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quarta-feira, 19 de julho de 2017

Buda, amizade e hospitalidade

Por Paulo Stekel (Pema Dorje)
Budista, escritor, músico, jornalista, prof. de
Meditação, línguas sagradas e orientador do
Projeto Mahasandhi de meditação livre não-religiosa


Introdução

O Samyutta Nikāya, que pertence aos textos mais antigos sobre a vida do Buda, conta que uma vez, o Ven. Ānanda, um dos seus principais discípulos, aproximou-se do Buda e comentou que “metade do caminho está baseado em amizade, companhia e associação com o bem”. O Buda o corrigiu: “Ven. Ānanda, não diga isto. Não meio, mas todo o caminho é estabelecido em amizade, companhia e associação com o bem”.


A amizade é uma força sem comparação. Nada pode gerar qualidades tão boas em alguém como a amizade. Ela é celebrada desde a Grécia Antiga. Mas, também em religiões como o Budismo, Islamismo e mesmo em tradições espirituais tribais ela é muito considerada, por sua função como agregadora social e inspiração às boas virtudes.

Particularmente, tenho amigos muito antigos, de mais de vinte anos, e em muitos casos, nos vemos pouco, dada a distância. Contudo, isso não altera em nada a amizade, pois quando nos reencontramos, a celebramos como se não estivéssemos ficado tanto tempo afastados.

Aprendi ao longo de minha vida como budista que um amigo verdadeiro, um bom amigo, não nos cobra de nada, não exige atenção, amor, carinho ou qualquer outra coisa. Está ali à disposição para compartilhar, e sempre nos recebe com hospitalidade e um sorriso no rosto. Receber-nos com desprezo e sem nem oferecer uma xícara de água, chá ou café é sinal de grande desconsideração. A propósito, no Islamismo, a falta de hospitalidade com amigos e desconhecidos é considerado um pecado terrível, algo que admiro muito.

No budismo, a oferenda mais comum feita no Mahayana-Vajrayana são as sete tigelas ou potes de água e outras substâncias, e as oito oferendas, conforme o antigo costume indiano. Estas oferendas representam tudo o que se ofereceria a alguém que chegasse em casa, para que o hóspede se sentisse bem.

A primeira tigela contém água pura para beber (argham); a segunda contém água para lavar os pés (padyam - água com sabão de sândalo); a terceira, flores agradáveis aos olhos (pushpe); a quarta tigela é o incenso (dhupe) que representa a ética ou moralidade; a quinta é a luz (aloke) de uma lamparina ou vela que representa a sabedoria; a sexta é a água perfumada ou perfume (ghende) que é uma oferenda para o corpo (às vezes, água com açafrão); a sétima tigela contém comida (newidhe - doces, queijo, salgados, etc); a oitava oferenda é a música (shabdha), que não está numa tigela ou através de instrumentos musicais sobre o altar porque a oferenda verdadeira é o som e não o instrumento em si.

Como o Buda é o nosso convidado ao realizarmos um ritual no altar, oferecemos a ele tudo o que ofereceríamos a um amigo que chegasse em nossa casa. No Ocidente, podemos fazer adaptações, mas todos sabemos o que se oferece a amigos que chegam. Um chimarrão no Rio Grande do Sul, um café com pão de queijo em Minas Gerais, etc. Cada cultura com seus agrados. As oferendas budistas são o contexto indiano antigo. Mas, isso nos faz refletir sobre o valor da hospitalidade e da amizade.

O amigo Buda

Um amigo é alguém cuja associação conduz ao crescimento espiritual,
o protege do mal vindouro e interessa-se pelo seu bem-estar”.
(Comentário budista tradicional)

O conceito budista de amizade é muito profundo, por mais que os críticos do budismo o considerem algo frio, destituído de conceito de amor e apreço. O Buda dizia que a vida em harmonia e solidariedade baseada no amor era algo fundamental para todos nós.

Amor, na visão do Buda, é mettā (Páli)/maitri (Sânscrito), a generosidade ou bondade amorosa envolvente, infinitamente mais que mero amor e o oposto da paixão, que se baseia no apego. Maitri é a essência da amizade, conforme os textos antigos, pois a verdadeira amizade é baseada em generosidade amorosa. E, o Buda é o amigo mais adequado, neste sentido, pois nos oferece toda a força de seu Despertar obtido pelo amor compassivo, pela disciplina e pela sabedoria.

