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sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Espiritualidade, Nova Espiritualidade e Pseudo-espiritualidade

Por Paulo Stekel



Espiritualidade X Religião

A palavra “espiritualidade” é um conceito mais amplo que “religiosidade” ou “religião”. Religião está mais associada à prática formal de uma doutrina ou crença baseada num conjunto sistematizado de regras, dogmas, promessas e proposições. As religiões dogmáticas (Cristianismo, Judaísmo, Islamismo, Parsismo, etc.) enfatizam mais as promessas (Salvação, Vida Eterna), enquanto as religiões filosóficas (Budismo, Taoismo, Confucionismo, etc.) enfatizam mais as proposições (Libertação, Comunhão, Iluminação, Perfeição, Despertar). As primeiras tentam convencer pelo medo, enquanto as últimas tentam seu objetivo pela ideia de livre-arbítrio.

As religiões mais dogmáticas não são muito amigas do pensamento livre, do questionamento crucial e da análise do dogma, salvo nos círculos fechados onde os interesses do clero religioso são gestados, alimentados e conservados.

As religiões filosóficas enfatizam muito o pensamento livre, o questionamento e mesmo a prova lógica do ensinamento, como acontece no Budismo.

Ambos os tipos de religiosidade estão dentro do conceito mais amplo de “espiritualidade”, que é uma tendência natural no ser humano. Uma tendência de buscar respostas aos questionamentos básicos da vida e da morte numa base transcendental. A espiritualidade não se apega a dogmas, como a religião/religiosidade, mas sim a experiências. Para a espiritualidade, o vivenciar é muito mais importante e desejado que a sistematização de tudo num dogma que pretenda dar todas as respostas. Vemos muito disso nas práticas espirituais xamânicas, mediúnicas e psíquicas. Neste tipo, o dogma não tem a mesma força que possui nas grandes religiões formais organizadas. Cada indivíduo (xamã, médium, canal) é um repositório de conhecimentos universais transmitidos em sua manifestação de consciência alterada e a pessoa de maior autoridade no grupo espiritual enquanto a manifestação se produz. Neste caso, o fenômeno místico é o aspecto mais importante. O antigo Profetismo de Israel se encaixava também neste conceito. Os Profetas se opunham claramente aos sacerdotes, eram mais incisivos, e a maior parte deles morreu de forma terrível (enforcados, decapitados, defenestrados, apedrejados), devido à represália dos detentores do poder religioso (sacerdotes e governantes a eles aliados).

Enquanto a religião segue ditames predefinidos (os dogmas), a espiritualidade privilegia a espontaneidade do fenômeno místico, da comunhão com o Transcendente e da integração com o Universo, em variadas modalidades (teísta, não-teísta, ateísta, etc.). A Espiritualidade é uma dimensão humana que traduz, conforme várias “linguagens sagradas”, o modo de ser e de viver característico de alguém que busca a perfeição na relação com o Transcendental (Deus, Buda, Absoluto, Mente Cósmica). Espiritualidade é um estado de consciência não-condicionada pela mente; teria mais a ver com essência e consciência do que com crença religiosa.

Todos os fundadores de novas tradições espirituais de certa forma “subverteram” a visão espiritual dominante em sua época, mas sempre apresentaram novas alternativas. Isso os diferencia dos simples contestadores da religião, que nada de bom e de novo apresentam para a humanidade. Buda contestou o sistema de castas de sua época, Jesus criticou fariseus e saduceus e sua visão elitista da religião, Maomé combateu a idolatria cega e hipócrita de seu tempo, Moisés lutou contra a relação superficial meramente propiciatória do povo hebreu com a Divindade.

Divergências à parte, todos estes fundadores de religiões apresentaram argumentos novos junto a algo palpável para auxiliar os sofredores. Isso está na raiz da espiritualidade. Quando eles morreram é que tudo mudou e o dogma se inseriu, deturpando a mensagem original.

