclica, condicionada há muitas vidas) e atingir o Despertar Definitivo (acorda e ver as coisas como são, a Realidade Absoluta). Os meios hábeis para se chegar a estes objetivos podem variar muito conforme as escolas, mas o cerne do propósito não pode ser prejudicado por uma visão limitada pela relatividade das mesmas. Importante neste processo é a visão moderna de interconectividade (virtual e real!), que vejo como uma oportunidade moderna de entendermos a interdependência de todas as coisas."

[Trecho do livro "Caminhos do Dharma", de Pema Dorje/Paulo Stekel, a ser lançado em breve] 

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

[CAMINHOS DO DHARMA 09] Budismo é Religião?


"Na verdade, a parte do Budismo que, em geral, se considera algo como "religião", eu penso, é o Dharma Relativo. Mas, o que nós buscamos com a prática, no final, é o Dharma Absoluto, que, de maneira alguma, pode ser considerado religião, já que está além da dualidade, do sofrimento e do Eu. É meu pensamento."

[Trecho do livro "Caminhos do Dharma", de Pema Dorje/Paulo Stekel, a ser lançado em breve]

domingo, 16 de agosto de 2015

[CAMINHOS DO DHARMA 08] Buda não era budista


"Temos que perceber que o verdadeiro e profundo significado de Dharma não está nas palavras, no racional, mas na experiência, na observação verdadeira e na compreensão. Ele pode ser entendido como o Caminho das Verdades Mais Elevadas, a Ordem subjacente à Natureza (o modo como as coisas realmente são, indo além do que percebemos pelos sentidos e pela mente, que interpreta os dados dos sentidos) e a realização de uma natureza inerente, a Natureza de Buda, a Natureza da Mente. Não é teoria religiosa nem filosófica, pois a teoria do Dharma ou a filosofia do Dharma são o Dharma Relativo, não o Absoluto, ao qual me refiro aqui. Religiões são relativas. Numa interpretação última, são todas formas de Dharma Relativo! Verdades parciais, dharmas relativos! Ao entendermos assim, estamos avaliando a palavra Dharma sob a perspectiva do Buda, não do homem comum, que vê muitas verdades relativas, muitos caminhos, que ele pode seguir. O Buda seguiu estes muitos caminhos antes de encontrar o Dharma profundo. Ao encontrá-lo, descobriu que TUDO é Dharma, que Dharma é o coração de tudo, é a essência natural do Ser, é a totalidade (Sâns. Tathata), é a ordem cósmica, é “secreto” (porque não o podemos perceber sem transcendermos o “eu” relativo que julgamos permanente). Por fim, despojou-se dos conceitos anteriores de religião e mesmo da visão tradicional hinduísta de sanatana dharma que conhecia até então. Literalmente, estou dizendo que o Buda não era budista! Talvez, ele chama-se a seus discípulos de “darmistas” (aqueles que buscam a Verdade, a Realidade Absoluta, o Dharma), não de budistas. Mas, Cristo também não era cristão...!"

[Trecho do livro "Caminhos do Dharma", de Pema Dorje/Paulo Stekel, a ser lançado em breve]