O amor de Maitri é um dos Quatro Incomensuráveis, juntamente com Karunā (compaixão), Mudita (alegria altruística) e Upeksha (equanimidade). Este quarteto forma a base da ética budista e do relacionamento entre os seres, e define a visão budista de “amor”, muito mais profunda do que se imagina quando se vê o Dharma budista de longe.

O Bom Amigo

Só se houver Confiança entre nós é que haverá amizade. A Confiança é relacionada para sabermos se temos uma motivação sincera. Se estamos a falar a sério sobre cuidar dos outros, protegendo as suas vidas e respeitar os seus direitos, vamos ser capazes de conduzir as nossas vidas de forma transparente e esta é a base da Confiança, que por sua vez é a base da amizade.” (Dalai Lama)

O Buda descreveu nos textos antigos que existem dois tipos de amigos: Kalyana Mitta (o bom amigo) e o Papa Mitta (o mau amigo). No Dhammapada, ele diz: “Não valorize a companhia de maus amigos ou amigos pouco confiáveis. Associe-se com os amigos bons e corajosos”. No caso de não encontrarmos amigos decentes, o Buda recomendou o retiro, a solidão, mas jamais permanecermos na companhia de tolos, mal-intencionados e pessoas que nos desviem consciente ou inconsciente do Dharma, da ética e da bondade.

Ao descrever o Mau Amigo, o Papa Mitta, o Buda disse que este é, na verdade, um inimigo no disfarce de um amigo. Ele toma as posses do amigo (não apenas as materiais, mas a honra e a dignidade). Faz falsos elogios, oferece pouco e pede muito, e cobra (moral ou materialmente) pelo que oferece, pois se associa mais para proveito próprio que para compartilhar boas virtudes. Um Mau Amigo também é aquele que louva as ações ruins dos amigos e desaprova as boas, ou nem as percebe, nem as incentiva. Fala pela costas, usa de estratagemas e, diante do amigo, o bajula.

O conceito de Mitta Patirupaka (inimigo disfarçado de amigo) é ainda mais forte. O Buda disse que este prejudica de quatro formas: só é boa companhia para embriagar-se, para vagar tarde da noite, para festas e jogos, tirando a pessoa de seu prumo e tornando-a irresponsável.

Ao descrever o Bom Amigo, o Kalyana Mitta, o Buda disse que este é prestativo, sendo igual na felicidade ou na tristeza, dá bons conselhos e se compadece das dores do amigo. Devemos apreciar tais amigos que possuam estas qualidades, cuidando-os como uma mãe cuidaria de seu único filho. Os textos do Tripitaka budista dizem que devemos avaliar um bom amigo segundo sete qualidades: ele deve ser agradável e amável, respeitoso, ser um bom exemplo, útil no falar, tolerante a críticas, capaz de diálogo profundo e nunca disposto a futilidades. Por isso, o Dhammapada diz: “Alguém que mostra teus enganos, os declara como fraquezas e os condena, pense em tal pessoa como um revelador de tesouros. Associe-se com pessoas sábias dessa natureza”.

O Buda disse que, para conquistar amigos, bons amigos, devemos ser generosos, corteses e benevolentes. Devemos ter regozijo pelas realizações de nossos amigos, louvá-los em seus bons atos e grandes qualidades. Mas, como também devemos praticar a fala clara, devemos falar dos equívocos de nossos amigos, para ajudá-los a superar suas delusões. Criticar as faltas dos amigos diante de outros, ou em conversas obscuras, indiretas e atos indelicados, é algo extremamente reprovável. Como se vê, conquistar amigos é uma coisa, mantê-los é outra.

Conforme os conselhos do Jātaka Pāli, não devemos visitar com muita frequência nossos amigos, ou permanecer na casa deles tempo demais. Visitas demais levam à fofoca, à intriga e à cobrança indevida. Em minha vida vi muitas amizades se desfazendo exatamente porque um amigo não saía da casa do outro, e isso sufocou a relação, dando vazão à fala não-virtuosa.