A noção de uma “Espiritualidade da Nova Era”

Alguns consideram o movimento popularmente chamado de “Nova Era” como uma religião com muitas subdivisões, uma coleção de metafísicas de influência oriental, uma mescla de teologias, pensamento positivo, poder mental, ética e amor pela Natureza. De acordo com esta visão, o movimento “new age” (lit. “nova era”) seria uma teologia ou uma filosofia de bem-estar, tolerância universal, fraternidade, universalidade e relativismo moral.

Contudo, uma análise rápida do que seja uma religião prova que este pensamento é equivocado. Entre as características principais de qualquer religião, estão: crenças relacionadas com o sobrenatural, o divino e o sagrado; derivação de rituais e códigos baseados nestas crenças; a religião inspira certas normas e motiva certas práticas; conceitos-padrão como sacro-profano-deus; relatos sobre a origem do Universo, da Terra e do Homem, sobre a morte e o pós-morte; exigência de uma fé individual e adesão a um certo grupo social; crença em seres superiores que influenciam ou determinam o destino humano; determinação da moral, dos códigos de conduta e do senso cooperativo em uma comunidade; origem da religião através de uma “revelação”; sacralização de certos locais; um corpo de doutrina coeso e geralmente “fechado”, ou seja, que não admite modificações, pelo menos nos pontos cruciais da doutrina (a crença em Deus, por exemplo, no caso das religiões teístas).

Muitos destes elementos faltam ao que se chama de movimento “nova era”. Não é uma religião ou filosofia “codificada”. É uma mescla de muitos pensamentos distintos sobre espiritualidade. Enquanto nas religiões as diferenças são sentidas no nível das “seitas” e “escolas”, no movimento “nova era” são sentidas no nível dos “indivíduos”, o que dificulta qualquer coesão. O grupo social parece substituído por adesão a certas organizações quase empresariais, nas quais tudo funciona na base do comércio. Falta de senso cooperativo, exatamente pela predominância do indivíduo e não do grupo na prática espiritual. A não existência de “mestres” ou “instrutores” de linhagem, mas de “mestres” auto-instituídos que não deixam sucessores à altura. A não existência de corpos de doutrina coesos, pois todo o ensinamento continua “em aberto”.

Por tudo isso, podemos definir o que se chama de “nova era” mais como uma “tendência de visão espiritual” do que como uma nova religião, seita ou filosofia. Essa tendência pode permear várias práticas religiosas, influenciando-as sutilmente através de uma proposta conhecida por “universalismo” ou “espiritualismo universalista” que seria, em poucas palavras: Ideologia baseada nas teorias do Carma e da Reencarnação que insta cada indivíduo a não aderir com exclusividade a qualquer credo, sistema ou doutrina, mas a fazer sua síntese pessoal das diversas correntes de pensamento espiritual (religiões, filosofias e neociências transcendentais – neocabala, projeciologia, etc.). Esta tendência, portanto, pode se manifestar em diversos graus em várias religiões, filosofias ou seitas, sem ser ela mesma uma religião.

Uma “nova espiritualidade”

Partindo da noção de “espiritualidade nova era”, podemos ampliar a compreensão para um conceito mais amplo: o de uma “nova espiritualidade”.

Até mesmo o Dalai Lama, tempos atrás, deu declarações no sentido de uma nova forma de pensarmos a religião e a espiritualidade. Ele disse: “Todas as maiores religiões do mundo com suas ênfases em amor, compaixão, paciência, tolerância e perdão podem e de fato promovem bons valores internos. Mas a realidade do mundo de hoje é que a ética básica que encontramos nas religiões não são mais adequadas. Esse é o motivo porque estou cada vez mais convencido de que chegou o tempo em que precisamos encontrar uma forma de pensar acerca de espiritualidade e ética que vá além das religiões de forma completa.”

Ir além das religiões é o objetivo da “nova espiritualidade”. Didaticamente, poderíamos dividir a espiritualidade em uma “espiritualidade clássica” e outra “emergente”.