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

[CAMINHOS DO DHARMA 07] A Ordem Cósmica


"Os antigos hindus entenderam que há uma ordem cósmica (inicialmente chamada “Rta” - se lê “rita”, de onde também vem a palavra “ritual” - não esqueçamos que, como o Latim, o Sânscrito é uma língua indo-europeia). Esta ordem regula tudo, inclusive nossas ações e seus resultados. Na visão do Buda, isso não acontece por influência de uma divindade, mas pelo próprio mecanismo cósmico original sem início nem fim. Conforme acionamos este mecanismo através de nossas ações, suas consequências cármicas são inevitáveis. E, enquanto formos presas deste ciclo – chamado Samsara -, renasceremos infinitas vezes em variadas condições, até que nos libertemos em definitivo. Buscar a libertação (moksha no Hinduísmo, nirvana no Budismo) é, desde o conceito original pré-budista, a compreensão de que a satisfação dos desejos nunca traz felicidade permanente, de modo que apenas a liberação definitiva do senso de limitação que leva ao sofrimento é aceitável para um iogue consciente de seu lugar na ordem cósmica. Na visão hinduísta, um iogue é aquele que busca a união com o Divino através das técnicas do Yoga (lit. “união”, em Sânscrito); na visão budista, especialmente no Budismo Vajrayana, é um iogue aquele que busca a união com a mente primordial, com a Natureza da Mente, com a Mente de Buda, Samantabhadra, Vajradhara, Adi-Buddha, etc., através de técnicas de Yoga hinduístas adaptadas ao contexto budista. Em ambos os casos, uma vida de Yoga é uma vida dármica. Mas, cada um deve compreender o “seu” Dharma, praticá-lo, e atingir a libertação do sofrimento. Para isso, podemos nos valer dos ensinamentos de pessoas mais qualificadas, mais experientes, preceptores, mestres, gurus... Não é a única possibilidade para a libertação definitiva, mas certamente um dos caminhos viáveis."

[Trecho do livro "Caminhos do Dharma", de Pema Dorje/Paulo Stekel, a ser lançado em breve]

terça-feira, 28 de julho de 2015

[CAMINHOS DO DHARMA 06] A Mente que se ajusta à "Realidade"



"O que chamamos de “realidade” é nada mais que um ajuste feito pela mente entre a imagem e a ideia da coisa, entre verdade e verossimilhança. Segundo o Buda, este ajuste é completamente falho e muito diferente do que a coisa refletida na imagem é em si mesma. É uma questão de escolha, de preferência, de vontade, de condicionamento, de conhecimento adquirido. Enfim, um intrincado contexto relacionando aprendizagem e desejo. Então, a realidade é algo construído pelo sujeito cognoscente, não nos sendo de modo algum dada pronta; deve ser descoberta, montada, criada, ajustada... Assim, muitas vezes o que observamos depende de escolhas, as quais se constituem mais um conjunto de normas que evidências. E, nesse contexto, é que devemos entender a expressão “Dharma Relativo”, uma percepção relativa das coisas, a Realidade Relativa, conectada incessantemente a causas e consequências, a inter-relações infinitas que nossa mente não completamente desperta não pode abarcar."

[Trecho do livro "Caminhos do Dharma", de Pema Dorje/Paulo Stekel, a ser lançado em breve]

terça-feira, 7 de julho de 2015

[CAMINHOS DO DHARMA 05] Diferença entre crença no Budismo e na Ciência Moderna


"No Budismo, uma crença é crença enquanto desprovida de convicção fornecida pela experiência pessoal de prática do Dharma. Não tem a mesma implicação de crença na Ciência Moderna, onde se refere a algo não fundamentado em fatos verificáveis para qualquer um; na prática do Dharma um “fato” é verificável somente pelo praticante e não reproduzível em laboratório. Contudo, o método dármico prescreve uma técnica que, se praticada adequadamente, promete levar a um resultado equivalente. Contudo, isso só seria comprovado dentro do indivíduo, em sua experiência subjetiva, e a Verdade continua encapsulada no interior da Consciência, sem poder ser esquadrinha pela análise externa – como o faz a Ciência -, por sua natureza relativa."