Para o Buda, nunca visitar os amigos, ou sempre dar desculpas para evitar o encontro, também é ruim. Cada um deveria avaliar o que pareceria ser uma frequência ideal, sem exageros ou limitação da privacidade dos amigos. Exagerar nos pedidos de favores também é inadequado, bem como fazer pedidos exigentes, no estilo de cobrança ou devolução. Isto nos torna pessoas incômodas.

Hospitalidade sem ego

A amizade e a hospitalidade andam juntas. A hospitalidade pode ser um bom começo para a amizade, assim como, do ponto de vista da prática budista, é o começo da compaixão pelos seres, algo que desenvolvido à maestria, nos conduz à Iluminação ou Despertar Definitivo.

A hospitalidade é um dos aspectos da compreensão do Carma que um budista deve considerar. Carma é ação, um tipo de força que transcende a matéria, consequência direta de nossas ações. Então, para superarmos o carma causado por nossas delusões, devemos colher o que plantamos. Então, cuidemos do que plantamos. Criemos as opções que queremos para nossa vida. Sejamos humildes. Mudemos a nós, não aos outros. Aceitemos as responsabilidades por nossos infortúnios, ao invés de culpar os outros. Procuremos compreender a interconexão de tudo, incluindo nossos atos em corpo, palavra e pensamento. Tenhamos foco. Abandonemos os pensamentos repetitivos, os maus hábitos, os sonhos frustrados e o apego ao passado. Aprendamos com as dificuldades, transformando-as em Caminho. Sejamos pacientes e esforçados. Coloquemos coração em nossas mentes e em tudo o que fazemos. Por fim, pratiquemos a generosidade e a hospitalidade (que é um aspecto da Primeira Paramita ou Perfeição budista, Dana, o dar, doar ou ser generoso).

Então, ao não sermos hospitaleiros, estamos quebrando a primeira base ética da prática espiritual que é a generosidade, sem a qual não podemos avançar no Caminho. É por isso que ela é tão importante. Ela é a primeira forma de acolher o outro. É uma forma de conhecer a si e ao outro. Ela planta em nós e nos outros a semente da Bondade Amorosa (Maitri) e da Compaixão Suprema, que um dias nos fará despertar como um Buda Perfeitamente Iluminado.

Para o Budismo, o centro da vida não é o homem, mas a própria vida, de modo que precisamos estar integrados a ela para nos tornarmos Realizados. É uma questão de espaço, do seu espaço, do meu espaço, do nosso espaço. Integramo-nos compreendendo o espaço que todos compartilhamos na vida. Não tomamos o espaço do outro. Integramo-nos a ele. Assim é a boa amizade. Assim deve ser a hospitalidade.

Então, da próxima vez que você for cobrar algo de seu amigo, da próxima vez que for reclamar de seu amigo, quando receber hóspedes de última hora ou quando se achar superior aos outros, reflita sobre este texto e pergunte à sua consciência se ela lhe acusa de algo ou está tudo bem.

Sarva Mangalam! (Haja benefício para todos os seres!)




quarta-feira, 12 de julho de 2017

Raining Twilight - single de Stekel

Por Paulo Stekel

 

https://www.youtube.com/watch?v=m-qywyxXVUc

Música instrumental de Stekel: Raining Twilight. O trabalho de Stekel dá ênfase a trilhas sonoras, música ambiental, pop e experimental eletrônico. Confiram!

Stekel é escritor poliglota, especialista em línguas sagradas e trabalha com tudo o que se relaciona à espiritualidade universal. Filho de músico, após muitos anos pesquisando a relação entre Canalização, Cabala e Música, passou a desenvolver um trabalho específico com música espiritual, incluindo música canalizada e mantras codificados. Tem trabalhado com palavras sagradas hebraicas e sânscritas no processo de fazer música codificada. Alguns de seus trabalhos são feitos sob encomenda para algumas pessoas e não aparecem publicamente.

 Mais informações em: http://stekelmusic.blogspot.com

Ouça músicas de Stekel em: http://www.reverbnation.com/stekelmusic

Pedidos das músicas de Stekel através de pstekel@gmail.com

[PROJETO MAHASANDHI] Espontaneidade

Por Paulo Stekel