A “espiritualidade clássica” corresponderia à proposta pelas grandes religiões clássicas (tanto antigas quanto modernas), pelas filosofias delas derivadas e pelo espiritualismo, Teosofia e Ocultismo com raízes no Séc. XIX e início do Séc. XIX. Em todas essas vertentes, a razão ainda é respeitada em maior ou menor grau.

A “espiritualidade emergente” corresponderia à proposta pelo pensamento sistêmico, pela visão holística, pelo movimento “nova era”, pelo “espiritualismo universalista” e pela “nova espiritualidade” (isto é, tudo o que não se encaixa no “clássico”). Esta forma de espiritualidade já estaria a influenciar alguns ramos da espiritualidade clássica. Na verdade, a filosofia do extremo oriente tem muito a ver com a emergência de uma nova espiritualidade. A nova espiritualidade inaugura, finalmente, o protagonismo espiritual do indivíduo, contra a massificação de “cordeirinhos” típica da espiritualidade clássica.

No livro “Cuidado de si, consciência do mundo”, o sociólogo Raphaël Lioger descreve o cenário atual de transformação radical da religiosidade, com o sagrado invadindo praticamente todas as esferas da vida social. Numa entrevista concedida a Antoine Dhulster, e publicada na revista Témoignage Chrétien, 23-06-2012, Lioger disse (tradução de Moisés Sbardelotto):

Eu acredito que o nosso mundo desenvolvido, ou pós-industrial, está submetido a uma nova tensão mítica, a um novo grande relato. Nesse novo marco, o indivíduo busca a sua realização, a resposta às suas perguntas metafísicas, em um processo que inclui preocupações globais: a ecologia, a paz mundial, etc. A tensão entre essas duas dimensões – individual e global – é o que chamo indivíduo-globalismo.

(…) Na antiguidade grega, pensava-se o ser humano como uma pessoa que adquiria sua dignidade na participação na vida da polis. Depois, dependendo dos contextos e das épocas, na vida da tribo, da família e da nação. Na época moderna, nasce o indivíduo. O conceito de indivíduo é a ideia segundo a qual o ser humano se volta à sua subjetividade, que é abissal, e que se torna, ela mesma, uma espécie de transcendência. (...) Também a partir da época moderna, se desenvolve uma visão do nosso universo como um conjunto infinito.

(…) Há uma coexistência entre esse esquema e as grandes religiões. Estas continuam existindo porque o velho mundo, que as criou, ainda existe. Mas estamos em um período de transição. E, a meu ver, existem três possibilidades para as grandes religiões: ou resistem agarrando-se ao passado e, nesse caso, haverá a fuga dos fiéis; ou fazem compromissos com a modernidade e se mantêm vivas; ou antecipam as transformações futuras e, nesse caso, aumentarão seus fiéis.

(…) As religiões se recompõem em torno a uma noção central, a energia, que é, ao mesmo tempo, salvadora e pessoal. Daí a noção de conexão, de conectividade entre o individual e o global, entre o indivíduo e a natureza. Nesse contexto, o próprio dogma católico é reinterpretado com essa ideia de energia. É preciso pensá-lo perto do imaginário da ioga, da espiritualidade oriental. (…) Por exemplo, incensaremos o taoismo ou o budismo, porque se pressupõe que sejam próximos à natureza. E, simetricamente, rejeitaremos o catolicismo... mas só em um primeiro momento, porque certos aspectos do catolicismo permitem pensar a ecologia, a união com a natureza, o equilíbrio global. É neste jogo de confrontos que o rolo compressor indivíduo-global avança e aproxima as religiões, focando-se na sua estética, mas removendo-lhes o seu núcleo dogmático. As religiões tornam-se pouco a pouco intercambiáveis. Na prática, vê-se o aparecimento de híbridos: faz-se ioga cabalística, gi gong cristão ou meditação zen recebendo a comunhão...”

Estas palavras servem-nos como introdução ao que seria a proposta (ainda em aberto) de uma “nova espiritualidade”. Inicialmente, podemos dizer que essa tendência ou visão emergente, alcunhada de “nova espiritualidade”, não é uma religião, não exige um conjunto de rituais e nem depende de mestres, gurus ou intermediários entre o homem e o divino, o transcendente. Ao mesmo tempo, essa visão emergente não contradiz as religiões, mas propõe uma visão universal dos conceitos e princípios espirituais centrada no “seja seu próprio Mestre”, a propósito, um conselho de Buda a seus discípulos.