[Trecho do livro "Caminhos do Dharma", de Pema Dorje/Paulo Stekel, a ser lançado em breve]

terça-feira, 30 de junho de 2015

[CAMINHOS DO DHARMA 04] O Dharma Atemporal



"Em seus últimos ensinamentos, Buda disse que seus discípulos não deveriam apenas crer em algo porque ele ou qualquer outro mestre lhes tenha dito. Eles deveriam testar, experimentar e confirmar os ensinamentos. Se não confirmassem, deveriam contestar. Claro que uma contestação significa um embasamento firme, uma verdadeira tese no Dharma, e não um simples “achismo”. Creio que, assim, as escolas foram nascendo ao longo da história do Budismo. Buda ainda deixou em aberto para que os discípulos futuros mudassem as regras de comportamento (consignadas no Vinaya Pitaka, uma das três partes do Cânone do Budismo Convencional em Páli) como melhor lhes conviesse. Se achassem algumas muito pesadas, poderiam abandoná-las. Se achassem outras muito brandas, poderiam criar outras mais adequadas. Afinal, as regras não são o Dharma, mas um meio hábil de chegar a ele. E, estes meios podem funcionar bem num contexto e época, e não em outras situações. A prova disso é que há escolas que recomendam o monasticismo, outras o laicismo; umas o vegetarianismo, outras não; umas o celibato de monges, outras os permitem casar-se. Umas dão mais ênfase à autoridade dos monges, outras são escolas essencialmente leigas; umas propõem iniciações, outras não. Fica claro, então, que o Dharma está acima disto tudo, e as formas são meios para perscrutá-lo. Dharma é, portanto, um conceito atemporal e superior a regras de convivência, que são temporais."

[Trecho do livro "Caminhos do Dharma", de Pema Dorje/Paulo Stekel, a ser lançado em breve]

segunda-feira, 22 de junho de 2015

[CAMINHOS DO DHARMA 03] Reflexos de Buda



"Mesmo em samsara, a existência cíclica condicionada, nossa mente apresenta, por vezes, reflexos da natureza de buda. O problema é que nunca os percebemos como realmente são: simples reflexos de Buda. Nosso Buda. Nosso "eu-buda". Ops. Mas, não há um "eu". Então, é o reflexo de todos os budas. E, o de todos é um só? Eis um mistério que não se resolve dentro do raciocínio logico, mas apenas na profundidade da experiência meditativa. Só assim, a luz do(s) Buda(s) se manifesta." 

[Trecho do livro "Caminhos do Dharma", de Pema Dorje/Paulo Stekel, a ser lançado em breve]

domingo, 24 de maio de 2015

[CAMINHOS DO DHARMA 02] O Macaco Louco



"Nossa mente é como um macaco louco. Não consegue ficar quieta, estável, um só segundo, e já pula para outra posição. Cada pensamento dura menos que um piscar de olhos e já dá lugar a outro. Se pudéssemos perceber aquele tempo diminuto, da ordem de microssegundos, entre um pensamento e outro, abriríamos uma brecha em meio ao fluxo de pensamentos, e nos encontraríamos dentro de um outro estado mental, um estado realmente estável, oposto ao do macaco louco em que nos tornamos. O macaco seria silenciado e permaneceria em paz..."

[Trecho do livro "Caminhos do Dharma", de Pema Dorje/Paulo Stekel, a ser lançado em breve]

sexta-feira, 8 de maio de 2015

[CAMINHOS DO DHARMA 01] A Realidade

Por Paulo Stekel


"A Realidade é uma percepção profunda que vai além da limitação de nossos sentidos. Ainda que esta afirmação pareça muito vaga ou metafísica, a verdade é que, no dia-a-dia, somos confrontados a todo momento com as provas de nossa falha de percepção. Ela se manifesta como emoções conflituosas - apegos, paixões, irritação, agressividade, estupidez, ganância, orgulho, ciúme, inveja e tantas outras. Tornarmo-nos conscientes delas é o primeiro passo para eliminá-las pouco a pouco."

[Trecho do livro "Caminhos do Dharma", de Pema Dorje/Paulo Stekel, a ser lançado em breve]

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Estudando Espiritualidade – Método de Leitura, Contemplação e Ação no Mundo

Pema Dorje (Paulo Stekel)


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Como ler

Aos nove anos de idade li meu primeiro livro. Ele não foi comprado por ninguém. Simplesmente, apareceu entre as revistas de minha mãe. Deve ter vindo por engano junto a elas. Como ninguém acusou ser o dono, ele passou a ser meu. O tenho até hoje, mais de 35 anos depois! O livro em questão é “O Eremita”, de Lobsang Rampa, minha primeira visão do Budismo, em idade tenra. Ainda que a obra de Lobsang Rampa no seu todo seja polêmica e muito contestada, cheia de imprecisões sobre o Budismo Vajrayana (popularmente chamado de Budismo Tibetano) e escrita por uma pessoa que afirmava ser um lama tibetano desencarnado que os registros do Tibete nunca encontraram, crítica com a qual concordo, não posso negar que foi o desencadeador de um interesse por espiritualidade muito importante. Por isso, este livro ainda está na minha estante, sem capa e esfacelado, desde 1979.

Aos poucos, fui reunindo outros livros, desde didáticos, livros de séries escolares bem adiante da minha, e os fui lendo vorazmente, várias vezes até. O livro de Rampa, por exemplo, li umas cinco vezes seguidas. Aos doze ou treze anos já possuía uns 30 livros meus! Aos dezoito anos, uns 300 livros sobre todos os assuntos que se possa imaginar. No total, nestes meus quase quarenta e cinco anos de vida, calculo ter lido entre 1300 e 1500 livros, uma média de um por semana, ou mais, em certos momentos. Nos últimos doze meses, por exemplo, consegui ler 70 livros!

Por causa disso, muitos me perguntam se tenho em casa estes mil e tantos livros. Não. Atualmente, tenho menos de 400 livros impressos e cerca de 300 livros digitais, totalizando 700 títulos no máximo. O fato é que, no caso dos livros impressos, a cada seis meses, escolho as obras que não me interessam mais, ou cujas informações já estão incorporadas a meu conhecimento geral, e passo a doá-las a meus amigos, alunos, clientes ou pessoas desconhecidas, para que continuem a ampliar mentes por aí. Já fiz isto com quase mil livros nos últimos vinte anos. Para mim, que gosto tanto de livros, serve como uma prática de desapego.

Comecei a ler sobre espiritualidade numa época – a década de 1970 – em que não havia Internet, nem PC, nem celulares, nem arquivos digitais, muito menos a farta quantidade de títulos sobre qualquer assunto que encontramos hoje em dia a um baixíssimo custo, no caso dos livros baixados pela rede. Então, qualquer coisa que se conseguia, era degustada com muita calma e atenção. Foi neste contexto que desenvolvi o método de leitura que utilizo hoje. Não se trata de algo como leitura dinâmica ou o que o valha. Por vezes, o utilizo, mas não é este o ponto. Meu método, por sinal, é quase o oposto do dinamismo rápido. É um dinamismo lento...

Livros de espiritualidade são muito complexos quando são profundos, e trazem conceitos que precisam de muita atenção para que sejam adequadamente compreendidos. Então, desde adolescente, eu lia um parágrafo, sublinhava partes importantes, fazia anotações de rodapé a lápis e, se ainda achava necessário, fazia anotações em separado, muitas das quais, futuramente, viraram artigos para jornais, revistas, blogues e websites. Isto é, realmente, estudar um livro!

Desde aquela época, tenho o costume de ler, pelo menos, um livro por semana. Na verdade, minha média é atualmente de umas duzentas a trezentas páginas por semana, o que tenho conseguido manter, apesar da agenda intensa de trabalho. O hábito de leitura é algo que se adquire desde cedo. Contudo, quem não o tenha desde tenra idade pode, claro, mudar seu pensamento e começar a ler com mais frequência. Tudo depende de se dispor do tempo para isso.