O renascimento do antigo paganismo também pode ser considerado dentro do contexto da nova espiritualidade, pois este “renascimento” não é o ressurgimento do antigo paganismo tal como fora no passado, mas com as cores da modernidade. Isso se deve a vários fatores, incluindo o fato de que muito do antigo paganismo original se perdeu, tendo de ser completado com noções mais recentes. De qualquer forma, o novo paganismo, como parte da “nova espiritualidade”, é uma cosmovisão, um modo de ver e entender a realidade, que bebe em fontes de religião e filosofia gregas, nas antigas religiões de Mistério, no paganismo romano, celta, escandinavo, etc. Assim como o todo desta “nova espiritualidade”, parece ser essencialmente monista – o Monismo é uma teoria filosófica segundo a qual a realidade consiste num único elemento, num universo uno e harmônico, onde todas as coisas são formas de uma só substância.

A emergência

Tudo começou nos anos de 1960-1970, com a contracultura, os movimentos pacifistas, os hippies e as novas tendências da psicologia. Nesta mesma época nasceu a noção de “nova era”. A nova espiritualidade é a continuação desta tendência, mas agora de um modo mais sério. Tudo começou com a ideia de paz, do respeito à natureza e do amor incondicional. E, continua assim. Mas, agora, novas noções ampliam a ideia original. A insatisfação das pessoas com as antigas formas patriarcais de religião e espiritualidade toma agora a forma de um culto sem igrejas, sem templos, sem sexismo, sem preconceito.

Há pouco tempo, pesquisadores das religiões, especialmente nos EUA, ao aplicar questionários, perceberam que muitas pessoas respondiam não praticar nenhuma religião oficial em particular, mas também não se definiam como ateias, agnósticas ou não-praticantes; se definiam como pessoas sem religião, mas com espiritualidade. Isso chamou a atenção dos pesquisadores, que então, começaram a falar em uma “nova espiritualidade” emergente em suas pesquisas. Na verdade, parece que o caminho que levou à nova espiritualidade passou por três fases:

1ª – A fase da prática de religiões formais, especialmente as grandes religiões instituídas, fase esta que durou até as décadas de 1960-1970;

2ª – A fase do “religioso não-praticante”, do ecumenismo, do universalismo, em que se continuava professando uma religião tradicional, mas com possibilidade de interagir com outros ambientes espirituais, antigos ou novos, fase esta que durou da década de 1970 até recentemente;

3ª – A fase da “nova espiritualidade”, do rompimento com a prática formal das grandes religiões instituídas, com o dogma que impede a expressão do pensamento e dos potenciais do indivíduo, com uma cosmovisão limitada baseada em prazer e dor, em castigo e compensação, fase esta que é bem recente, da década de 1990 para cá.

Este novo padrão e esta nova cosmovisão, ainda que aberta, tem bases firmes, como uma nova sensibilidade cultural, a busca por uma consciência superior, por mais qualidade de vida, por harmonia profunda (física, emocional, mental e espiritual), por paz e relaxamento (através da meditação, por exemplo) e por uma nova ordem mundial, mais justa, ética e equilibrada.

Neste quadro, as religiões no seu formato antigo não têm mais vez. As que sobreviverem, se adaptarão a esta nova cosmovisão. Já há vislumbres disso aqui e ali, seja no ecumenismo, no diálogo inter-religioso, na visão integral, na troca de informações e experiências entre os praticantes de diversas religiões, ou na relativa liberdade que os religiosos estão tendo em algumas tradições para se envolverem com práticas de outras, sem que isso caracterize alguma heresia.