O hábito de ler não nos deve parecer algo chato, enfadonho e irritante. Na verdade, a leitura dos livros de escola e de faculdade são os maiores responsáveis por este pensamento equivocado. Então, ao lermos sobre espiritualidade, procuremos situar nosso campo de interesse. Há milhares e milhares de obras sobre o assunto no mercado brasileiro, novos e usados, impressos e digitais, pagos ou gratuitos. Portanto, não temos falta de opções. O que temos é falta de interesse.

Aprender a classificar as obras do assunto que nos interessa é o primeiro passo para evitar uma leitura complicada e que não nos ensina muito do que gostaríamos. Sugiro primeiro que se pesquise o assunto de interesse e uma bibliografia mínima adequada pela Internet mesmo. Há várias opções, e a Wikipedia em Português é uma das melhores para os iniciantes. Você pode pesquisar o assunto pelo navegador (Google, Bing ou outro sistema de pesquisa) usando palavras-chave entre aspas, como nos exemplos: “assunto x”, “livros sobre assunto x”, “bibliografia recomendada para assunto x”, “wikipedia: assunto x”, “wikipedia: livros sobre assunto x”, “wikipedia: bibliografia recomendada para assunto x”, etc. Se também domina espanhol e inglês, o número de opções será, então, infinitamente maior.

Após conseguir seus livros – impressos e/ou digitais – proceda a uma leitura rápida em cada um das seguintes partes (e, nesta ordem): capa, contracapa, orelha esquerda, orelha direita, apresentação ou prefácio, introdução e índice. Esta leitura rápida vai lhe informar sobre a obra, se é introdutória, mediana ou avançada. Se puder classificá-las assim, comece a ler das mais introdutórias para as mais aprofundadas. Isso evitará confusão e terá um efeito didático progressivo.

No caso do estudo de livros sobre espiritualidade, o número de obras é enorme, assim como o número de escolas, doutrinas, seitas, filosofias e tendências. Eles abarcam desde as religiões mais tradicionais (Cristianismo, Budismo, Hinduísmo, Judaísmo, etc.), passando pelas tradições místicas e suas derivações (Cabala, Yoga, Sufismo, Budismo Esotérico, Gnosticismo, Essenismo, Teosofia, etc.), chegando às novas formas de espiritualidade que surgiram nas últimas décadas (livros “new age”, terapias holísticas, terapias “quânticas”, neoxamanismo, neocabala, etc.) e à mescla de Psicologia moderna com espiritualidade oriental. O que escolher? Na falta de uma direção inicial, um pouco de intuição pode ajudar. Se você é um curioso, não fará mal algum ler um pouco de tudo e passar as informações por um bom filtro de ceticismo sadio, pois se aceitar tudo o que ler de uma vez só, vai se dar mal quando perceber as contradições entre as várias visões espirituais de mundo. Vá ampliando a sua visão de mundo, antes de qualquer coisa.

Como contemplar

Quando me tornei “oficialmente” budista, em 1995, incorporei outro método ao já usado: a contemplação. É um método budista usado no estudo de sutras e outros textos sagrados. Mas, eu o uso para qualquer obra que leio. Se trata de ler um parágrafo ou menos, parar de ler, contemplar um tempo (trinta segundos ou mais, se for o caso) olhando para a frente, o céu ou a natureza e, então, retornar à leitura, indo para o próximo parágrafo ou, se o anterior ainda requer avaliações, proceder à sua releitura. Isso ajuda a avaliar melhor o conteúdo que se está lendo de um modo que vai além da mera racionalidade; este método inclui percepção mais profunda. O objetivo da contemplação na leitura sobre espiritualidade é, com o tempo, provocar verdadeiros insights, percepções mais criteriosas e apercebimentos repentinos sobre o que se lê quando nossa mente associa o texto a outros já lidos e contemplados. Este trabalho pode levar anos e até décadas, mas sempre saímos recompensados.

Com o tempo, incluí respiração abdominal – aquela do yoga! – ao processo, tanto no início da leitura quanto entre as contemplações. Isso transformou minha leitura, seguramente, numa forma de meditação, e os resultados foram inúmeros: maior concentração, relaxamento, atenção, melhora na cognição e na criatividade em geral. Também, aumentou muito minha capacidade de decorar textos longos ou esquemas de palestras e cursos apenas com palavras-chave, que incluíam uma grande quantidade de conceitos, temas e subtemas relacionados a elas. A mnemônica de Giordano Bruno lembra muito este método, por sinal. O resultado final deste método é que, com o tempo, ele nos permite ter entendimento, cognição, percepção e inteligência para não apenas lermos, mas também para começarmos a escrever os nossos próprios textos... Foi o que aconteceu comigo.

Em geral, as pessoas não leem seus livros com esta atenção toda, sejam livros didáticos da faculdade ou aquela leitura comum de romances ou obras de autoajuda. Pois, deveriam! Tirariam muito mais daquilo que estão lendo. Com o tempo e a prática acontece algo que parece contraditório mas, que na verdade, é produto da maior concentração facultada pelo método contemplativo em leitura: começamos lendo parágrafo por parágrafo e contemplando entre eles; com o passar dos anos, vamos aumentando nossa velocidade não só de leitura, mas de percepção total do parágrafo, algo quase “instantâneo”, como na leitura dinâmica, mas que a supera, pois não perdemos a continuidade do texto em nenhum momento e ainda conseguimos associar o texto do momento a tudo o que já lemos antes de modo claro e preciso. Ou seja, ler através da contemplação aumenta, com certeza, a nossa capacidade de memorização.

Um desafio: leia este artigo até o fim e, logo após, retorne ao início, usando o método de contemplação. Leia um parágrafo, relaxe e contemple o texto lido por cerca de um minuto, e volte à leitura. Quando estiver relaxado durante um minuto, se permita olhar para a frente, para os lados, para o céu, para o chão. Faça isso sem qualquer julgamento do que está observando. Apenas observe e deixe o cérebro, a mente e o coração fazerem a parte deles. Então, leia o próximo parágrafo ou, se não compreendeu direito, releia o mesmo. Só então, passe adiante.

Ainda que, no começo, pareça que você vai demorar uma eternidade para ler todo o livro, a qualidade do resultado vai fazer você mudar de ideia. A grande verdade é que não importa a velocidade com que se leia, mas o grau de compreensibilidade, de cognição, atingida. E, isso, depende em grande medida da atenção, de uma atenção focada, relaxada e interessada no ato de ler. Se não estiver com real vontade de ler, não o faça. Deixe para depois. Ou, se proponha a um desafio maior e insista em ler, mas aumentando o tempo de relaxamento entre um parágrafo enfadonho e outro. Talvez dois ou três minutos. Em pouco tempo você irá melhorando a velocidade.

Como agir no mundo

O mais importante, após uma leitura, é tentar avaliar a praticabilidade daquilo que se leu e se entendeu. Isto constitui a ação no mundo, capaz de otimizar nossa experiência de vida, fazendo ter mais brilho, mais agilidade, criatividade e efetividade na busca de solução para os problemas cotidianos e para aqueles emblemáticos, como o sofrimento, a doença e a infelicidade. Os livros sobre espiritualidade em geral, independentemente da doutrina, tradição ou fé, podem levar a esta busca, com certeza. Mas, para evitar fanatismos ou visões estreitas, devemos ler com mente aberta a informações novas, mas não com uma mente permeável demais ao encanto dos doutrinadores radicais, em qualquer área. Temos que deixar em aberto um espaço para argumentos futuros e não quebrar os pratos imediatamente com nossa atual visão de mundo. Apenas a experiência e a familiarização com ela pode nos mostrar onde realmente devemos abandonar antigas formas de ver a realidade.