Para alguns, o que estamos vivendo agora, com a nova espiritualidade, é uma espécie de ressurgimento da Religião-Sabedoria dos antigos, ou algo equivalente, e que durou mil anos, mais ou menos (de 700 a.C. a 300 d.C.). Este período antigo, em que viveram Buda, Zoroastro, Pitágoras, Platão, Moisés, Jesus, etc., influenciou tudo o que vivemos até aqui em nossa sociedade, o bom e o ruim. Agora, com um novo influxo de pensamento, de consciência e de busca de transcendência, novos paradigmas começam a se formar na mente globalizada da sociedade atual, como o paradigma da complementaridade (para substituir a polaridade do antigo mecanicismo), um legado da Mecânica Quântica, que surgiu há pouco mais de cem anos. Daí, surgem as noções de paradigma holográfico e visão holística, também parte da nova espiritualidade.

Em seu estudo “Espiritualidade e Consumo: Relações e Temáticas de Pesquisa”, Paulo Ricardo Zilio Abdala diz:

(...) nos encontramos diante de uma redefinição das antigas formas institucionais de religiosidade. A sociedade contemporânea, impregnada pelo anseio de liberdade e poder individual, deu origem a um novo senso de espiritualidade desprovido de regras rígidas e paradigmáticas, no qual cada indivíduo se utiliza daquilo que mais lhe chamar a atenção sem a necessidade de um comprometimento. Este fenômeno, chamado por alguns pesquisadores de “nova era” (Redden, 2002), também já foi conceituado como espiritualidade “à la carte” (Possamaï, 2000).

(…) No âmbito das ciências sociais, um termo bastante utilizado para designar este fenômeno da nova espiritualidade é “nova era”, ou uma espécie de religiosidade não rigidamente estruturada na qual os indivíduos escolhem livremente no que acreditar de acordo com sua própria vontade e realidade (para maior abrangência desta visão ver Redden, 2002).

Na revista Época, um artigo intitulado “Deus é Pop” trouxe dados de uma pesquisa chamada Religion Monitor realizada em 21 países do mundo pelo instituto alemão Bertelsmann Stiftung
sobre fé e religiosidade (Fernandes, 2009). Os números publicados atestam a força da religião.
Com enfoque no público jovem, a reportagem afirma que 95% dos brasileiros entre 18 e 29 anos se dizem religiosos e 65% profundamente religiosos, colocando-os em terceiro lugar entre os mais religiosos do mundo, atrás apenas de Nigéria e Guatemala.

Comentando sobre o papel da internet neste panorama, o estudo aponta as tecnologias da informação como veículos ideais de uma religião contemporânea e desregulada, que pode ser exercida coletivamente sem sair de casa e submeter-se a qualquer disciplina (Fernandes, 2009).

De fato, observa-se hoje uma busca pela espiritualidade fora dos dogmatismos das seitas e igrejas tradicionais, demonstrada pelo crescimento no ocidente das terapias e práticas orientais de cura, como yoga, reiki, entre outras, conhecidas como terapias alternativas (Bauman, 1998). Estes meios de relacionamento com o mundo espiritual têm por característica serem mais livres do que as antigas igrejas, trazendo em si menos regras de conduta e procedimentos. Na pesquisa alemã antes mencionada, enquanto o jovem brasileiro é o terceiro mais religioso do mundo, ele é apenas o décimo em termos de seguir preceitos de uma determinada igreja ou movimento (Fernandes, 2009).

(…) Diferente das antigas formas de religiosidade, nas quais o caráter mercantilista era velado sob promessas de fé incondicional, as novas terapias alternativas e caminhos espirituais têm preço fixado, praticam marketing e trabalham com conceitos de relacionamento com o cliente.
Diversas revistas, clínicas, programas de imersão, universidades, escolas e empresas, com foco na espiritualidade, proliferam-se ao redor do mundo (O ́Guinn e Belk, 1989). (…) De um lado temos o
espiritual sendo consumido, e de outro temos o consumo sendo espiritualizado. (…) o consumidor espiritualizado é mais suscetível a apelos sociais e ecologicamente responsáveis, contendo altas doses de simbologia e poder de reflexão em seus atos de consumo (Shaw, D., & Newholm, T., 2002). Isto se explica a partir do desenvolvimento de valores altruístas (Sánchez-Fernández et al., 2009), ocasionados por uma possível mudança de foco na relação com o mundo, com as pessoas e com os objetos, causada por uma alteração perceptiva ligada a absorção de insights permanentes advindos das experiências místicas vivenciadas – mesmo que estas tenham sido mínimas e transitórias (Gaarder et al., 2000).