A leitura frequente tem como propriedade mudar ou ampliar nossa visão de mundo. Mudar ou ampliar aqui são coisas diferentes, não sinônimos. Quando mudamos de uma visão para a outra (da visão cristã para a visão budista ou islâmica, por exemplo), isso não constitui, necessariamente, uma ampliação do modo como vemos o mundo e a realidade. Pode significar apenas uma mudança de métodos, de referenciais, de sistemática.

Quando ampliamos nossa visão de mundo, o que a leitura permite certamente, podemos continuar cristãos, muçulmanos ou budistas e, mesmo assim, nos permitirmos a uma inclusão em nossa mente de novos conceitos sobre o mundo e a realidade, sobre nós mesmos e a vida. Não se trata de uma heresia, mas de uma ampliação mental, um novo frescor intelectual, uma arejada nos métodos. Isso, a propósito, é uma via oposta à do fundamentalismo em qualquer área.

Algumas pessoas podem ter dificuldade nesta ampliação e acabam fazendo uma “salada de doutrinas contraditórias”, doutrinas estas que elas tentam encaixar em sua visão esfacelada de mundo, causando muita confusão em suas cabeças e nas dos próximos. Vejo isso o tempo todo! Não basta lermos centenas de livros e fazermos de nossa mente uma “clipagem”, um conjunto de recortes, de partes de doutrinas e proposições. Temos que assimilar tudo e descobrir a “nossa” verdade, reconhecer a “nossa” percepção da realidade e ampliá-la cada vez mais, sem liames, sejam externos ou internos.

Vejo muitas pessoas que se consideram “universalistas” fazendo esta miscelânea insalubre para seus cérebros. Se consideram universalistas, mas só conhecem as doutrinas que usam na mistura de modo muito superficial, muito pobre e, mesmo assim, as tentam impor aos demais sem qualquer conhecimento de causa e efeito. É como indicar um remédio sem tê-lo tomado ou nem sequer testado seus efeitos. Cegos guiando cegos vão abraçados para o abismo!

Uma boa forma de percebermos como nossa visão de mundo muda ou se amplia com o tempo é relermos nossos livros principais e mais profundos cinco ou dez anos após a primeira leitura. Fiz isso com muitos dos meus e, confesso, por vezes, me sentia lendo obras completamente novas, inéditas até. Rsrs.

O conjunto de tudo o que lemos deve nos servir como referencial para a vida, não como uma regra ditada. No caso de livros sobre espiritualidade isso é mais sério ainda. O caminho espiritual requer prática, teste, experimentos. O empirismo espiritual é o método mais antigo para se confirmar verdades filosóficas e um guia confiável para evitarmos o pedantismo, o fanatismo, a superficialidade e o “achismo”, um mal terrível atualmente.

Então, leiamos e ajamos no mundo de modo cuidadoso, sem ficarmos mudando de opinião ao bel-prazer das palavras escritas e não testadas. Não é este o propósito da leitura. Contudo, um senso crítico saudável é muito bem-vindo aqui. Não aceitar tudo, nem rejeitar tudo é o método mais usado pelos meditadores orientais realizados. Perceber onde se encaixa a realidade da informação lida é um trabalho meticuloso que pode levar anos.

Para finalizar, não esqueça o desafio: retorne ao início deste artigo, usando o método de contemplação ensinado aqui. Ao terminar, teste na leitura de seu próximo livro sobre espiritualidade. O resultado será surpreendente.


Sobre o autor

Pema Dorje (Paulo Stekel) é jornalista, escritor, tradutor, revisor e produtor musical, com vários álbuns lançados desde 2008. Stekel é um pesquisador não-acadêmico, um professor autodidata de diversos temas, entre eles Budismo, Sânscrito e línguas sagradas em geral. É um especialista na interpretação dos textos sagrados das religiões. Ainda que seja oficialmente um praticante do Budismo, pesquisa todas as tradições espirituais da humanidade, incorporando a seu trabalho o que há de mais útil nelas para o bem estar geral.


quinta-feira, 26 de março de 2015