(…) Outra modificação importante na lógica da nova espiritualidade diz respeito a uma mudança nas formas de intermediação entre a fé e o indivíduo. Nestas, a pessoa em questão possui a opção de fazer contato direto com o conhecimento espiritual de seu interesse por intermédio do mercado. Seja na internet, nas livrarias, nas bancas, nos centros de práticas espirituais ou nas lojas especializadas, o buscador da fé tem à sua disposição uma série de possibilidades para se aproximar daquilo que almeja conhecer, bastando para isso ter o dinheiro suficiente para efetivar uma transação. Nisto está também envolvido outro princípio sagrado das práticas religiosas pós-modernas, a liberdade individual para escolher e traçar o próprio destino (Redden, 2002).”

A visão integral de Ken Wilber (1949- ), famoso pensador norte-americano e criador da Psicologia Integral, e de forma mais geral, do chamado Movimento Integral, especialmente no que concerne a uma Espiritualidade Integral, pinta a noção de “nova espiritualidade” com cores mais sérias, mais científicas, mais observadoras.

A sua obra propõe, em suma, a integração de todas as áreas do conhecimento (ciência, arte, filosofia, espiritualidade). A preocupação em unir ciência e religião é recente. A vemos em uma das primeiras vezes nas obras da mística russa Helena P. Blavatsky (1831-1890), na segunda metade do Século XIX, que propunha um estudo comparado de ciência, filosofia e religião.

O fato é que, desde os tempos do guru indiano Maharishi Mahesh Yogi (com sua Meditação Transcendental, nos anos de 1970), passando pela “Cura Quântica” de outro indiano, Deepak Chopra (a partir dos anos de 1980) e por filmes recentes como What the Bleep Do We Know? (Quem somos nós?) e The Secret (O segredo), chegando à gama infinita de Terapias Holísticas e técnicas “quânticas” (o termo virou jargão!) que não param de surgir no mundo todo, junto a novas filosofias espirituais dos mais variados tipos, o que temos visto é a emergência de uma nova forma de busca espiritual, uma busca oposta ao método utilizado até então pelas grandes religiões instituídas. Antes, o corpo hierárquico, o papa, o líder, a comunidade, o dogma, a insensibilidade ao outro fora da comunidade; agora, o indivíduo, o mestre de si mesmo, o líder de si, o servidor da comunidade, a liberdade, o altruísmo direcionado a todos, em amor incondicional.

Em uma entrevista recente, Ken Wilber disse o seguinte sobre sua visão de religião e espiritualidade (http://papodehomem.com.br/ken-wilber-entrevista-brasileira-parte-2/):

(...) a espiritualidade e a religião são interessantes porque ambas estão se tornando cada vez mais separadas. É comum para as pessoas nos Estados Unidos dizerem que “são espirituais mas não religiosas”, ou seja, elas estão separando ambas, elas se identificam com o espiritual mas não com a religião, existe algo sobre a religião que eles não apreciam e existe algo na espiritualidade que eles gostam e esta é a razão deles se definirem daquela forma.

A espiritualidade significa uma consciência mística de uma experiência imediata, que passa diretamente por alguma forma de experiência que não pode ser descrita como parte de alguma mitologia ou dogma, mas pura e simplesmente uma experiência imediata. A religião para essas pessoas significa as formas institucionais de religião e seus mitos, crenças e dogmas; e elas não se sentem mais confortáveis com esse tipo de religião mas se sentem confortáveis com aquilo que eles denominam de espiritualidade, que consiste em não acreditar em dogmas e sim em um processo que emerge na consciência pessoal.”

Os caminhos futuros da espiritualidade humana – o que agora identificamos como “nova espiritualidade” – ainda estão se definindo. A partir do caos dos velhos paradigmas (dogmatismo, em religião; mecanicismo, em ciência) vai sendo gerado um outro, mais abrangente, holístico, humano, coletivo, altruísta e baseado no amor incondicional, na liberdade, na ampliação de consciência e na paz interior. Contemplemos, pois, esta proposta e, na medida do chamado de nossos corações, acerquemo-nos dela!

Neste quadro, o que constitui “pseudo-espiritualidade”?

Pelo exposto, está clara a existência de uma tendência de visão espiritual perfeitamente válida para a caótica humanidade atual. As religiões instituídas estão decadentes e seu espaço está sendo ocupado por movimentos renovadores e de síntese.

Mas, na carona deste movimento, nos seus extremos, também está se gerando uma forma de “pseudo-espiritualidade” muito perigosa, que se assemelha bastante aos movimentos “evangélicos” que pregam a distorcida “Teologia da Prosperidade”. As semelhanças se devem a três características principais: fanatismo, abdicação da razão e forte apelo comercial.

Contudo, é exatamente no seio da “espiritualidade emergente”, que descrevemos acima, que um grupo de indivíduos mal-intencionados e/ou equivocados parece imiscuído: o dos “pseudo-espiritualistas”. Não se trata das doutrinas a que eles aderem, mas a forma como sua ética distorcida funciona que acaba sendo o aspecto mais preocupante. “Pseudo” significa “falso”, “mentiroso”. Então, um pseudo-espiritualista é um mentiroso, uma pessoa equivocada que não entendeu nada do que seja espiritualidade. É alguém que usa tudo para reforçar o ego e não para contribuir para a harmonia universal entre os seres. Algo como um “psicopata espiritual”. Entre estes, há psicopatas de fato, mas também pessoas comuns que deixam a paranoia de suas mentes contaminar tudo o que fazem no campo espiritual. Elas têm uma mente fértil e criativa, mas a utilizam para ludibriar os outros e fazê-los crer que está tudo certo, tudo bem e nada precisa ser feito, contestado ou estudado. É o retorno ao velho método das religiões clássicas que não privilegiam o pensamento lógico e a experimentação.

Os indivíduos deste grupo pseudo-espiritualista têm algumas características fáceis de identificar (não consideremos as características em separado, mas em conjunto):

São pessoas que estiveram em conflito com a religião de origem; são pessoas com necessidade de proeminência e reconhecimento; apresentam suas ideias de forma isolante, sem participar de ações de outros grupos espirituais, embora preguem o universalismo e a fraternidade; são incapazes de ações sociais mínimas, como ajudar os mais carentes, pois tudo o que fazem é baseado num “comercialismo espiritual” e os carentes não podem pagar (!); se consideram mestres de si mesmos mas não têm vergonha de serem os mestres dos outros, seus fiéis e clientes; em suma, são pessoas egoístas com uma ideia fixa de salvação; por fim, não aceitam ideias em contrário. Não há nada de universalidade nesta postura!

Uma das principais características da pseudo-espiritualidade é um caráter apocalíptico, uma espécie de “derrotismo espiritual” e uma vontade de ver “o circo pegar fogo” a que chamamos de “apocalismo”. Até algumas décadas atrás essa postura era apenas comum a grupos protestantes fanáticos à espera do arrebatamento da Igreja de Cristo. Hoje, temos a tendência a um “terrorismo espiritual” semeando o terror aos quatro cantos e fazendo um desserviço à verdadeira espiritualidade. Para evitar surpresas, quando se aproximarem de movimentos ou grupos que professem ideias estranhas, peçam informações detalhadas e se permitam o direito da contestação. Os verdadeiros Mestres não têm medo de debater, pois o próprio Jesus debateu com os doutores da Lei em Jerusalém e o Buda passou debatendo com toda espécie de pessoas até os 80 anos de idade. Se exigirem de vocês crença e obediência cega, algo está muito errado. Salvem-se enquanto há tempo!



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